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No dia primeiro do Golpe.

Não reconhecemos o golpista Michel Temer como presidente do Brasil. 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poesia

3 poemas inéditos de Dirceu Villa

villa escamandro

Dirceu Villa (1975, São Paulo) é autor de 4 livros de poesia, MCMXCVIII (1998), Descort (2003, prêmio Nascente), Icterofagia (2008, ProAC) e Transformador (poemas, 1998-2013), e tradutor de Um anarquista e outros contos, de Joseph Conrad (2009), Lustra, de Ezra Pound (2011) e Famosa na sua cabeça, de Mairéad Byrne (2015). Escreveu ensaios sobre poesia contemporânea e revisão do cânone de poesia de língua portuguesa. Foi o curador da exposição de livros de Ezra Pound, a Ezpo, da biblioteca de Haroldo de Campos, na Casa das Rosas (2008). Organizou uma antologia de poetas brasileiros contemporâneos para a revista La Otra, do México, em 2009, e escreveu prefácios para obras de Stéphane Mallarmé, Charles Baudelaire Christopher Marlowe, além de autores contemporâneos, como Alfredo Fressia, Ricardo Aleixo e outros. Foi convidado para o PoesieFestival de Berlim em 2012, e em 2015 foi escolhido para residência literária em Norwich e Londres, promovida pelo British Council, a FLIP e o Writers’ Centre Norwich. Ensinou literatura na pós lato-sensu da Universidade de São Paulo (USP), na graduação da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e é professor da Oficina de Tradução Poética da Casa Guilherme de Almeida (Centro de Estudos de Tradução Literária).

* * *

 dois encompassam; paz

o mesmo com os amantes; o mais sem ser
a si mesmo; mão em flores finas no barranco;
quebram ondas abaixo; encontram nuvens
acima; pele lisa de juventude madura agora;

saborear os dias como risos; rios que jorram
da fonte nova; banham nova vida, de brilho;
banham beijos os combates deste amor;
luz de manhã acende as cores no seu rosto;

denso de sono e sexo; denso de sonhos no ar;
caprichosos antes de despertar, boa esperança;
lençol desliza lento; lascas de fruta fazem sol;
penhascos borram o vivo azul; colo agora calmo;

coração, pulso e pescoço; calor inunda a pele;
braços suaves em abraço; seios me estreitam;
tudo nos custa nada; verdade nos lábios; a hora
cresce da margem; em manto e flores; espírito

dois encompassam; dois se encontram; paz.

§

íbex

entre a distância e o estrondo
da montanha, o dorso
delineia o colosso,
curvado na hipnótica espiral
onde tudo se decide:
um clangor, mas silêncio
de paz montada em cascos
e a rocha dura, a sólida
troca de estouros secos
em que se troca a pele
desta quieta e feroz
montanha animal
em rígida pedra.
salta em folhas íngremes
de mineral pontudo
e sempre se empina nas patas
como se músculo só.
procurar o verdor no sol
da aridez vermelha,
que trinca a terra seca
abrindo feridas
no chão áspero, ardendo;
sem medo, porque pedra
se torna entre as pedras:
o precipício venta
e sem tremor se encontra no topo,
em seus chifres, o íbex.

§

cegueiras & visões

ouve então, que estás de novo
em pé sobre a navalha do destino
(Tirésias em Antígone, Sófocles)

oh the humanity
o repórter sem idéias de tragédia
diante da tragédia das idéias

mas nós : nostos : sempre a viagem
mesmo quando à roda deste quarto

ficino para dentro
do secreto escuro timbre
das vogais camonianas
(como viu merquior)
a mente que engendra
o engenho
enquanto o falador
pigmeu literário
propagandeia sua
obra-obituário
e falanges se esmagam
— não deuses, heróis — subhomens otários
em armas, nem homens

traças

nos mapas ginasiais
cada país de uma cor;

não valeriam uma vírgula aos olhos
da condessa oyenhausen-gravenburg
se entretendo à noite
com a musa que teme o dia
e tinha nojo dos despóticos
“medo e vileza”
conheceu mme. du staël & metastasio

sob a lâmpada de diógenes
sentada sorrindo ao sr. pitschmann
enviado especialmente a ver e registrar
esse preciso sorriso,
os olhos vivos e tão doces
o contorno do queixo e dos seios
a quem escape a virtude de seus versos

