poesia, tradução

Harlem Renaissance por André Caramuru Aubert, pt. I

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Uma introdução

A poesia norte-americana do século XX tem quatro “movimentos”, ou “escolas” mais importantes, ou, ao menos, mais conhecidas: a Beat, a New York School, a San Francisco Renaissance e a Black Mountain. Mas, ainda que hoje menos lembrado, um outro movimento, o Harlem Renaissance, desempenhou um papel gigantesca na evolução da cena cultural dos Estados Unidos, pois foi o primeiro esforço estético, sólido e consciente, conduzido por poetas, ensaístas, romancistas e artistas negros naquele país. Normalmente dividido pela crítica em três fases (1917-1923, 1924-1926 e 1926-1935), o movimento surgiu e se frutificou a partir de três fatores principais:

Em primeiro lugar, houve a Primeira Grande Guerra. Muitos dos soldados enviados à Europa eram negros, e eles não só mataram e morreram pelo país como tiveram contato com europeus; em muitos casos, gente, na época, com mente mais arejada do que os americanos. Na volta para casa, era natural que eles exigissem um papel de maior protagonismo em todos os campos, incluindo a cultura.

Em segundo lugar, houve o fator demográfico. Há décadas as populações negras abandonavam o sul racista, subindo o Mississippi em direção a Chicago e, dali, em parte, para Nova York. Esse grande movimento migratório, como nos mostra o Harlem Renaissance, geraria mais do que “apenas” o blues, o jazz e o rock and roll…

Finalmente, eram anos de modernismo. E o modernismo, em não poucas de suas vertentes estéticas (penso logo de cara em Picasso, em Matisse, em Mário de Andrade), era sedento por enriquecer e arejar a estética ocidental com elementos exóticos. Poesia chinesa, tradições indígenas, cânticos hindus, lendas árabes, arte africana, causos sertanejos… O cânone europeu perdia sua hegemonia na pintura, na música e na literatura. Assim, no momento em que artistas negros, em Nova York, pretendiam que sua voz fosse ouvida, havia gente disposta a ouvir. E, mais importante, entusiasmada por poder publicar, divulgar e, claro, incorporar tudo o que achasse interessante naquelas novidades todas.

É claro que, passados oitenta anos desde o fim do movimento, nossa visão sobre o que se produziu naquele espaço físico e temporal não é a mesma. Alguns dos poemas que mais fizeram sucesso na época, por mais explicitamente defenderem, política e ideologicamente, a causa negra, acabaram não resistindo bem ao tempo. Mas muitas das coisas que ali se produziram, por outro lado, reverberaram não apenas na época como resistiram excepcionalmente bem aos anos e seguiram, sólidas, ocupando um espaço fundamental na cena poética norte-americana.

Reuni, para esta pequena introdução à Harlem Renaissance, um ou dois poemas de alguns dos principais nomes do movimento: Gwendolyn Bennett, Joseph S. Cotter, Waring Cuney, Countee Cullen, Langston Hughes, Fenton Johnson, Georgia Douglas Johnson, Helene Johnson, James Weldon Johnson, Claude McKay e Anne Spencer.

André Caramuru Aubert

* * *

COUNTEE CULLEN

Countee Cullen (1903-1946) foi um dos poetas do Harlem Renaissance que obtiveram mais repercussão fora do movimento, provavelmente porque sua temática, que não se furtava a abordar aspectos às vezes quase folclóricos, evocava, de certa forma, o que as pessoas em geral esperavam de um poeta negro. Não obstante, sua poesia é forte e marcante, e o julgamento cruel da passagem do tempo o manteve como um dos principais poetas do movimento.

For a lady I know

She even thinks that up in heaven
       Her class lies late and snores,

While poor black cherubs rise at seven
.       To do celestial chores

Para uma dama que eu conheço

Ela até mesmo pensa que lá em cima no céu
       Pessoas como ela dormem até tarde e roncam

Enquanto pobres querubins negros se levantam às sete
       Para dar conta das tarefas celestiais.

