poesia

Um poema inédito de Mariana Lage

foto de Carolina Caycedo

foto de Carolina Caycedo

Mariana Lage é. Desde 1982. Ou talvez apenas, verdadeiramente, desde 2014: quando se tornou HariShabad Kaur Khalsa. Vive, trabalha e respira em Belém, mas está constantemente em outros espaço-tempos. Em sereno-zanzação. Identificou-se com a escrita, a filosofia, a arte contemporânea, a performance e a presença. Ama Zumthor, Heidegger e Cage. Escreve, fala pra daná, dá aulas, escreve mais um pouco, lê um tantão, pergunta sem parar. Existe.

Seu livro, Le Self Sélavy, será lançado no dia 12 de agosto, na Quixote Livraria, em BH, e em setembro, dia 15, em Belém, na Fox Livraria. Esse é seu terceiro livro de forma independente, depois de No Dorso do Leão (2013) e Haikais de (não) amor & outras coisas (2015).

* * *

Etant donnés ou o buraco voyeur despido por seus celibatários, memê
[um não poema dardo]

Através do buraco na porta de madeira, vê-se o feminino nu. e aberto.
a noiva foi despida pelos celibatários, mesmo.
O que se vê numa imagem que não é espelho?

Se queres, me diga: é tua realidade um clichê?
Trata-se, aposto, do clichê mais óbvio da agressividade como forma de reverter
a direção daquilo com o que já não se sabe mais o que fazer.

Reverter é tão clichê, my sweetheart.
E todos esperam de você uma atitude exemplar.
Enquanto o exemplar é por vezes um clichê,
visto que segue regra ou o esperado.

O feminino foi despido por/para qualquer um que queira ver.
O que é mais agressivo: o olhar que despe
ou a energia que reverte a direção
de algo com o qual já não se sabe mais o que fazer?

O olhar já não despe pois o que há está dado como nu
ou talvez o feminino esteja já sempre disposto,
e também, assim ali, o real aleatório.

menos aleatório é a falta de tato.
é deliberado.
a reversão garante a (suposta) distância de salvação.

ser um exemplar.
ser como as gentes.
Das Mann, madam.

o que se ganha: nada. apenas repetição.
e mais um enfado profundo nesse mundo.
E te digo que esse tipo de diálogo não me serve nada.

Sua inutilidade não o aproxima, contudo,
do espelho ou do sentido de ser obra de arte.
Não me obrigas a mudar de vida.

Sua inocuidade me olha com seus olhos sem pálpebras,
inarredável presença do inútil – desprezo.
o desprezo está dentro e fora da cena.

e não me olhas de volta.
(quão atrelados estariam desespero e desprezo?
essa pergunta está também fora de cena)

Esse tipo de diálogo não me acresce, pois.
É apenas a evidência de poder ver através.

Do que?
Da porta fechada e seu buraco-fissura – no real
Do feminino despido,

das energias criativas que revertem direções,
da banalidade aleatória das relações
do distanciamento como câmbio volátil da inabilidade.

e na inutilidade de tudo, duchamp e o objeto industrial são mais interessantes
do que a aparente aleatoriedade de um diálogo que se retira.
ridícula a banalidade dos atos deliberados pelo inconsciente.

E nesse dizer do randômico cotidiano,
Cage reverbera a si ao caos em meio:
Nada tenho a dizer, no entanto, digo.

Mas não desprezo
o desnecessário e o aleatório, o sem importância.
Sem importância somos todos nós

Com nossas pseudoconversas de magos
– patológicos
Que realidade que se cria, me diga?

a coisa foi despida pelos celibatários mesmo

e não, isso não é um poema.
é qualquer coisa sem realidade ou ficção
é um jogo-lance (dardos) no vazio

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