a condessa de vimieiro
a viscondessa de balsemão, que receia amor
entrevistas dormindo
por olhos que pedem calor
nos corredores de silêncio do convento em chelas

excelente a sua mente
num péssimo tempo

qual tempo seria oportuno?
eu mesmo digo isto
mais de três séculos
depois dela, agora mesmo, nesta folha de papel
na navalha do destino, de novo
kurtz vê o molusco deslizar, sobreviver

e lembro

do 21º batalhão
das duas brigadas
dispostas em três corpos:
sessenta cartuchos, armas, capotes
52 quilômetros a cobrir —
que o brasileiro nunca desiste —
sem homens pra manobras
agora impraticáveis;
sem víveres, pouca munição, peças de artilharia
pesada — tudo se reduz
a uma só brigada
1600 homens mal das pernas

não sem proveito
ao tesouro público

o império não paga sequer
300 mil réis prometidos
que filoctetes perdoa
ao país
taunay anota
piedoso ou irônico

antes de menelik II & dos fuzis
de rimbaud, o rapaz que amávamos
— disse camus —
e da vaca que concordou em ceder-lhe
“alguma palha”
onde dormir

o que esqueceu de tudo, cego,
traindo seus dons com um cinto de ouro
e de armas, sua morte

césar apunhalado no senado
senados traiçoeiros com punhais afiados
(cf. 2016 d.C.)

hécuba cegando polymnestor
os atraídos por tesouros, que as mulheres os ceguem
em vingança

nenhum acaso na lembrança
do amor como da guerra

pausas escandindo
este vazio em filosofia?

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poesia

Poema inédito de Ernesto von Artixzffski

 

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quando em seu bote inflável enfim ventanias sopraram e um turbilhão de águas confundiu seu rosto em pavor e pranto ela o filho acolhendo as mãos sobre ele pousou e assim disse: “filho, que dor desabou sobre nós! seu corpo não sabe e você dorme profundamente neste mísero bote de preto látex que sobre o breu-cianuro desliza nesta noite pobre de brilho nem tampouco sente o sal se abater sobre seus cabelos e à voz do vento permanece surdo somente se deita sobre uma sacola um plástico sujo com tão linda tez pois se nosso horror em você causar ainda mais horror cubra os ouvidinhos amor te peço que apenas durma te peço pequeno que também durma o mar e durma o mal que estremeça em brilho toda a mudança vinda de teu gesto e perdoe por favor qualquer pecado em nossa fuga” e contra as rochas se abate à noite quem buscava refúgio enquanto dormimos e o fluxo contínuo das águas de algas o corpo todo cobre e com ânsia da costa os cílios cerrados mantém sem lembrança da mãe não acordem quem longe de casa sobre a areia morre

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poesia, tradução

Juan Laurentino Ortiz, por Sandra Sandos

Juan L. Ortiz

Juan Laurentino Ortiz (Puerto Ruiz, 1896 – Paraná, 1978) foi um poeta argentino, mais conhecido por Juan L. Ortiz. A sua infância foi passada num meio rural da Mesopotâmia argentina e a sua juventude em Buenos Aires, onde se envolveu ativamente a nível político e intelectual nos valores do anarquismo. Regressou à sua cidade natal, Entre Ríos, trabalhando como empregado público. Inicialmente, a sua poesia revelava algum intimismo pós-modernista, contudo evoluiu para temáticas relacionadas com o sentimento cósmico da paisagem e um humanitarismo solidário. Traduziu a poesia de Paul Éluard, Guisseppe Ungaretti, Ezra Pound e alguns poetas chineses. Retirado dos círculos literários, a sua obra obteve uma difusão escassa e publicada de forma dispersa em vários poemários: “El agua y la noche”; “El alba sube”; “El ángel inclinado”; “La rama hacia el Este”; “El álamo y el viento”; “El aire conmovido”; “La mano infinita” e “La brisa profunda”. Em 1971, estas obras reuniram-se em três volumes com o título “En el aura del sauce”. Juan L Ortiz falece com 82 anos, legando uma escrita profundamente comungante com a natureza e os conflitos sociais.

