poesia, tradução

Denise Levertov, por Stefano Calgaro

levertov

Denise Levertov (1923-1997) nasceu em Ilford, Inglaterra, e foi poeta, tradutora, ensaísta, editora e professora. Com doze anos enviou alguns poemas a T. S. Eliot, que a incentivou a prosseguir. Há em sua vida três fatores que permearam muito sua poética: 1) a educação informal e religiosa que teve pelos pais; 2) ter servido durante a Segunda Guerra como enfermeira, o que influenciou muito o seu engajamento social e político, algo que se intensificou na década de 60 e 70 (escrevendo alguns poemas sobre a Guerra do Vietnã, por exemplo) e que permeou toda a sua obra poética, direta e indiretamente; 3) a ida (sem retorno) para os Estados Unidos na década de 40, onde lecionou em diversas universidades ao longo de sua vida e influenciou-se muito com os poetas de Black Mountain – W. Carlos Williams, H. D., Charles Olson, Kenneth Rexroth e Wallace Stevens. Morreu de um linfoma em 1997. Como tradutora, traduziu obras como cânticos bengali e os poetas franceses Jean Joubert, Alain Bosquet, Eugene Guillevic. Nunca publicada no Brasil (apesar de traduções esparsas pela internet), dentre sua vasta obra, alguns de seus principais trabalhos incluem The Double Image (1946), Here and Now (1957), The Jacob’s Ladder (1961), O Taste and See (1964), entre outros.

Stefano Calgaro (1991) nasceu em Porto Alegre. Mora em São Paulo onde se graduou em cinema e cursa Letras.

 

Nossos corpos

Nossos corpos, ainda novos sob
a ansiedade gravada de nossas
caras, e inocentemente

mais expressivos que caras:
mamilos, umbigo, e pentelho
fazem de qualquer forma um

tipo de cara: ou levando
as sombras redondas ao
seio, traseiro, saco,

a dobrinha da minha barriga, o
oco da sua
virilha, como uma constelação,

como se inclina da terra ao
amanhecer num gesto de
brincadeira e

sábia compaixão-
nada como isto
vem a passar

em olhos ou bocas
abatidas.
                  Eu tenho

uma linha ou ranhura que amo
percorre
meu corpo do esterno
à cintura. Fala de
ansiedade, de
distância.

                  As suas longas costas,
a cor da areia e
como os ossos se expõem, diz

que céu após o pôr-do-sol
quase branco
sobre a profunda floresta à qual

as gralhas se dirigem, diz.

 

Our bodies

Our bodies, still young under
the engraved anxiety of our
faces, and innocently

more expressive than faces:
nipples, navel, and pubic hair
make anyway a

sort of face: or taking
the rounded shadows at
breast, buttock, balls,

the plump of my belly, the
hollow of your
groin, as a constellation,

how it leans from earth to
dawn in a gesture of
play and

wise compassion-
nothing like this
comes to pass
in eyes or wistful
mouths.
         I have

a line or groove I love
runs down
my body from breastbone
to waist. It speaks of
eagerness, of
distance.

         Your long back,
the sand color and
how the bones show, say

what sky after sunset
almost white
over a deep woods to which

rooks are homing, says.

 

A cabana

Lodo e taipas.         Quase redonda,
musgo. Limiar: uma escrita,
pequenas pedras encrustadas, calcada.
“Entre, quem
Assim deseja”.

Chão, terra batida.         Paredes
sombras.         Urna ao centro.
Ao dia, entrando do
verde fundido, entardecer
profundo.         À noite, através da chaminé,
a estrela.

 

The hut

Mud and wattles.         Round almost.
Moss. Threshold: a writing,
small stones inlaid, footworn.
‘Enter, who
so desires’.

Floor, beaten Earth.         Walls
shadows.         Ashpit at center.
By day, coming in from
molten green, dusk
profund.         By night, through smokehole,
the star.

 

cenário

O teatro da guerra. Fora do palco
um elenco de milhares chorando.

Centro-esquerda, bem iluminado, uma barragem
de corpos desenterrados,

ou partes de corpos. Direita,
perto de alguns bambus mortos que servem como asas,

um corpo inteiro, no qual
um esguicho de napalm trabalha.

Entra a noiva.

Ela tem um seio, um olho,
metade do escalpo calvo.

Ela cambaleia rumo ao centro.
Entra o noivo,

um soldado jovem, magro, mas sem
feridas aparentes. Ele a vê.

Primeiro devagar, então rápido e mais rápido,
ele começa a tremer, a tremer,

A ondular de tremer.         Cortinas.

 

scenario

The theater of war. Offstage
a cast of thousands weeping.

Left center, well-lit, a mound
of unburied bodies,

or parts of bodies. Right,
near some dead bamboo that serves as wings,

a whole body, on which
a splash of napalm is working.

Enter the Bride.

She has one breast, one eye,
half of her scalp is bald.

She hobbles towards center front.
Enter the bridegroom,

a young soldier, thin, but without
visible wounds. He sees her.

Slowly at first, then faster and faster,
he begins to shudder, to shudder,

to ripple with shudders.         Curtains.

(poemas de Denise Levertov, traduções de Stefano Calgaro)

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