poesia, tradução

Harlem Renaissance por André Caramuru Aubert, pt. III

harlem-renaissance-11

WARING CUNEY

William Waring Cuney (1906-1976) foi um dos poetas mais refinados do Harlem Renaissance, mas sua temática, “decadentista”, ecoando o romantismo europeu do século anterior, era provavelmente a menos claramente identificada com uma afirmação negra. Talvez por isso ele seja, hoje, um dos nomes menos lembrados do movimento.

The death bed

All the time they were praying
He watched the shadow of a tree
Flicker on the wall.

There is no need of prayer,
He said,
No need at all.

The kin-folk thought it strange
That he should ask them from a dying bed.
But they left all in a row
And it seemed to ease him
To see them go.

There were some who kept on praying
In a room across the hall
And some who listened to the breeze
That made the shadows waver
On the wall

He tried his nerve
On a song he knew
And made an empty note
That might have come,
From a bird’s harsh throat.

And all the time it worried him
That they were in there praying
And all the time he wondered
What it was they could be saying.

O leito de morte

Por todo o tempo em que eles oraram
Ele olhou para a sombra de uma árvore
Refletida na parede.

As orações não são necessárias,
Ele disse,
Não mesmo.

A parentada achou estranho
Que ele lhes pedisse de um leito de morte.
Mas todos eles saíram em fila
E pareceu acalmá-lo
Vê-los sair.

Houve alguns que continuaram a orar
No quarto vizinho
E alguns que ficaram ouvindo a brisa
Que faziam as sombras balançarem
Na parede.

Ele enfrentou o medo
Com uma canção que conhecia
E criou uma nota vazia
Que deve ter vindo,
Da áspera garganta de um pássaro.

E por todo o tempo ele se preocupou
Que eles estivessem ali, orando
E por todo tempo ele pensou
O que é que eles poderiam estar dizendo.

§

GWENDOLYN BENNETT

Gwendolyn Bennetta Bennett (1902-1981) nasceu no Texas, onde seus pais eram professores em uma reserva indígena. Mais conhecida como contista, Bennett foi, no entanto, uma consumada poeta, de versos fortes e diretos.

Hatred

I shall hate you
Like a dart of singing steel
Shot through still air
At even-tide.
Or solemnly
As pines are sober
When they stand etched
Against the sky.
Hating you shall be a game
Played with cool hands
And slim fingers.
Your heart will yearn
For the lonely splendor
Of the pine tree;
While rekindled fires
In my eyes
Shall wound you like swift arrows.
Memory will lay its hands
Upon your breast
And you will understand
My hatred.

Ódio

Eu devo odiar você
Como um dardo de aço cantante
Voando pelo ar imóvel
No entardecer.
Ou solenemente
Como pinheiros que são sóbrios
Quando eles estão gravados
Contra o céu.
Odiar você deverá ser um jogo
Jogado com mãos frias
E dedos delgados.
Seu coração irá se compadecer
Do solitário esplendor
Do pinheiro;
Enquanto fogos reavivados
Em meus olhos
Deverão feri-lo como flechas ligeiras.
A memória repousará as mãos
Sobre o seu peito
E você irá compreender
O meu ódio.

§

JOSEPH S. COTTER

Jospeh Seamon Cotter (1861-1949), nascido no sul bem no início da Guerra da Secessão, de família muito pobre, não teve vida fácil e só conseguiu ter educação formal a partir dos 22 anos de idade. Foi professor e é hoje um dos nomes menos lembrados do Harlem Renaissance, embora seja difícil entender o porquê.

The wayside well

A fancy halts my feet at the way-side well.

It is not to drink, for they say the water is brackish.

It is not to tryst, for a heart at the mile’s-end beckons me on.

It is not to rest, for what feet could be weary when a heart at the mile’s-end keeps time with their tread?

It is not to muse, for the heart at the mile’s-end is food for my being.

I will question the well for my secret by dropping a pebble into it.

Ah, it is dry.

Strike lightning to the road, my feet, for hearts are like wells. You may not know they are dry ‘til you question their depths.

Fancies clog the way to heaven, and saints miss their crowns.

O poço na beira da estrada

Um desejo interrompe meu passo junto ao poço da beira da estrada.

Não é de beber, pois dizem que a água é salobra.

Não é de romance, pois um coração no fim da estrada me chama.

Não é de descansar, pois que pés poderiam se cansar quando um coração no fim da estrada marca o tempo com seus passos?

Não é para meditar, porque o coração no fim da estrada é alimento para o meu ser.

Eu vou perguntar ao poço sobre meu segredo jogando uma pedrinha dentro dele.

Ah, está seco.

Ataco ligeiro a estrada com meus pés, pois corações são como poços. Você não sabe que eles estão secos até que queira saber sobre o que eles têm no fundo.

Desejos bloqueiam o caminho para o paraíso, e santos perdem suas coroas.

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