poesia, tradução

Mariangela Gualatieri (1951-) por Francesca Cricelli

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Mariangela Gualatieri (Cesena/ Itália, 1951), poeta e dramaturga, começa a escrever dentro do Teatro Valdoca fundada por ela mesma com o diretor Cesare Ronconi. Desde o início preocupa-se com a entrega oral da poesia – realizando leituras dos seus versos na Itália e em diversos países, esteve em São Paulo em 2012 durante o encontro e exposição “de uma estrela a outra” organizado na Casa das Rosas – Espaço Haroldo de  Campos de Literatura e Poesia. Mariangela é sempre muito atenta, em suas performances, à amplificação da voz e ao encontro entre o verso poético e a música ao vivo. Seu trabalho com laboratórios de escrita e leitura é muito intenso.

Entre suas publicações destacamos:

Antenata (ed. Crocetti, Milano 1992), Fuoco Centrale (Giulio Einaudi ed. Torino 2003), Senza polvere senza peso (Giulio Einaudi ed., Torino 2006), Sermone ai cuccioli della mia specie (L’arboreto Editore, Mondaino 2006), Paesaggio con fratello rotto (libro e DVD, Luca Sossella Editore, Roma 2007), Bestia di gioia (Giulio Einaudi ed., Torino 2010), Caino (Giulio Einaudi ed., Torino 2011), Sermone ai cuccioli della mia specie con CD audio (Valdoca ed. Cesena 2012), A Seneghe.

Francesca Cricelli(Ribeirão Preto, 1982), poeta e tradutora, doutoranda em estudos da tradução pelo TRADUSP, estuda e traduz as cartas inéditas de amor de Giuseppe Ungaretti para Bruna Bianco, o volume está no prelo pela Mondadori. Publicou o livro de poemas Repátria (Selo Demônio Negro, 2015), organizou e traduziu a correspondência entre Giuseppe Ungaretti e Edoardo Bizzarri Lettere 1966/1967 (Scriptorium, 2013) e publicou o livreto de foto e poemas Tudo que toca o olhar (Casa Impressora Almería, 2013). Foi curadora da exposição e do ciclo de encontros “de uma estrela a outra” na Casa das Rosas – Espaço de Literatura e Poesia Haroldo de Campos em 2012. Participou de diversos festivais de poesia no Brasil, na Itália e na Índia, apresentou seu livro em Miami (EUA) e se prepara para novas viagens.

* * *

da BESTIA DI GIOIA

1.
Quando vuole pregare
lei va alla piscina comunale
mette la cuffia e gli occhialini
entra nell’acqua ma non è capace
di domandare, o forse non ci crede.
Allora fa una bracciata e dice
eccomi, poi ne fa un’altra
e ancora eccomi. Eccomi dice
ad ogni bracciata. Eccomi a te
che sei acqua e cloro
e questi corpi a mollo come spadaccini.

E nello spogliatoio, dopo, alla fine
prova sempre una gioia –
quasi l’avessero esaudita
di qualche cosa che non ha chiesto
che non sapeva. Che mai saprà
cos’era.

do livro BESTA DE JÚBILO

1.
Quando quer rezar
ela vai à piscina pública
põe touca e óculos
entra na água mas não é capaz
de pedir, ou talvez não acredita.
Então dá uma braçada e diz
aqui estou, e dá mais uma
e de novo, aqui estou. Aqui estou diz
que és água e cloro
e estes corpos de molho como espadachins.

E no vestiário, depois, no final
sente sempre um júbilo –
quase como houvessem atendido
a algo que não pediu
que não sabia. Que nunca saberá
o que era.

§

2.
Un mio me
soffre. Chi è? Chi scalcia sul fondo
di questo quieto piroscafo. Giù
nella stiva il passeggero più vivo
batte i suoi colpi.
Chi lo tiene sepolto? E che cosa vuole
questo bastardo bambino che scalcia?
Nel fondo di me, un me soffre –
la sua bandiera stropicciata
non ha nessun vento.
E’ murato. Il bambino più vivo
murato sul fondo.
Con la sua magra manina
mi stringe il cuore, al mattino
un poco stringe e duole.
Che cosa prometto quest’oggi al mio
prigioniero? Con quali false parole
lo tengo zitto per un giorno intero?

2.
Um meu eu
sofre. Quem è? Quem chuta no fundo
deste quieto navio a vapor. Lá embaixo
no porão o passageiro mais vivo
golpeia.
Quem o mantém enterrado? E o que quer
esta criança bastarda que chuta?
No fundo de mim, um eu sofre –
sua bandeira amarrotada
não tem vento algum.
Está murado. A criança mais viva
murada no fundo.
Com sua magra mãozinha
aperta-me o coração, de manhã
um pouco aperta e dói.
O que vou prometer hoje ao meu
prisioneiro? Com quais palavras falsas
vou mantê-lo calado por um dia inteiro?

§

8.
Forse si muore oggi – senza morire.
Si spegne il fuoco al centro.
Sanguinano le bandiere. Generale è la resa.
Ciò che nasce ora crescerà in prigionia.
Reggete ancora porte invisibili dell’alleanza
bastioni di sereno. Puntellate il bene
che si sfalda in briciole in cartoni.
Il popolo è disperso. In seno ad ognuno cresce
il debole recinto della paura – la bestia spaventosa.
A chi chiedere aiuto? E’ desolato deserto il panorama.
Si faccia avanti chi sa fare il pane.
Si faccia avanti chi sa crescere il grano.
Cominciamo da qui.

8.
Talvez se morra hoje – sem morrer.
Apaga-se o fogo no centro.
Sangram as bandeiras. A rendição è geral.
O que nasce agora crescerá na prisão.
Segurem ainda as portas invisíveis da aliança
baluartes do sereno. Escorem o bem
que se desfaz em migalhas no papelão.
O povo está disperso. No peito de cada um cresce
a débil cerca do medo – a besta assustadora.
A quem pedir ajuda? Está desolado deserto o panorama.
Venha adiante quem sabe fazer o pão.
Venha adiante quem sabe crescer o grão.
Começamos aqui.

(trad. Francesca Cricelli)

 

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