poesia

Ana Salek (1987-)

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Ana Salek nasceu no Rio de Janeiro em 1987. É mestre em Literatura, cultura e contemporaneidade pela PUC-Rio. Em 2010, publicou seu primeiro livro de poemas, Dezembro. Está preparando seu segundo livro de poemas, ainda sem título e, em outubro, lançará o mini-livro Olho mágico, pela editora Guarda-Chuva.
* * *

os oficiais

1.
com o olhar perdido
você observa as montanhas
onde termina uma
e começa a outra

a interseção entre as duas
parêntesis para a queda
de quem as cruza
pela ponte há muito
armada por oficiais
será impossível tocar o abismo

a forma como aparenta
tocar fogo no lago
entre natureza e orquestra
o modo como o barco
e o espelho d’água se encostam
esmagando
o dia, o fim do dia
dentro do seu olho em brasa

2.

julho foi cunhado
num calendário
por oficiais
você tem um emprego
em que lida com documentos ilegais
autorizados por oficiais
um emprego onde oficiais
decidem
quais documentos legais serão ou não serão
apreendidos
a ilegalidade é decidida
por oficiais
que entram e saem da sua sala
empalidecidos como a manga negra
de um farol
diariamente
oficiais que amontoam-se de papéis
e empreendimentos imobiliários
foi dessas criaturas que você buscou fugir
quando viajou ao vale
mas a fuga não cruza
fronteira entre natureza e escritório
não vai de um monte
ao outro
quando as pontes são projetadas
por oficiais, quando as paisagens
que você escolhe
já chegam prontas
na sua caixa de entrada
depois de passar por eles
os oficiais que viverão para sempre
é da natureza de ser oficial
durar, como os ossos
numa gaveta
mesmo que se termine alguma coisa
delírio de crematório
a durabilidade é um ativo
e os oficiais durarão
entrando e saindo
no ritmo constante
de um elevador
que leva um homem de um andar
para outro andar
exatamente igual
e na primeira vez que faz isso
o faz de bom grado
e na segunda vez, automático
e depois descobre
que passará a vida inteira
imortal que é
entrando e saindo desse elevador
sem sexo
de um andar para outro andar
do mesmo andar para o mesmo andar
sem direito à eutanásia
ou suicídio
os oficiais
decidiram
que ele deve viver assim
e alimenta-se da esperança
de um dia o ascensorista – ele mesmo?
oficial sem o sabê-lo
errar o andar
e o levar por descuido
ao calabouço
onde encontrará gasolina & fósforo

§

alameda jardim botânico

O parque se abria
num clarão em meio à cidade
cortada por alamedas
era assim que você caminhava
com sacolas
tomando aleias aleatoriamente
você enveredava por alguma delas
talvez tivesse um padrão nisso
e você escolhesse sempre
a mais arborizada das vielas
se uma rua tem frutos
você entra nessa
existe um padrão
uma preferência
se tem sombra você decide
primeiro sabor depois
paisagem
cada vez mais para dentro do parque
e o parque cada vez mais tomando corpo
no lugar da cidade
com troncos longuíssimos
alguns até muito largos
que sombreavam as ramificações dos seus sonhos
você carregava um punhado de terra
dentro da sacola
não foi isso que lhe pediram
que você deveria trazer
mas você leva as sacolas de plástico
cada vez mais para dentro da floresta
esquecido do que deveria levar de volta
um miojo, um enlatado
já cozido nesta caminhada
você foi buscar uma lâmpada
para a economia de luzes hospitalares
que fazem do seu quarto
uma clínica vegetativa
você busca uma luz mais natural
que incida de modo delicado
que descanse as pálpebras
por cima da leitura
o seu coração descompassado
não amansa
às vezes você está acuado
pálido até o nariz
observando os besouros no sol
outras vezes
você somente descansa sem susto
certo de que voltará para casa
com o que quer que seja que você foi comprar

§

candy cigarrette (as festas da mãe de v.w)

o prazer sentido à noite
era mesmo inigualável
já não tinha nenhuma
afeição particular
por encontros
embora gostasse de festas
do alarido de pessoas
que chegavam e iam-se
e estimulavam umas às outras
ela observava de longe
com atenção e um pouco de descaso
e uma grande satisfação
em não se aproximar muito
pois um costume,
um traço particular
por menor que fosse
seria suficiente para lhe roubar
a estima pelos convidados
um juízo no início de cada conversa
um queixo – o seu próprio
poderia afastá-la da mais afável
companhia, dela mesma
de modo que lhe agradava ficar só
fumando ou acariciando-se
na sombria quietude do jardim
na suprema realização do silêncio
era disso que mais gostava
dos contrastes que a noite lhe propunha
com o burburinho das conversas lá longe
“a comida tá maravilhosa”
onde passavam pernas e vestidos
navegando com bravura
sobre os charcos
que chuva deixara
uma coisa era certa
ela se comovia pelos contrastes
deste lado, o banco onde sentava-se
e punha-se a ouvir os seus batimentos
em comunhão com as plantas,
com os contos de v.w
do outro lado, o salão cheio – melhor vazio
pois os convidados já deixavam a casa
comentando que a anfitriã
parecia com a anna dello russo
“gente, ela não é igual a anna dello russo?”
as assertivas acompanhadas de gargalhadas
“a filha dela é esquisita, meio louca”
e ouvia-se o barulho dos carros lá fora
as risadas mais esparsas
e aos poucos,
tudo voltava à calmaria apavorante e primeva
sumido o frisson na sala
sem que um tilintar de copos
atravessasse a quietude das varandas
seria mais difícil
apreciar o seu próprio silêncio
outrora um contraponto
para o exercício da escuta atenta
e da visão detalhada
e que agora tinha o forma
circular dos pensamentos

§

station noord com um conto de v.w

do alto da casa
podia-se abrir a janela
quando todos já estavam adormecidos
e fumar um cigarro
o corpo deveria projetar-se para fora
e quem estivesse nas casas em frente
estranhava que alguém abrisse a janela do outro lado
com tanto frio lá fora
sem paisagem e correndo o risco
de ser bicado por uma ave
ou ainda de ser assustado
pelo berro costumeiro
e não menos horripilante
de um desses pássaros em alguma viela
uma ave que arrancasse de surpresa
e alçasse vôo
elas as vezes se aglutinavam
numa das árvores
e escolhiam sempre
das trinta e muitas árvores da rua
descansar justo naquela em frente
à casa onde eu me hospedava
e fitavam a fumaça que subia
ou que insistia em entrar no quarto
por mais que as mãos se esforçassem
que o pulmão soprasse
como se estivessem prontas
para o ataque
atrás da fumaça, os olhos
observavam a paisagem
com bicos curvos, galhos
contorcidos pelo frio do inverno
alguns tons acobreados no céu
quando o sol aparecia
durante algumas poucas horas
iluminando o lago que,
tão logo anoitecia, era inundado
por brilhos irregulares
brilhos que fendiam da lua
derramando uma clareira mais forte que o dia
não havia nada de humano por perto
nenhuma bicicleta na rua
todas as lojas de conveniência fechadas
já podia-se ver o limo tomando
conta da arquitetura
(o último homem do mundo talvez dormisse
numa poltrona)
as coisas saíam dos livros e ganhavam espessura
o grito das aves, a densidade do nevoeiro
o trem que continuava a passar
todos os dias em ponto
sem passageiros
acomodava-se na rotina dos dias
tirando um peso dos ombros
desmistificando os corvos
que eram agora os novos pombos
o que tornava tudo muito real
e ainda mais estranho

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