Sandra Santos é estudante de mestrado em “Estudos Editoriais” pela Universidade de Aveiro (Portugal). Desenvolve projectos na sua área de estudos. Escreve e pro/traduz. Membro do colectivo artístico “Mutações Poéticas”. Co-fundou a página de facebook “Poesia em matéria fria”. Co-coordenou o sexto número da revista de poesia “Cuaderno Ático”. A sua missão de vida é contribuir para a partilha de conhecimento, através da sua intervenção político-poética no mundo.

* * *

PARA QUE LOS HOMBRES

Para que los hombres no tengan vergüenza
de la belleza de las flores,
para que las cosas sean ellas mismas: formas sensibles
o profundas de la unidad o espejos de nuestro esfuerzo
por penetrar el mundo,
con el semblante emocionado y pasajero de nuestros sueños,
o la armonía de nuestra paz en la soledad de nuestro pensamiento,
para que podamos mirar y tocar sin pudor
las flores, sí, todas las flores
y seamos iguales a nosotros mismos en la hermandad delicada,
para que las cosas no sean mercancías,
y se abra como una flor toda la nobleza del hombre:
iremos todos hasta nuestro extremo límite,
nos perderemos en la hora del don con la sonrisa
anónima y segura de una simiente en la noche de la tierra.

PARA QUE OS HOMENS

Para que os homens não tenham vergonha
da beleza das flores,
para que as coisas sejam elas mesmas: formas sensíveis
ou profundas da unidade ou espelhos do nosso esforço
em penetrar o mundo,
com o semblante emocionado e passageiro de nossos sonhos,
ou a harmonia da nossa paz na solidão de nosso pensamento,
para que possamos olhar e tocar sem pudor
as flores, sim, todas as flores
e sejamos iguais a nós mesmos na irmandade delicada,
para que as coisas não sejam mercadorias,
e se abra como uma flor toda a nobreza do homem:
iremos todos até o nosso limite extremo,
perder-nos-emos na hora do dom com o sorriso
anónimo e seguro de uma semente na noite da terra.

§

HAY EN EL CORAZÓN DE LA NOCHE

Hay en el corazón de la noche
un roce,

anterior al ángel que deshace
el éxtasis de las hojas,
anterior a los gallos,
al desmayo primero, tenue,
tenuísimo

del cielo,
a esas alas sobresaltadas
¿qué sueño, pesadilla de pájaro?

Hay en el corazón de la noche
un roce.

Cómo es de sensible la noche!

HÁ NO CORAÇÃO DA NOITE

Há no coração da noite
um roçagar,
anterior ao anjo que desfaz
o êxtase das folhas,
anterior aos galos,
ao desmaio primeiro, ténue,
tenuíssimo
do céu,
a essas asas sobressaltadas
que sonho, pesadelo de pássaro?

Há no coração da noite
um roçagar.
Como é sensível a noite!

§

CÓMO ES DE SENSIBLE

¡Cómo es de sensible la emoción del crepúsculo!
El silencio es tan hondo que hace daño casi,
a pesar de que arde, todo floral, arriba,

en la emocionada palidez del cielo,
con eucaliptus negros, de improviso, subidos.

¡Y cómo se prolonga la emoción! ¿Cuándo
una dulzura suave, flotante, alargó tenues
sombras entre las plantas? ¿Cuándo salió la luna?

Soledad de los campos con luna. Soledad.
Campo y luna, dos notas sólo que sostienen
esta música eterna. Campo y luna.
¿Para qué más? Tengamos el oído sutil.

COMO É SENSÍVEL

Como é sensível a emoção do crepúsculo!
O silêncio é tão profundo que quase magoa,
pese embora arda, todo floral, acima,
na emocionada palidez do céu,
com eucaliptos negros, de improviso, elevados.

E como se prolonga a emoção! Quando
uma doçura suave, flutuante, distendeu ténues
sombras entre as plantas? Quando apareceu a lua?

Solidão dos campos com lua. Solidão.
Campo e lua, duas notas só que sustêm
esta música eterna. Campo e lua.
Para quê mais? Tenhamos o ouvido subtil.

§

ES OTOÑO MUCHACHOS…

Es Otoño, muchachos. Salid a caminar.
Otoño en su momento inicial, más hermoso.
No os engañará este azul casi alegre?
¿Alegre?
¿La profundidad tiene alguna vez alegría?

