poesia

Daniel Francoy (1979-)

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Daniel Francoy, nascido em 1979, natural de Ribeirão Preto, é graduado em Direito e trabalha no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Em 2002, participou da coletânea 4 Poetas na Net, pela editora portuguesa Sete Sílabas. Em 2010, ainda em Portugal, estreou em carreira solo com o título Em Cidade Estranha, pela Editora Artefacto. Participou do número 1 da Revista Literária Agio (Editora Artefacto, 2011), da coletânea mixtape (Editora doladoesquerdo, 2013) e, enquanto colaborador da revista eletrônica Enfermaria 6, dos “Caderno 2” e “Caderno 3”. Teve poemas publicados na revistas eletrônicas mallarmargens e Parênteses. Em setembro de 2015 , lançou o segundo livro, Calendário, novamente pela Editora Artefacto, em Lisboa. Continua inédito no Brasil.

* * *

UM TURISTA

Em janeiro o massacre
e os soldados nas praças
foram inconvenientes como o frio
que se demora na manhã e pouco
a pouco se infiltra nos ossos.
Inconvenientes de férias, pensei,
eu que ainda prefiro a Europa
aos Estados Unidos da América.
No mundo novo, tantos mortos
sem catedrais, tantos assassinos
que ergueram as suas cidades
como se estivessem limpos,
o que é muito diferente dos ocidentes
em que tudo começou: pestes,
guerras, panteões espantosamente
inviolados. Perdi a conta
de quantos centavos de euros
e de quantos bilhetes de metrô
deixei sobre o mármore que guarda
algum morto célebre. Estou aqui,
amigo, compreendo a sua morte
e que bela foi a casa em que nasceu
antes de descer às covas coletivas
ou afogar-se em algum rio
ou apenas expirar docemente
em meio a rostos amados após
tanto resistir, mas ainda será
assim amanhã? Ontem ganhei
um dia em Viena porque Budapeste
foi sitiada para impedir a imunda
diáspora – outro inconveniente
das férias e das carnificinas
e no entanto há poréns:
se um grande ódio se avizinha
antes do incêndio visitei
a Torre Eiffel e Auschwitz.

SER ÍNTIMO DA MORTE NÃO APENAS DA CARNE

1.

Ser íntimo da morte não apenas da carne:
da pedra também pois talvez seja o que melhor
ensine a morte da alma.
Não ignoro, a minha permanência é menor
do que a de uma semente outonal
embora eu insista na mentira: existe algo
em mim que talvez seja igual a esta casa
e esta casa talvez seja igual as de Pompéia
e Pompéia é da mesma matéria
fecunda do barro em torno
das raízes e sonho igual
tenho para a alma quando a penso imensa:
talvez seja igual ao céu
sem margens, aberto, de uma planura
insustentável que se encurva
ao repetir uma única idéia: não
acaba.

2.

Há uma morte que mastigo.
Uma primeira morte que sangro
entre os caninos enquanto sinto sede
e uma outra morte mais branda,
leve, longa, lenta
como uma pedra a se esfarelar
tendo apenas o vento como amante.

AS POSSIBILIDADES DA CHUVA

O verde das árvores tinge-se de uma sujeira castanha,
a relva torna-se bronze como palha e terrenos baldios
inteiros apresentam um tom enegrecido de um incêndio
íntimo do dia e na manhã depois o caminho segue
sobre uma terra que estala a cada passo, entre garrafas
de cerveja, ossadas, embalagens de comida e preservativos
que o fogo desenterrou. Com sorte, se é a desolação
que o espírito anseia, existem carcaças
carbonizadas de automóveis e de ônibus e então é possível
sentir-se um pouco como as crianças que brincam na célebre
fotografia de Doisneau – La Voiture Fondue.
Há quem realmente acredite que uma chuva que não seja
negra lave o horizonte e que a meia-noite respire
como um puro rio sem margens? Insistem os augúrios
meteorológicos, esperança minguada: hoje
e amanhã contam com 80% de possibilidade de voltar
a chover e há mesmo quem espere
que a chuva cumpra todas as suas possibilidades,
devolvendo ao homem o sono e o sonho, apaziguando
a febre das raízes, recompensando a tenacidade
dos roseirais, sendo o doce, exausto e esperançoso
murmúrio de amantes na penumbra. Lembras-te
de quando deixamos a sombra vir? A chuva
cintilava na contraluz ao cair sobre o telhado
vizinho, sobre as asas encharcadas dos pássaros
doentes como ratos mas de vôo infinito. Mas não será
assim hoje e amanhã. A chuva tornou-se rude
talvez como um velho canceroso a pigarrear
ou como a fúria com que os homens aceleram os carros
quando presos no congestionamento, e vem sempre
antes de Sísifo atingir o cume outra vez
e antes de qualquer bolsa de valores fechar o pregão
com os homens cada vez mais gordos cada vez mais em pânico
e enquanto um rio se transforma em Ganges
e uma gaivota devora os olhos de um afogado
sob a noite que, manto imenso,
abriga cada mágoa e sonho desterrado, dizendo ao luar
enlameado “não, não machuque” – sempre
precedida de um vento áspero,
um vento serpente que traz em seu bojo
um cheiro de pólvora e óleo diesel queimado
que vai revirando o vazio e fazendo um trabalho
idêntico ao do fogo: exumar, elevar
torvelinhos de enxofre, deixar que os corações
transidos de medo estremeçam
diante da suave dança das palmeiras
que encantadas também se movem como serpentes.

