poesia

“Dora”, de Rodrigo Tadeu Gonçalves

Noite de São João, de Alberto da Veiga Guignard

Noite de São João, de Alberto da Veiga Guignard

rodrigo, meu irmão de perto, gabi, minha irmã, oli, minha quase-filha,

algumas datas são impossíveis, porque têm de ser tudo entrelaçado, entre dor e alegria, o último fio da dora, o primeiro ano do dante, nossos entreafilhados, amores partilhados que a gente leva adiante, com ou sem silêncio. não sei muito o que dizer, só que acredito mesmo que o amor seja revolucionário, o amor pelos nossos mortos, pelos nossos vivos, porque todos seguem vivos conosco, no baixo profundo da casca do afeto; acredito que seja revolucionário porque convulsiona as nossas vidas o tempo inteiro e nos salva da banalidade que a vida tantas vezes é.

sinto falta da dora, uma falta que me dá no corpo mesmo, e só posso imaginar uma centelha do que atravessa vocês. sinto um afeto forte por esses poemas do rodrigo, que — acho de verdade — tocam ainda além de tudo que precisamos viver com a dora.

amo vocês.

guilherme gontijo flores

* * *

o sofrimento se agastou nos recônditos cardíacos

o sofrimento se agastou nos recônditos cardíacos
fez mansões mansardas ilhargas promontórios
e afeito ao pouco espaço
do torpor
acostumou-se às vagas da oxigenação
criou raiz tão forte que, insentido,
criou topografias insensíveis
insensificou
e aí ficou.

***

a dor de uma criança interrompida

antes, nada
enquanto, tudo e mais
depois, eternidade
a vida é o que acaba quando vai.

***

dora

enorme nobre vida de cabelo arrepiado
que fala tudo em olho arregalado
num ser gigante que mal cabe nos seus ossos
que vem e vai tão rápido que dói
que vive mais que oitenta anos em dois meses
presente ao mundo, ausente agora
pequena flor que

§

dora II

a morte é natural,
a vida acaba.
ficam as palavras,
todas, que a gente queria te dizer, que a gente disse,
que afundam no recôndito soluço
que insiste em não sair.
se nada vem do nada e nada vai pro nada,
de onde você veio, flor,
pra onde foi?

03/09/2015

§

dora III

nem dois meses
aqui.
duas fogueiras
no frio de são joão.
contigo.

outra ainda que te levou,
nem pude ver.
sobraram cinzas.

hoje, em volta
do fogo sagrado,
terceira vez envolto,
canto de novo:
são joão
são joão
acende a fogueira
do meu coração.

25/06/2016

§

dora IV

nomen –

presente
que dói

– omen

§

dora V

senta aqui que a gente precisa conversar. to aqui na metade da minha vida, ou mais e você, na metade da sua, ou menos, mais um ano. tenho muito pra te dizer, mas preciso que você me entenda. 53 dias não são suficientes. queria te dar conselhos, rir.

você não conseguia entender, e hoje você não estar aqui não impede que eu não não diga. queria contar. de quando soube que você viria até quando soube que você seria uma anã, e depois não seria uma anã, mas que teria ossos de cristal, de vidro. e depois que talvez nem pudesse respirar fora da sua mãe.

e depois que nasceu. e que eu chorei porque achei que você ia ficar aqui. até depois de nós. mas você foi. sem entender o que eu dizia e sem eu conseguir dizer. depois do frio do inverno, depois dos seus ossos moles, depois de aceitarmos que toda nossa vida seria sua,

você desafiou o mistério
e parou de respirar.

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