Uncategorized

7 ideias sobre um poema ao vivo, de Reuben da Rocha

siga-os-sinais

O que eu gostaria é de caminhar para os últimos meses deste experimento havendo pontuado certas coisas sobre a prática de fazê-lo. Ser um pouco claro. Descrever as etapas do trabalho. Em agosto de 2015 dei início à série Siga os sinais na brasa longa do haxixe, mas uma série? É uma epopeia sci-fi seriada em 6 fascículos. É a saga de Maria Estrela Forte, a astronauta travesti, Peixeira Tenaz, a hacker ka’apor, e Lança Flamejante, a guerreira queniana, um organismo resistor em guerra contra o Conglomerado Financeiro da Fé, ditadura instaurada nove anos atrás, em 2084. Estou escrevendo agora em março de 2016, no dia em que o 4o livro foi para a gráfica, e gostaria de dizer o seguinte:

1. é uma escrita em performance, ou seja, uma que exacerba as qualidades temporais da poesia. A duração do gesto é a maneira de vivê-lo. Tudo começou de uma grande energia acumulada após uma vivência de criação coletiva durante a qual (55 dias) só escrevia na presença do grupo. Propulsão diária metódica do corpo. A concepção de cada fascículo dura cerca de 2 meses, do rascunho à impressão. É uma escrita intensiva (concentrada) com pouca margem de erro. “O texto deve atingir de imediato aquilo que almeja”.

2. é uma escrita de estrutura (montagem / e música). Odisseia Godard. O gênero épico intersecciona poesia e ficção científica. Ritmo + ação = imagem em movimento. Propósito de comunicar ou afetar o sistema de comunicação e seus efeitos. Opacidade. Corte. Constelar: composição. Pois a fala mais neutra é a mais linear e a mais imunda = ensina qualquer deputado ou similares no dia a dia da sabotagem retórica.

3. o gênero épico primordialmente nasce da voz, e da performance, portanto. Oralidade não é um naturalismo da voz ou fala mas codificações não tipográficas do gesto (corpo do ritmo) e musicalidade (tom e textura). Performance é um registro de oralidade.

4. é um poema-gibi. O formato seriado intersecciona quadrinhos e ficção científica. senso de Universo narrativo. A mídia gibi cria regras para a escrita (2 meses para cada 1 de 6 fascículos totalizando 1 ano) e determina aspectos estéticos (papel, tipografia, embalagem discursiva). Performance gráfica. (regência da oralidade em universo gráfico). Ficção-objeto. Intersecções = polinizações cruzadas. Pop não: popular-charmoso. Aspecto meta-estrutural já que haxixe é pólen concentrado. Citação se necessário: folhetim. Me encanta a reprodutibilidade enquanto aspecto da linguagem impressa.

5. há uma narrativa gráfica simultânea desviante às palavras. Détournement, grafismos, colagem. Pesquisa visual de alguns anos coletando livros sobre a Terra, astronomia, botânica. Pois o que está no alto é igual àquilo que está embaixo. No volume 2 utilizei também uma série de desenhos que chamo “Sismógrafo”, caneta solta sobre papel em movimento nos trens da CPTM linha rubi, realizada um ano antes.

6. as colagens são montadas direto na mesa de luz do scanner, sem cola, ou seja, não existem originais, somente vestígios soltos de xerox, recortes, impressões em transparência. Que vão se sobrepondo ritmicamente na mesa. Recombinação de poucos elementos em sequências de quadros. Efeito sequencial. E incorporo os ruídos da luz.

7. extenso exercício de telepatia com a artista Gê Viana, que faz as capas. Cada capa é um elemento simbólico decisivo, que me atira para o livro seguinte. Exercício de tele transporte com o editor Bruno Azevedo, que diagrama comigo o objeto. Via áudio de celular. Orientação espiritual de Marshall McLuhan, Hélio Newyorkaises Oiticica, Paul Zumthor e Zygmunt Molik. “A invenção é uma extensão da energia humana”.

(Reuben da Rocha)

 

* Reuben da Rocha ou cavalodadá (São Luís/MA, 1984) publicou os livros Miragem no olho aceso, As aventuras de cavaloDada em + realidades q canais de TV (2013), Na curva da cobra nos cornos do touro no couro do tigre na voz do elefante (2015), e o mais recente Siga os sinais na brasa longa do haxixe, com lançamento dia 26 de março, no Estúdio Lâmina (SP).

Padrão

Um comentário sobre “7 ideias sobre um poema ao vivo, de Reuben da Rocha

  1. Parece um exercício camaleônico de corte e colagem insano… Ultimamente tenho escrito poemas Sci-fi, e aqui achei alguém que tomou a estrada de assalto, “poema-gibi”, travesti astronauta, sagas, uma consideração madura do papel da sinestesia e dos símbolos, causou-me impressão extraordinária, Reuben. Se possível, lembra-me a visão total de arte de Wagner, em versão “punk” rs. Foda.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s