¿No os engañará este verde joyante por momentos?
¿O esta invitación alada de la tarde?
No, una honda presencia deshace las azules sombras
y apaga la alegría del campo
—un luminoso, puro sueño que tiembla.

¿Cómo, y la tarde no se corona de flores
como de un fuego quieto de ángeles guardianes?

Ya está el viento, muchachos, el viento del otoño, del otoño,
violento o suave casi como un suspiro,
una enfermiza alma
de qué oscuros reinos?
que revela en las cosas
un herido pensamiento
de sorprendidas criaturas.

El viento,
niño fúnebre que juega con las últimas ilusiones del cielo
hasta darle una aguda limpieza de extraña agua final.

El viento, muchachos, el viento infinito.

É OUTONO, RAPAZES…

É Outono, rapazes. Ide caminhar.
Outono no seu momento inicial, mais formoso.
Não vos enganará este azul quase alegre?
Alegre?
A profundidade tem alguma vez alegria?

Não vos enganará por momentos este verde jubilante?

Ou este convite alado da tarde?
Não, uma profunda presença desfaz as sombras azuis
e apaga a alegria do campo
– um luminoso, puro sonho que treme -.

Como, e a tarde não se coroa de flores
como de um fogo quieto de anjos guardiões?

Está já o vento, rapazes, o vento do outono, do outono,
violento ou suave quase como um suspiro,
uma enferma alma
de que escuros reinos?
que revela nas coisas
um ferido pensamento
de surpreendidas criaturas.

O vento,
menino fúnebre que joga com as últimas ilusões do céu
até dar-lhe uma aguda limpeza de rara água final.

O vento, rapazes, o vento infinito.

NADA MÁS QUE ESTA LUZ

El éxtasis, el éxtasis,
entre el cielo y la tierra, suspendido,
mejor: que se abre y se dilata como un alma
profunda, pero de una
claridad delicada de serenos
pensamientos sensibles.
Nada más que esta luz, otoño,

otoño, nada más que esta luz
que penetra sutil
las cosas
pero queda
al rededor de ellas, como temblando,
sensitiva
y casi pudorosa.
Nada más que esta luz, otoño.
¿ Es de todos esta luz ?
La calle humilde está
traspasada, y como elevada,
ligera,
en esta dicha etérea.
Pero a todos llegas, otoño,
a todos llegas en esta tarde
en que hay manos translúcidas y eternas
que hacen signos tiernos en el aire

NADA MAIS QUE ESTA LUZ

O êxtase, o êxtase,
entre o céu e a terra, suspenso,
melhor: que se abre e se dilata como uma alma
profunda, mas de uma
claridade delicada de serenos
pensamentos sensíveis.
Nada mais que esta luz, outono,
outono, nada mais que esta luz
que penetra subtil
as coisas
mas permanece
ao redor delas, tremendo,
sensitiva
e quase pudorosa.
Nada mais que esta luz, outono.
É de todos esta luz?
A rua humilde está
trespassada, e como que elevada, ligeira,
na ventura etérea.
Mas a todos chegas, outono,
a todos chegas nesta tarde
en que há mãos translúcidas e eternas
que fazem sinais ternos no ar.

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poesia, tradução

I am vertical, de Sylvia Plath, em multitradução de Rafael Zacca

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Apresentação de “9 traduções de I am vertical, de Sylvia Plath”

A tradução coloca, no limite que ela é, em questão a questão do outro. O autor do texto traduzido é também outro autor, o tradutor, mesmo que, antes de o texto ser traduzido, o autor dele já fosse outro de si mesmo, ao menos durante o texto. Se não há, para os textos, o que não seja tradução, o que Rafael Zacca realiza na série de traduções para um mesmo poema de Sylvia Plath, “I am vertical”, é escrever versos como quem desenha linhas de fronteira num território conflagrado, fazendo da tradução, enquanto ela houver, o luto do original, enquanto ele houver. Uma poética da tradução, como essa, risca o texto, o território de autoria, enquanto ele resistir, até o fim, é um fim para o poema.