POETA DO SEMÁFORO

Vou lançar a teoria do poeta do semáforo.
Poeta do semáforo:
Aquele em cuja poesia há o desprezo bruto da vida.
Vai um homem sórdido,
Sai um homem sórdido da concessionária com um novíssimo
[Mercedes Benz e no primeiro sinal vermelho vem um aleijado
[vendendo quinquilharias berrando em seus ouvidos.

É o poeta do semáforo
E o seu poema é gritar para o próprio rosto refletido
No vidro escuro do carro do indiferente homem sórdido.

Sei que há esquinas sem aleijados em lindas cidades do mundo
Mas estas ficam para os homens bomba e para os poetas ciclistas [que envelheceram sem nunca ter atropelado um cachorro.

POEMA ESCURO

1.

A cidade cresce para dentro da noite
como o avesso de uma raiz
ou um túnel pelo qual sigo
contra os ares empestados, ciente
da morte do canário protetor.
Tenho nos olhos dois espelhos
voltados para dentro, para o escuro
interminável e subterrâneo
e com os olhos assim violados
abrem-se as rotas noturnas
para dentro da noite, para dentro
da terra que guarda dias inteiros
em estado de flor carbonizada.
Estendo as mãos, busco a distância,
tateio labaredas negras, o abismo
raso como um mar que seca.
Na cidade sem árvores
como nomear um impreciso
sentimento de pássaro?

2.

Foi um dia como os mortos
jamais se esqueceram.
Aprendi com raiva a ternura
e há tantas palavras
que poderiam ser sussurradas:
sono, principalmente.

3.

Tantas vezes o amor
foi óbvio como semear a terra
e tantas vezes semeei a terra
com violentos golpes de foice
como se me vingasse e a terra,
também ela vingativa, restituiu-me
as suas ossadas mais persistentes.

4.

A cidade cresce para dentro da noite
com a sua escassez de água,
com os seus caixas eletrônicos 24 horas,
com os seus postos com gasolina adulterada
com os seus homens que na raiva, no sono
e na fome encontraram a mesma verdade
incompleta e caduca.
Foi um dia como os vivos
jamais desejaram.

DEEM-ME UM CADÁVER

Deem-me um cadáver, qualquer um.
O cadáver dos assassinos.
O cadáver dos inocentes.
O cadáver que não sabemos
se é um dos nossos ou um dos outros.
Deem-me um cadáver sem limpá-lo.
Deem-me um cadáver para que eu saiba
que todos os dias são de bocas seladas
para palavras tais como justiça, liberdade, paz.
Deem-me um cadáver
que todos os dias saía para as ruas
de uma cidade bombardeada,
de uma cidade que nunca foi livre,
de uma cidade em que fomos felizes.
Deem-me um cadáver
e eu não estarei repugnado
porque a minha silenciosa repugnância
é diante dos homens diante dos mortos.
Diante de suas palavras sujas
como mãos sujas de sangue.
Deem-me um cadáver que poderia ser eu
e um cadáver que eu poderia assassinar.
Deem-me um cadáver para que eu o entregue
– duas moedas sobre os olhos para que o pesadelo clareie –
ao meu profundo espanto, ao meu profundo medo,
à minha gravidez de ódio.
Deem-me um cadáver como quem educa.
Deem-me um cadáver para que com ele
eu entre no dia após um dia de sangue
e saiba que a clara luz renovada
é pureza bastarda.

 

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