poesia, tradução

“Tradução total” de Jerome Rothenberg

rothenberg

Aqui no escamandro tenho feito alguns posts sobre as questão da tradução quando envolvem o corpo, mas quase sempre tratei de tradições ocidentais próximas. Por isso, deixo aqui trechos de uma fala de Jerome Rothenberg (Nova Iorque, 1931 — quem não conhece, sugiro que o faça logo) sobre sua própria experiência na tradução da poesia cantada dos índios Navajo, numa tradução de Luci Collin. No caso, tratava-se de canções de Frank Mitchell, que Jerome verteu-performou como Horse Songs. É fundamental ver como, no relato da sua experiência, Rothenberg revela que a teoria vem mesmo junto com a prática, como propõe Henri Meschonnic: nada de modelos pré-fabricados de tradução.

guilherme gontijo flores

PS: Depois do excerto, há links para 9 canções.

* * *

A tradução total: uma experiência na apresentação de poesia ameríndia (1969)

[…]

Agora o que me atraiu (além de uma qualidade na voz de Micthell que eu achei irresistível), foi a possibilidade de trabalhar com todo esse som e encontrar minha própria via para isto em inglês. Acredito que foi porque a música estava tão claramente dentro da gama do idioma: era canção & era poesia & parecia possível, pelo menos, que a canção resultante da poesia fosse uma extensão disto ou que tenha surgido inevitavelmente da junção de palavras e de outros sons vocais. Tantos de nós já tínhamos tido interesse por esse tipo de coisa como poetas, que me parecia natural estar numa situação em que a poesia estaria me conduzindo a uma (nova) música que ela  estava gerando.

Comecei com a 10a. Canção-Cavalo, que tinha sido a primeira a ser cantada por Mitchell quando McAllester o estava gravando. Naquele momento eu não sabia se faria mais do que citar ou aludir aos vocábulos: possivelmente atraí-los, ou algo parecido com eles, para o inglês. A princípio eu estava escrevendo, trabalhando nas palavras através de esboços de frases que pareciam naturais de acordo com meu próprio senso do idioma. Na 10a. Canção há uma divisão de oradores: a voz principal é a do Inimigo Matador ou Menino do Amanhecer, que pela primeira vez trouxe cavalos às Pessoas, mas o coro é cantado pelo pai dele, o Sol, que o manda levar cavalos dos espíritos & outros animais & bens preciosos para a casa de sua mãe, a Mulher Mutável. A tradução literal do refrão — (para) a mulher, meu filho — parecia estar um pouco distante de como a pronunciaríamos, embora fosse bastante normal em navajo. Foi com essa impressão de que, independente das distorções no som apresentadas pelo navajo, a sintaxe era natural, que mudei a interpretação sugerida por McAllester para vá até ela meu filho & a linha de abertura dele,

Menino educado no amanhecer. Sou eu, eu é que sou esse aí

(literalmente, sendo esse, sugerindo causa), para

Porque fui eu o menino criado no amanhecer.

Ao mesmo tempo achei que estava tratando a questão mais ou menos pela economia da redação do original.

Eu passei pelas primeiras sete ou oito linhas assim, mas ainda não tinha alcançado os vocábulos. A abordagem mais “efetiva” de McAllester — reproduzindo os vocábulos exatamente — me parecia errada pela seguinte consideração: no navajo os vocábulos dão um claro sentido de continuidade que vem do material verbal; i.e. as vogais, em particular, mostram uma relação de rima ou de assonância entre os segmentos “sem sentido” & os segmentos significantes.

[…]

Decidi traduzir os vocábulos &, a partir disso, já estava jogando com a possibilidade de traduzir outros elementos das canções que normalmente não são contemplados pela tradução. Também pareceu importante ficar tão longe quanto possível da escrita. Então comecei a falar, e depois a cantar minhas próprias palavras em cima da gravação de Mitchell, substituindo os vocábulos dele com sons que me pareceram relevantes, gravando a seguir minha versão numa nova fita cassete, tendo que daí explorá-la em suas próprias condições. Também não foi fácil para mim romper o silêncio ou ir além dos níveis de entonação superficiais de minha fala & eu ainda achava mais natural naquela versão anterior substituir os vocábulos por palavras inglesas curtas como “one”, “none” e “gone” (é difícil para um poeta-da-palavra abandonar por completo as palavras), esperando que algo de sua força semântica diminuísse com a reiteração.

[…]

Ao cantar a 10a. Canção pude avançar ainda mais com as palavras curtas (substituições de vocábulo) até a área de puro som vocal (a diferença, se fica clara a partir da ortografia, entre one, none & gone e wnn, nnnn & gahn): sonorizações que continuariam nas outras canções a uma distância ainda maior dos significados excluídos.

[…]

Finalmente, a escolha de sons influenciou o estilo do meu canto, apresentando uma grande ressonância que eu achei que poderia controlar para servir como um tipo de zumbido de apoio à minha voz. Por meios como este a tradução estava assumindo vida própria.

Oução 9 Canções-Cavalo, por Jerome Rothenberg, no Poetry Foundation

Horse Song I

Horse Song II

Horse Song III

Horse Song IV

Horse Song V

Horse Song VI

Horse Song VII

Horse Song VIII

Horse Song IX

* * *

(Jerome Rothenberg. “A tradução total: uma experiência na apresentação de poesia ameríndia (1969)”. In: Etnopoesia do milênio. Org. Sergio Cohn. Trad. Luci Collin. Rio de Janeiro, Azougue Editorial, 2006. Trata-se de um recorte das pp. 52-3, 54, 55 e 56.)

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