poesia, tradução

Leonel Rugama, por Matheus José Mineiro

Leonel Rugama: Poema, substantivo de combate na Nicarágua

Matheus José Mineiro

siteon173

Leonel Rugama nasceu em 27 de março de 1949, em Vale de Matapalos, Estelí. Em 1967 estabelece contato com a Frente Sandinista de Libertação Nacional se juntando aos também poetas Gioconda Belli e Tomas Borges Martinez (co-fundador da Frente)  e a outros exemplos de associação entre poema e luta político-social, como aconteceu na Guatemala de Otto René e no Chile de Javier Heraud. Nos acampamentos e montanhas, Rugama começa a escrever poesia, poesia que se encharca de arrojo jovem e contestador, incrementado com partículas místicas, políticas diante da ditadura de Somoza e acima de tudo tonificado de esperança e amor:

Epitáfio 

aqui jazem
os restos mortais
daquele que em vida
buscou sem alívio
um
a
um
o teu semblante
em todos os ônibus urbanos.

Energias
[…] pois perto estamos
e quanta distância nos separa […]

Muda-se para cidade de Leon. Matriculou-se no ano-base da Universidade Nacional Autônoma da Nicarágua (UNA). Ali revela seus primeiros poemas em La Prensa Suplemento Literário, mas não publica livros em vida. Em 15 de janeiro de 1970, juntamente com outros dois jovens adolescente, Roger Núñez Dávila e Mauricio Hernández Baldizón, Rugama depara-se frente a frente com um batalhão da Guarda Nacional da ditadura numa emboscada tramada. Como todo mártir, vêm os mitos e lendas na órbita da figura; contam que nesta emboscada, estando os jovens cercados, um guarda gritou para que eles se rendessem e o poeta Leonel Rugama teria respondido: “Que se renda a sua mãe!”.

Leonel deixou um legado de vida revolucionária, sua poesia é impregnado de convicção mística, é intrigada, é contestadoa, o alto teor de busca por justiça caracteriza este legado. Com a sua morte, a FSLN perdeu um “Santo Revolucionário, maneira que o cânone literário trata-o na Nicarágua .

Detalhe importante de frisar é a mescla entre poema e combate que se deu através do alistamento de diversos poetas na Frente Sandinista de Libertação Nacional e em outros países das Américas. Uma passagem curiosa que caricatura bem esta junção, além das obras publicadas neste período, é a Missa Campal que o poeta – místico – padre – reprimido pelo Papa João Paulo celebrava nos acampamentos da FSLN com tons e versos revigorantes. Bem como a atuação feminina com a Gioconda Belli e Ana Maria Rodas com seu livro Poemas de la Izquierda Eróticas. Situações que enrijecem a produção e a funcionalidade poética, unificando o discurso em busca de um bem comum, como também aparece com a mesma potência e periculosidade de um rifle.

O poema “La Tierra es un satélite de la Luna” do Rugama é um dos poemas do autor nicaragüense mais publicado em nível mundial e aqui o traduzi.

A Terra é um satélite da lua

tradução Matheus José Mineiro

A Apollo 2 custou mais que a Apollo 1
A Apollo 1 custou bastante.

A Apollo 3 custou mais que a Apollo 2
A Apollo 2 custou mais que a Apollo 1
A Apollo 1 custou bastante.

A Apollo 4 custou mais que a Apollo 3
A Apollo 3 custou mais que a Apollo 2
A Apollo 2 custou mais que a Apollo 1
A Apollo 1 custou bastante.

A Apollo custou bastante, porém nada foi afetado
porque os astronautas eram protestantes
e desde a Lua leram a Bíblia,
surpreendendo e encantando todos os cristãos
e no seu retorno o Papa Paulo VI deu-lhes a sua bênção.

A Apollo 9 custou mais que todas
junto com a Apollo 1, que custou bastante.
Os bisavós das pessoas de Acahualinca*
tinham menos fome que as avós.
As bisavós morreram de fome.
Os avós das pessoas de Acahualinca
tinham menos fome que o pai.
Os avós morreram de fome.
Os pais de Acahualinca
tinham menos fome que os filhos.
Os pais morreram de fome.
As pessoas de Acahualinca
tinham menos fome que os filhos.
Os filhos de Acahualinca não nascem com fome,
eles tem fome de nascer para morrer de fome.
Bem aventurados os pobres
porque deles serão a Lua.

( * huellas de Acahualinca – pegadas de Acahualinca em Manágua, vestígios fosseis no solo evidenciando a pré-historia na Nicarágua)

Na foto tirada pela poeta beatnik americana Margaret Randall em visita a Nicarágua na década de 70, mostram mulheres diante de um muro onde estão escritos versos de Rugama.

Na foto tirada pela poeta beatnik americana Margaret Randall em visita a Nicarágua na década de 70, mostram mulheres diante de um muro onde estão escritos versos de Rugama.

 

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3 comentários sobre “Leonel Rugama, por Matheus José Mineiro

  1. Pingback: Leonel Rugama, por Matheus José Mineiro | O LADO ESCURO DA LUA

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