poesia, tradução

Carol Ann Duffy, por Bernardo Beledeli Perin

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Carol Ann Duffy nasceu em 1955 em Glasgow, na Escócia, e se estabeleceu como uma das vozes mais proeminentes da literatura de língua inglesa contemporânea. Duffy estudou Filosofia na Universidade de Liverpool e atualmente é professora de Poesia Contemporânea na Manchester Metropolitan University, além de ter sido apontada Poeta Laureada do Reino Unido em 2009 – a primeira mulher, a primeira escocesa e a primeira pessoa abertamente LGBT a ocupar a posição desde que foi instituída em 1968.

Ao longo de sua carreira de mais de quatro décadas, Duffy produziu diversos volumes de poesia, como Standing Female Nude (1985), Selling Manhattan (1987), The Other Country (1990), Mean Time (1993), The World’s Wife (1999), Feminine Gospels (2002), Rapture (2005), Love Poems (2009) e The Bees (2011). Sua obra é bastante diversificada e inclui também peças de teatro, livros para crianças em prosa e em verso, e a edição e organização de antologias. Recebeu prêmios como o “Scottish Arts Council Book Award” (por Standing Female Nude, The Other Country e Mean Time), o “Dylan Thomas Prize” (1989), o “Whitbread Awards” (por Mean Time) e o “T S Eliot Prize” (por Rapture). Desde 1999, integra a Royal Society of Literature.

A dicção poética de Duffy demonstra fortes influências do verso eliotiano e dos Poetas de Liverpool – ela, inclusive, viveu com o poeta Adrian Henri até 1982. A maneira acessível como emprega a linguagem e a voz poética democrática lhe rendeu espaço nos programas escolares, sucesso crítico e comercial no Reino Unido, e também críticas ferrenhas. Apesar de ser considerada por muitos como uma escritora de “prosa como se fosse poesia”, acredito que muito do ódio direcionado a ela advém de seu sucesso comercial e por sua poesia tocar em questões da vaidade da crítica tradicional e sua noção do que deveria ser poesia. A linguagem aparentemente acessível é empregada para falar de temas espinhosos e suas relações com a parafernália e o cotidiano urbanos. Na poesia de Duffy, fervilham temáticas como os amantes alienados pelo cenário urbano, as políticas de identidade e questões de gênero, as vozes daqueles que estão à margem. É uma poesia em tensão, onde vozes e influências se chocam e as divisas entre cultura popular e a “alta arte” acabam borradas.

Entre os poemas que traduzo abaixo, “Education for Leisure” foi escrito na década de 1980, quando Margaret Thatcher era Primeira Ministra e o Reino Unido passava por um período de grandes conflitos – fica como exemplo da poesia politizada de Duffy; já “Valentine” e “Two Small Poems of Desire” são favoritos pessoais (“Valentine” foi o poema com que conheci Duffy) e mostram bem os love poems aos quais a escritora também é afeita.

 

APRENDIZADO PARA O ÓCIO

Hoje vou matar alguma coisa. Qualquer coisa.
Cansei de ser ignorada e hoje
vou brincar de ser Deus. É um dia comum,
meio cinza com o tédio movendo-se pelas ruas.

Esmago uma mosca contra a janela com meu dedão.
Fazíamos isso na escola. Shakespeare. Era em uma
outra língua e agora a mosca está em outra língua.
Eu expiro talento contra o vidro e escrevo meu nome.

Sou um gênio. Eu poderia ser o que quisesse, com metade
da sorte. Mas hoje mudarei o mundo.
O mundo de algo. O gato me evita. O gato
sabe que sou um gênio e se escondeu.

Despejo o peixinho na privada. Puxo a descarga.
Vejo que é bom. O periquito entra em pânico.
A cada quinze dias, ando as dez quadras até a cidade
e me candidato. Eles não gostam do meu autógrafo.

Não há mais nada para matar. Ligo para o rádio
e digo pro cara que quem fala é uma celebridade.
Ele desliga na minha cara. Pego nossa faca de pão e saio.
O asfalto brilha de repente. Toco teu braço.

 

EDUCATION FOR LEISURE

Today I am going to kill something. Anything.
I have had enough of being ignored and today
I am going to play God. It is an ordinary day,
a sort of grey with boredom stirring in the streets.

