poesia, tradução

Li Bai, por Ricardo Primo Portugal e Tan Xiao

li bai

Li Bai – o “Lamento do guardião da fronteira”

A Dinastia Tang (618-907) – foi a “era dos mestres” por excelência na literatura chinesa. Dentre os milhares de grandes escritores dessa época, destaca-se Li Bai, poeta que brilhou, sobretudo, nos estilos e temas antigos. Dos cerca de mil poemas seus que permaneceram à posteridade, grande parte são baladas em gêneros tradicionais, de maior espontaneidade e liberdade formal. Em sua vasta produção destacam-se as do gênero Gu Feng, no qual o poeta tematiza a consternação pela situação do país, principalmente perante o flagelo da guerra.

Um dos Gu Feng mais conhecidos do mestre, o “Lamento do guardião da fronteira”, referência na poesia contemporânea a partir da famosa tradução de Ezra Pound, a qual teve duas versões notáveis para o português, de Mário Faustino e de Haroldo de Campos.  Esse poema terá servido a Pound como um exemplo particularmente bem realizado de alguns dos princípios que apontava como fundamentais em poesia, e que lhe serviram sobremaneira para o que chamou de “método ideogrâmico”: a busca da concretude da imagem, na justaposição de termos objetivos, evitando-se adjetivações e termos descritivos, assim como termos gramaticais-coesivos; a ênfase na “apresentação física” dos elementos.

De fato, já é próprio de Li Bai o verso concreto, de termos significativos, substantivos e factuais. Nesse poema, que apresenta paisagens desérticas e arrasadas pela guerra, constrói uma forma particularmente árida, seca, reduzida a “essências e medulas” (Pound). Nele encontramos, até mesmo, exemplos vertiginosos de concretização de abstrações, como no impressionante verso:

阳和变杀气    [yang he bian sha qi]

Literalmente: “yang (o princípio celeste, luminoso/calor, gerativo, criativo, do Tao, associado ao Dragão e seu filho, o Imperador) – harmonia – transformam-se [em] hálito de morte/assassinato”, o qual traduzi (pobremente, mas ao menos tentei…) como:

Calor e luz o sol mudou à morte

A justaposição (operação regida pelo “eixo paradigmático da linguagem”, segundo Jakobson) de significados, um dos recursos mais característicos de Li Bai (e da poesia clássica chinesa, orientada pelo princípio do paralelismo), traz-nos um poema com imagens concretas e arrebatadoras, que se fundem em combinações de fragmentos, sonoridades e visões áridas; um texto de raro estranhamento. Asseguro que nossa tradução foi – como sói acontecer – um fracasso: em chinês, o poema simplesmente não é deste mundo.

Nota: esta tradução estará na nova antologia da Dinastia Tang que estamos preparando para a UNESP. A postagem estaria mais completa se puséssemos também as versões de Pound, Faustino e Campos – além daquela que me parece a melhor em inglês, a de Wai-Lim Ip. Sugiro aos leitores que procurem ler também aquelas excelentes traduções.

Lamento do guardião da fronteira

Ao Passo Norte encobre areia ventos
Vazio desolado do começo
Lívida relva e desfolhadas árvores
Do alto à torre vê-se a terra bárbara

Cidades ermas, vasto o vão deserto
Na aldeia à beira nenhum muro resta
E jazem brancos ossos mil geadas
Avultam pelo mato amontoados

Quem perpetrou tamanha atrocidade?
As ímpias ordas seus ardis marciais
Divina ira inflamam – o Imperador
avança às tropas faz troar tambores

Calor e luz o sol mudou à morte
No Reino ao Centro irrompe a guerra um vórtice
Trezentos e sessenta mil sucumbem
A dores mágoas lágrimas à chuva

E mesmo à dor maior seguir em frente
Quem vai cuidar de campos e colheitas?
Aos guardas de fronteira quem repara
no posto, esta garganta tão amara

Assim Li Mu, largado ao mero olvido
Guardiões são pasto de chacais e tigres

– . – . –

A seguir, o texto em chinês: 

古风

胡关饶风沙,萧索竟终古。

木落秋草黄,登高望戎虏。

荒城空大漠,边邑无遗堵。

白骨横千霜,嵯峨蔽榛莽。

借问谁凌虐,天骄毒威武。

赫怒我圣皇,劳师事鼙鼓。

阳和变杀气,发卒骚中土。

三十六万人,哀哀泪如雨。

且悲就行役,安得营农圃。

不见征戍儿,岂知关山苦。

李牧今不在,边人饲豺虎。

* * *

Os tradutores: Ricardo Primo Portugal é escritor e diplomata, graduado em Letras pela UFRGS. É autor dos livros Dois outonos – haicais (Edições Castelinho, 2012); Zero a sem – haicais (7Letras, 2011); DePassagens (Ameop, 2004), dentre outros. Cotradutor e organizador da Poesia completa de Yu Xuanji (UNESP, 2011, finalista do 54o Prêmio Jabuti) e da Antologia da poesia clássica chinesa – Dinastia Tang (UNESP, 2013, 56º Prêmio Jabuti, 2º lugar), em parceria com Tan Xiao. No prelo: A face de muitos rostos, poemas, pela Editora Patuá.

Tan Xiao é professora de chinês da Universidade Católica do Equador. Graduada em Letras pela Universidade Zhong Nan, Changsha, Hunan, República Popular da China. Estudou português na UnB. Foi intérprete e tradutora português-chinês da Embaixada do Brasil em Pequim. Mestre em linguística pela Universidade de Línguas Estrangeiras de Guangdong.

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