poesia, tradução

Ana Božičević

ana-bozicevicAna Božičević nasceu em 1977 em Zagreb, na Croácia, e se mudou para Nova York em 1997, onde estudou no Hunter College e hoje estuda e dá aulas sobre poesia na BHQFU e no Bowery Poetry Club. Além de ser tradutora de poetas sérvio-croatas, como Zvonko Karanović (com um volume de traduções a ser publicado em breve), e ter publicado diversas plaquetes, é autora de dois livros de poemas, Stars of the Night Commute (2009) e Rise in the Fall (2013) – este último, aliás, ganhador do prêmio Lambda Literary Award de 2014. É também ganhadora do prêmio 40 Under 40: The Future of Feminism, da Feminist Press. Seu site, com mais poemas e informações, pode ser acessado clicando aqui e seu perfil no tuíter é @anaonthebranch. No momento, ela trabalha num terceiro livro chamado The Joy of Missing Out.

Um dos poemas que traduzo abaixo (e que obviamente chama atenção pela temática, ainda mais quando você pensa, inevitavelmente, na história de fundo da autora) se chama “War on a Lunchbreak” e apareceu pela primeira vez numa plaquete com esse mesmo nome em 2011 e depois em seu segundo livro, Rise in the Fall. Dos outros poemas que selecionei aqui, o “Anxiety of Influence” é desse livro também, ao passo que “Home” foi tirado do primeiro, Stars of the Night Commute.

rise in the fall

A Guerra na Pausa pro Almoço

O que é a guerra? Você não conseguir achar
seu outro brinco de pérola escura e você não se importa, na verdade, só que:
esse brinco é o teu irmão. Ele morreu,
e só tinha um, você jamais
vai ver ele de novo. O que é a guerra?

Eterna apatridia.
Poetisas que escrevem sobre rola,
sem pensar em gênero. Meus amigos casados em Vegas
bons velhos rapazes ou hipsters bateristas, só porque podiam, ou
quando contemplo
passar fome
porque assim eu ficaria “um estouro”, ou. Desculpa
não consigo parar de me virar & revirar. Meu ganha-pão aqui

depende de gente que nunca provou da
guerra, e se fazem de ofendidos quando você sai do trabalho
no horário. Não que eu jamais tenha deitado escondida

morrendo na vala, mas se eu tivesse, acho que
entenderia muito da grama seca, o valor incrível que ela tem:
só de ver os caules
mexendo já bastaria.

Queria ter tempo pra digitar isso,
mas o dia todo lá estão eles espiando atrás do meu ombro.
De fato

sinto pena deles. Como deve ser
se importar tanto com alguma coisa? Falar dia e noite
a um deus-monitor, arrumar sua caixa de brinquedos antes de ir dormir:
arranjar diplomas, ter interesses—
isso é a antiguerra?

É por isso que eu não consigo nem ler? Sei que tem guerra ao redor todo de mim,
e dentro tem guerra: quem morreu, quem traiu,
quando é que ela vai olhar pra mim daquele jeito,
que idioma é este, espero que ninguém invada a casa e nos estupre.
Nunca vejo a luz do sol.

O sol no quintal é tão
sem conteúdo, que ele quase sara.

É uma série de câmaras
em que me mostram
o que de fato eu tenho: peso.
Eletricidade. Uma sensação de equilíbrio. Isso basta?
Não sei como encerrar:

fadeout na grama? saída barata.
Algo que alguma poetisa sexy diria, como
“Os terroristas venceram, me acorde com um beijo”—

pede bis, ergue a bota, mostre os peitos!
estou cansada pra caralho do que é “sexy”

ter que ser sexy, corpo de musa
com a cara de lança-navios:

não consigo ler porque estou morrendo, eis a verdade,
prefiro apanhar este sol feito um cachorro.
Você que dê um jeito de escapar desse saco de papel com teorias.
O que é

a guerra? Isto:
sinto o sol mas fico perguntando o porquê.

 

War on a Lunchbreak

What’s war? You’re not able to find
the other dark pearl earring, and you don’t really care, except:
that earring’s your brother. He’s dead,
and there was only one, you’ll never
see him again. What’s war?

Eternal countrylessness.
Lady poets writing about cock,
not thinking about gender. My friends married in Vegas
to good-ol’-boys or hipster drummers, just ‘cos they can, or
when I contemplate
starving myself
so I’d be “the bomb,” or. I’m sorry
I keep tossing & turning. My livelihood here

depends on people who’ve never tasted
war, and act offended when one leaves work
on time. Not that I ever lay hiding

dying in a ditch, but if I had, I think that I’d
know much about dry grass, the incredible value of it:
just to see the stalks
move would be enough.

