poesia, tradução

Maria Luise Weissmann, por Gabriel Rübinger-Betti

Maria_Luise_WeissmannMaria Luise Weissmann nasceu em Schweinfurt no ano de 1899. Ainda criança, mudou-se para Hof e, em seguida, Nuremberg, onde viveu durante os anos da Primeira Guerra Mundial. Publicou suas primeiras obras em 1918 no jornal Fränkischer Kurier sob o pseudônimo de M. Wels. A partir de então, Weissmann passou a tecer amizades com várias figuras da literatura de seu tempo, como Georg Britting, que publicou alguns de seus poemas no seu jornal expressionista Die Sichel. Nesse mesmo ano também conheceu seu futuro cônjuge, o editor Heinrich F. S. Bachmair.

Em 1919 mudou-se para Munique e passou a trabalhar na livraria recém-fundada Die Bücherkiste. Nessa época, além de se aproximar do budismo, participou da associação literária revolucionária Das Junge Franken. Em 1920 mudou-se para Pasing, logo após a libertação de Bachmair, que estivera preso por um ano e meio por motivos políticos. Os dois casaram-se em 1922, passando a viver nos anos seguintes em Pasing, Dresden e Munique. Naquele ano publicou, na editora de Bachmair, seu primeiro livro: Das frühe Fest. Publicou, em seguida, o ciclo de poemas Robinson (1924), uma série de sonetos sob o título Mit einer kleinen Sammlung von Kakteen (1926), além de traduções de Paul Verlaine (1927) e Pierre Louÿs (1931).

Faleceu repentinamente aos 30 anos, em Munique, em decorrência de uma angina. Vários textos e ensaios foram publicados de maneira póstuma por Bachmair no livro Gesammelte Dichtungen (1932).

Embora a obra de Weissmann seja pouquíssimo conhecida fora da Alemanha, seus poemas possuem uma qualidade literária indiscutível, dialogando com a literatura de sua época, principalmente Rilke. Os três poemas aqui traduzidos foram retirados de Das frühe Fest (1922).

Gabriel Rübinger-Betti

 

Percursos

Devo seguir, todo o dia, a te procurar,
que o presságio de te circundar me sustenta
com tua segurança, que a luzir me alenta:
um cacto, fulgor de ouro, ave a cantar,

violino e neve, que uma vez te miraram,
bandeiras de brilhantes cidades e o vento.
Acaso morres quando o sol se extingue lento?
É teu o grito dessas crianças que brincaram?

Vagueio nos tufões, pelo cristal do mar,
– um perfume, talvez, traz a tua lembrança –
nas aleias escuras, e a tanto lugar

devo seguir, rindo ou chorando, na esperança,
devo seguir, todo o dia, a te procurar,
nas trilhas da púrpura noite que não cansa.

 

Fährte

Durch allen Tag muß ich Dich suchend gehn
Und ist so viel, was rings Dich mir verheißt,
Mich mit Gewißheit Deiner schimmernd speist:
Ein Vogelrufen, Glanz des Golds, Kakteen,

Schnee, ach, und Geige, die gesehn Dich haben,
Fahnen der blanken Städte, Windeswehn –
Starbst Du in einer Sonne Untergehn?
War dies Dein Schrei in wehem Spiel der Knaben?

Ich wandre durch Taifun, kristallnen Strahl der Seen,
– Vielleicht, daß Dich ein Duft gefunden macht? –
Durch schwarze und die silbernen Alleen,

Durch Jenen, der geweint, und Den, der lacht, –
Durch allen Tag muß ich Dich suchend gehn,
Zu Dir noch wandert purpurn Pfad der Nacht.

 

Meus olhos

Quando tu vens,
meus olhos voltam-se
à escuridão
como à morte.

Desde que deixaram-te
entrar, (traidores!),
agora vivem sempre
sob a guilhotina.

 

Meine Augen

Wenn Du kommst
Müssen meine Augen
Ins Dunkel kehren
Wie in den Tod.

Seit sie Dich einließen:
Verräterinnen –
Nun leben sie immer
Unterm Beil.

 

Estou muito cansada

Na noite, ao longe, minha janela se inclina.
Sobre os telhados, as nuvens, ramos de flor fina;
a brisa me afaga, bondosa e delicada.
Eu, porém, mantenho as mãos fechadas, pois estou cansada
e escuto, admirada, alados sons de passos,
das pessoas, na rua, a passar. Seus braços
e pés, parecem-lhe tão leves. Somente eu
me deito, em meu grande cansaço acamada.
Às vezes ouço o som de um passo como o teu,
e então, amado, como a música dos passos, leve fico eu,
como as nuvens sobre os telhados – ramo de flor prateada.

 

Ich bin sehr müde

Mein Fenster lehnt sich weit in den Abend hinaus,
Die Wolken stehen über den Dächern, ein Blumenstrauß,
Die Luft streichelt mich und ist sanft und voll großer Güte.
Ich aber halte die Hände gefaltet, denn ich bin müde,
Und höre verwundert auf das beschwingte Schreiten
Der Menschen, die auf der Straße vorübergleiten,
So sehr sind ihnen heute die Glieder leicht.
Nur ich liege, schwergebettet in meine Müde.
Manchmal höre ich einen Schritt, der Deinem gleicht,
Dann bin ich, Geliebter, wie die Musik der Schritte leicht
Und wie die Wolken über den Dächern silberne Blüte.

 

(poemas de Maria Luise Weissmann, tradução de Gabriel Rübinger-Betti)

Gabriel Rübinger-Betti é poeta e tradutor, nascido em Juiz de Fora – MG. De produção diversificada, participou de antologias literárias (entre elas, Lira da Morte, 2012), escreveu peças de caráter teatral (Auto da Fé e Ciência, 2011; A Princesa, 2015) e participou de exposições literárias em São Paulo e Brasília (2010, 2011). Atualmente, se dedica a traduzir escritoras germanófonas.

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5 comentários sobre “Maria Luise Weissmann, por Gabriel Rübinger-Betti

  1. Pingback: Política contraditória

  2. Ronaldo Silva disse:

    Que bom poder estar lendo um trabalho seu, e principalmente, conhecendo autoras que ainda não tinha me chegado as mãos, realmente é um presente.

  3. Jane Furtado oliveira disse:

    Lendo estes poemas de apuro literario, de uma escritora que em outros tempos e terra, fez suas palavras, sensibilizada pela, nobre inspiração! !
    Parabéns Gabriel Rubinger!!

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