I squash a fly against the window with my thumb.
We did that at school. Shakespeare. It was in
another language and now the fly is in another language.
I breathe out talent on the glass to write my name.

I am a genius. I could be anything at all, with half
the chance. But today I am going to change the world.
Something’s world. The cat avoids me. The cat
knows I am a genius, and has hidden itself.

I pour the goldfish down the bog. I pull the chain.
I see that it is good. The budgie is panicking.
Once a fortnight, I walk the two miles into town
for signing on. They don’t appreciate my autograph.

There is nothing left to kill. I dial the radio
and tell the man he’s talking to a superstar.
He cuts me off. I get our bread-knife and go out.
The pavements glitter suddenly. I touch your arm.

 

Dois Pequenos Poemas de Desejo

1

Os sons abafados que faço contra tua pele
não dizem nada. Fazem de mim
um animal que aprende vogais; não que eu perceba
que os faço, mas eu os ouço
flutuar por sobre teus ombros, grudando
no teto. Ah Ee Ii Oh, Tu.

Serão sons de surpresa
com os curiosos espectros que tua nudez causa
se movendo sobre mim em quanta luz
uma teia pode reter?

Quem se importa. Às vezes a linguagem virtuosa
é a linguagem mal usada. É duro
e difícil e verdadeiro dizer
eu te amo quando você faz essas coisas comigo.

2

A maneira que prefiro relembrar você
é sem roupas na grama fresca dos lençóis verdes,
logo que acabamos,
e perguntar Que segredo eu sou?

Sou surpreendida numa rua movimentada,
olhando fixo para dentro enquanto você pousa a bebida
e me toca de novo. Como você se sente?

Parecem diminutos jardins
crescendo nas palmas das mãos,
invisíveis,
doces, se tivessem algum perfume.

 

Two Small Poems of Desire

1

The little sounds I make against your skin
don’t mean anything. They make me
an animal learning vowels; not that I know
I do this, but I hear them
floating away over your shoulders, sticking
to the ceiling. Aa Ee Iy Oh Uu.

Are they sounds of surprise
at the strange ghosts your nakedness makes
moving above me in how much light
a net can catch?

Who cares. Sometimes language virtuously used
is language badly used. It’s tough
and difficult and true to say
I love you when you do these things to me.

2

The way I prefer to play you back
is naked in the cool lawn of those green sheets,
just afterwards,
and saying What secret am I?

I am brought up sharp in a busy street,
staring inwards as you put down your drink
and touch me again. How does it feel?

It feels like tiny gardens
growing in the palms of the hands,
invisible,
sweet, if they had a scent.

 

Namorados

Não uma rosa rubra ou um coração de cetim.

Eu te dou uma cebola.
É uma lua embrulhada em papel pardo.
Ela promete luz
como o meticuloso despir do amor.

Toma.
Ela te cegará de lágrimas
como um amante.
Ela fará do teu reflexo
uma foto borrada da dor.

Estou tentando dizer a verdade.

Não um belo cartão ou um correio elegante.

Eu te dou uma cebola.
Seu beijo feroz permanecerá nos teus lábios,
possessivo e fiel
como nós,
pelo tempo em que sejamos.

Pegue.
Seus anéis platinados encaixam como aliança,
se preferir.

Letal.
Seu cheiro grudará nos teus dedos,
grudará na tua faca.

 

Valentine

Not a red rose or a satin heart.

I give you an onion.
It is a moon wrapped in brown paper.
It promises light
like the careful undressing of love.

Here.
It will blind you with tears
like a lover.
It will make your reflection
a wobbling photo of grief.

I am trying to be truthful.

Not a cute card or a kissogram.

I give you an onion.
Its fierce kiss will stay on your lips,
possessive and faithful
as we are,
for as long as we are.

Take it.
Its platinum loops shrink to a wedding-ring,
if you like.

Lethal.
Its scent will cling to your fingers,
cling to your knife.

 

Bernardo Beledeli Perin é tradutor e bacharel em Letras pela UFPR e acabou de ser aprovado no mestrado na UFSC.  Ele já deu as caras aqui no escamandro anteriormente com sua tradução de Anne Sexton (clique aqui).

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