poesia, tradução

luis de góngora, por érico nogueira

gongora

Nascido em Córdoba, sul da Espanha, em 1561, e falecido na mesma cidade em 1627, Luis de Góngora y Argote viveu o ápice do chamado “siglo de oro” das letras espanholas. Escreveu, diz-se, em “castelhano imperial”, uma língua não raro obscura eivada de helenismos, latinismos, figuras retóricas e alusões mitológicas. Sua paixão pela metáfora – ou, antes, pelo processo analógico que Gracián chamou de agudeza e que propicia toda metáfora – chegou ao cúmulo do paroxismo e da obsessão.

Abaixo, segue um soneto de Góngora traduzido por Érico Nogueira  para a segunda edição impressa do escamandro, publicada recentemente (nela, Nogueira também traduz poemas de Hugo von Hofmannsthal e Torquato Tasso). Comenta o tradutor: “Aos vinte anos, contudo, [Góngora] escreveu sua profissão de fé. É um soneto à moda de Petrarca, com algo de Camões, e superior a ambos. Eu diria que é a cumulação da arte do soneto, de suas possibilidades formais e, por que não, também expressivas, e foi imitado por nosso Gregório de Matos”.

Érico Nogueira (Bragança Paulista – SP, 1979) é poeta, tradutor e professor de Língua e Literatura Latinas na Universidade Federal de São Paulo. Autor de O Livro de Scardanelli (poesia, 2008), Dois (poesia, 2010) e Verdade, Contenda e Poesia nos Idílios de Teócrito (estudo e tradução, 2012), Poesia Bovina (poesia, 2015). Tem publicado artigos sobre versificação greco-latina e portuguesa. Nomes como Paulo Henriques Britto e João Angelo Oliva Neto já escreveram sobre sua poesia. Traduzido em inglês pelo crítico britânico Chris Miller, tem recebido destaque nas principais revistas literárias da Inglaterra, onde foi capa da The Warwick Review, editada pelo Department of English and Comparative Literary Studies da Universidade de Warwick. Vive e trabalha em São Paulo.

escamandro

 

Soneto

Enquanto, ao competir com teu cabelo,
ouro brunido ao sol deslumbra em vão;
enquanto com desprezo ao rés-do-chão
olha tua alva frente o lírio belo;

enquanto atrás do lábio, por querê-lo,
mais olhos que da rosa agora vão;
e enquanto triunfa com afetação
do luzente cristal teu ser de gelo;

goza gelo, cabelo, lábio e frente,
antes que esta que foi hora dourada
– ouro, lírio, rosal, cristal luzente –

não só em prata ou flor estiolada
se torne, mas tu e tudo juntamente
em terra, em fumo, em pó, em sombra, em nada.

 

Soneto

Mientras por competir con tu cabello
Oro bruñido al sol relumbra en vano,
Mientras con menosprecio en medio el llano
Mira tu blanca frente al lilio bello;

Mientras a cada labio, por cogello,
Siguen más ojos que al clavel temprano,
Y mientras triunfa con desdén lozano
Del luciente cristal tu gentil cuello,

Goza cuello, cabello, labio y frente,
Antes que lo que fue en tu edad dorada
Oro, lilio, clavel, cristal luciente,

No sólo en plata o vïola troncada
Se vuelva, más tú y ello juntamente
En tierra, en humo, en polvo, en sombra, en nada.

(poema de Luis de Góngora y Argote, tradução de Érico Nogueira)

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2 comentários sobre “luis de góngora, por érico nogueira

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