Incident
for Eric Walrond

Once riding in old Baltimore,
       Heart-filled, head-filled with glee,
I saw a Baltimorean
       Keep looking straight at me.

Now I was eight and very small,
       And he was no whit bigger,
And so I smiled, but he poked out
       His tongue, and called me, “Nigger.”

I saw the whole of Baltimore
       From May until December;
Of all the things that happened there
       That’s all that I remember.

Incidente
para Eric Walrond

Certa vez, vagando pela velha Baltimore,
       O coração repleto, a cabeça repleta, de alegria,
Eu vi um baltimoreano
       Olhando diretamente para mim.

Eu tinha oito anos e era bem pequeno,
       E ele não era nem um pouco maior
E então eu sorri, mas ele tirou a língua para
       Fora, e me chamou de “Crioulo.”

Eu conheci Baltimore inteira
       De maio até dezembro.
De tudo o que aconteceu lá
       Isso é tudo de que eu me lembro.

§

LANGSTON HUGHES

James Mercer Langston Hughes (1902-1967), de poesia inventiva e lírica, é hoje, provavelmente, o nome mais conhecido do Harlem Renaissance. Nascido no Missouri, foi militante comunista e também ensaísta, romancista e dramaturgo.

The Negro speaks of rivers

I’ve known rivers:
       I’ve known rivers ancient as the world and older than the flow of human blood in human veins.

My soul has grown deep like the rivers.

I bathed in the Euphrates when dawns were young.
I built my hut near the Congo and it lulled me to sleep.
I looked upon the Nile and raised the pyramids above it.
I heard the singing of the Mississippi when Abe Lincoln went down to New Orleans, and I’ve seen its muddy bosom turn all golden in the sunset.

I’ve know rivers:
       Ancient, dusky rivers.

My soul has grown deep like rivers.

O Negro fala de rios

Eu conheci rios:
       Eu conheci rios tão antigos quanto o mundo e mais velhos que o sangue que corre nas veias humanas.

Minha alma se tornou profunda como os rios.

Eu me banhei no Eufrates quando as auroras eram jovens.
Eu ergui minha cabana perto do Congo e ela embalou meu sono.
Eu observei o Nilo e ergui as pirâmides acima dele.
Eu ouvi as canções do Mississippi quando Abe Lincoln foi até New Orleans, e eu vi o seu âmago barrento ficar dourado ao pôr do sol.

Eu conheci rios:
       Antigos, escuros rios.

Minha alma se tornou profunda como rios.

Elevator Boy

I got a job now
Runnin’ an elevator
In the Dennison Hotel in Jersey,
Job aint no good though.
No money around.
       Jobs are just chances
       Like everything else.
       Maybe a little luck now,
       Maybe not.
       Maybe a good job sometimes:
       Step out o’ the barrel, boy.
Two new suits an’
A woman to sleep with.
       Maybe no luck for a long time.
       Only the elevators
       Goin’ up an’ down,

       Up an’ down,
       Or somebody else’s shoes
       To shine,
       Or greasy pots in a dirty kitchen.
I been runnin’ this
Elevator too long.
Guess I’ll quit now.

Ascensorista

Eu consegui um emprego
Conduzo um elevador
No Hotel Dennison em Jersey
Mas o trabalho não é muito bom.
Não rola grana.
       Empregos são apenas chances
       Como todo o resto.
       De repente você tem sorte
       De repente não.
       De repente um bom emprego às vezes:
       Saia fora do caminho, garoto.
Dois novos paletós e
uma mulher com quem dormir.
       De repente sem sorte por muito tempo.
       Só os elevadores
       Indo pra cima, indo pra baixo,

       Pra cima e pra baixo,
       Ou os sapatos de alguém
       Para engraxar,
       Ou panelas gordurentas numa cozinha suja.
Eu tenho conduzido este
Elevador por muito tempo.
Acho que agora eu vou me mandar.

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