I’d like to have time to type this,
but all day long they’re looking over my shoulder.
I do

feel sorry for them. What’s it like
to care so much? Talk morning and night
to a proctor-god, tidy your toy box before bed:
to get degrees, have interests –
is that the anti-war?

Is that why I can’t even read? I know there’s war all around me,
and inside there’s war: who died, who cheated,
when will she look at me like that,
what language is this, I hope no-one breaks in and rapes us.
I never see sunlight.

The sun in the yard is so
contentless, it almost heals.

It is a series of chambers
where I’m shown
what I do have: weight.
Electricity. A sense of balance. Can that be enough?
I don’t know how to end this:

a fadeout on the grass? A copout.
Something a sexy girl poet would say, like
“The terrorists have won, kiss me awake”—

encore, cock your boot, show us your boobs!
I’m so fucking tired of the sound of “sexy”

of me being sexy, muse-body
with ship-launch face:

I can’t read because I’m dying, that’s the truth,
I’d rather take in this sunlight like a dog.
You theorize your own way out of this paper bag.
What’s

war? This:
I feel the sunlight but I keep asking why.

 

Angústia da Influência

Adormeci sobre a neve, e
acordei entre as folhas. Quadrilhas delas já estavam por aí
Uma limusine passou. Tinha um guindaste também
amarelo, marca KOMATSU.
O que isso quer dizer, perguntei. O jogo folha/sol
continuava em jogo. Ouvi falar que sono é uma coisa que cura
por isso fui ver o que é que ele curava, mas
não achei cicatriz. Isso eu adorei e detestei. Vou
pro centro, pensei — tocar o terror. Descerei
por lá com meus não-peitos e óculos espelhados e
todas as moscas da cidade pousarão sobre a minha confiança —
mas parece que o escândalo
tem algo de tão provinciano. Divertissement
contra o verde. Tanto da minha vida
protegi contra as forças do verde. Se
for mergulhar, não vou conseguir parar —
preciso ir ao pai que abandonei, lamber
individualmente cada pedra da rua, anotar cada
letra. Temo que quando começar não vai sobrar nada de mim. E se
não sobrar? Pelo menos esta
carcaça de lavanda
permanece — prefiro ser
a bomba d’água seca no meio do bosque do
que ser o bosque. Entende?
Então quer dizer que seria melhor ser relíquia do
que existir em tudo. Sim. E é por isso que você não
é poeta? Sim, é isso que eu quero dizer.
Mas uma coisa continua irresolvida. O quê?
O anseio. Suas ferrugens
te cobrem por inteiro, e bem logo subirá o dia
só pra que se desmanchem em pó vermelho com o mais leve
toque.

 

Anxiety of Influence

I fell asleep in the snow, and
woke up in leaves. Cotillions of them were already out
A limo glided by. There was a crane, too
yellow, brand of KOMATSU.
What does it mean, I asked. The leaf/sun interplay
played on. I heard that sleep was a thing of healing
so I looked in to see what it had healed, but
couldn’t find the scar. I loved and hated that. I’ll
go into town, I thought—cause a ruckus. I’ll swoop
in there with my no-boobs and mirror shades and
every single fly in town will land on my confidence—
but something about scandal
feels so parochial. Divertissement
against the green. So much of my life
I’ve held out against the forces of green. If
I dive in, I can’t stop—
I have to go into the father I abandoned, lick
every individual stone street, write down each
letter. I’m afraid when I start there’ll be nothing of me. And if
I don’t? At least this
lavender hull
remains—I’d rather be
the dry pump in the middle of the wood than
be the wood. Do you get it?
So you mean you’d sooner be a relic than
exist in everything. Yes. And that’s why you’re not
a poet? Yes, that’s what I mean.
But one thing is still unresolved. What’s that?
The longing. Its rusts are
all over you, and pretty soon the day will stand
only to crumble into red dust just at the lightest
touch.

 

Lar

Chove &
pequeninos-de-chuva
falam com ele.
                           Ou:
“Cor é tormento.”
“Seu burro, tá molhando teu livro!”–
cacarejando como pimentas

do verde claro. (eu
não captei o que ele disse do tijolo:
é implacável, carcomido

pela história, acidez Azul-de-olho
envelhecendo
tudo que toca.)          Ó bomba

do mundo visto e não visto!
se ele lhes mandasse calar a boca,
cessaria o falatório.

Mas ele está na sala sem decisões.

 

Home

It’s raining &
little-ones-of-rain
are talking to him.
                           Or:
“Color is torment.”
“Fool, your book is getting wet!”–
cackling like peppercorns

from the bright green. (I
get not what he said about brick:
it’s relentless, eaten

by history, Eye-blue acidity
aging
all it’s touched.)          O bomb

of the world seen and unseen!
If he told them to shut up,
the talking would cease.

But he’s in the room without decisions.

 

(poemas de Ana Božičević, tradução de Adriano Scandolara)

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