Assim é que na tradução as autorias e as línguas distintas não são experimentadas e formalizadas nos poemas como diferenças uma em relação à outra (o inglês e o português, Sylvia Plath e Rafael Zacca), mas cada uma como diferenças em si. Por isso a tradução para o português se coloca ao lado da tradução para o português-inglês, ou seja, para uma língua menor, de vocabulário e estrutura em português que, no entanto, mimetizam irônica e ludicamente o inglês: “Then the sky and I are in open conversation” transforma-se, em português, em “Assim, o céu e eu conversamos sem segredos” que se transforma, em português-inglês, em “Então o céu e eu estamos em aberta conversação”. E por isso se traduz o poema de Plath para, entre outras línguas menores ou mínimas, línguas como: a lei antiterrorismo brasileira, a carta de suicídio de Torquato Neto, o português-vogais, ou mesmo novamente o inglês, devolvendo à língua de origem um poema retraduzido.

E não é à toa que o poema traduzido em série seja um para o qual estar na posição horizontal – a do verso ou a do morto – se torna um modo de conversar sem segredos ou de estar em aberta conversação com o céu. Para traduzir o céu, suas constelações e galáxias, seria preciso deitar-se, e se, ao se deitar, não se compreende mais a diferença, no poema de Sylvia Plath, entre a horizontalidade do verso ou a horizontalidade do corpo morto que cai, então traduzir (o céu ou o poema) são um modo de demorar na língua. O texto se torna a dúvida entre morrer em versos ou matar o poema. Para o tradutor, morrer nos versos traduzidos ou matar o poema original. Como demorar nessa dúvida?

Quem, entre outros, pensou a questão foi Haroldo de Campos. No ensaio que como que inaugura a sua teoria, “Da tradução como criação e como crítica” (1962), Haroldo propõe, à guisa de conclusão e utopia, e naqueles tempos brasileiros de mobilização social pela cultura, o projeto de um Laboratório de Textos no qual alunos e professores de línguas e literaturas se reunissem para, através da confrontação tradutória coletiva com os textos literários, assim realizassem um projeto de crítica literária e de ensino da literatura que fizesse justiça ao texto. A lida com a materialidade do texto, e com essa materialidade experimentada como diferença (de uma língua a outra) e não como um monumento autorreferente, sugere à proposta de Haroldo as suas dimensões ética (a do texto como “concreção”) e política (a dos materialismos do texto, do laboratório, do ensino). Nem preciso lembrar que Rafael Zacca promove, como poeta, oficinas de poesia, a partir do seu trabalho no coletivo Oficina Experimental de Poesia, e estuda a obra de Walter Benjamin, para quem “a tradução é uma forma”. Ou seja.

Para mim, há alguma implicação entre essas traduções que agora se publicam –  a poética da tradução desenhada nelas –, o jogo entre o verso e a morte no poema de Sylvia Plath, e a lida coletiva nas oficinas de poesia. Traduzir, morrer, reunir sejam, talvez, verbos para que o poema seja, hoje, conjugado sob a força da invenção de ritos sacrificiais da cultura, sob a força daquilo que, tamanha a urgência por convivermos, só podíamos ter feito até ontem, antes de morrer.

Luiz Guilherme Barbosa

* * *

9 TRADUÇÕES DE I AM VERTICAL, DE SYLVIA PLATH

por Rafael Zacca

Uma coisa que me pega de jeito no Hölderlin tradutor,
no Francis Bacon pintor, e, da mesma forma,
na Joana D’Arc soldada de Deus
é o alto nível de consciência-de-si
presente em suas respectivas manipulações
da catástrofe.
Anne Carson, Nay Rather

A tradução não se vê como a obra literária, mergulhada, por assim dizer, no interior da mata da linguagem, mas vê-se fora dela, diante dela e, sem penetrá-la, chama o original para que adentre aquele único lugar, no qual, a cada vez, o eco é capaz de reproduzir na própria língua a ressonância de uma obra da língua estrangeira. (…) Pois é o grande tema da integração das várias línguas.
Walter Benjamin, A tarefa do tradutor (trad. Susana Kampff Lages)

* * *

I am vertical traduzido para o inglês por Sylvia Plath

1.
I am vertical

But I would rather be horizontal.
I am not a tree with my root in the soil
Sucking up minerals and motherly love
So that each March I may gleam into leaf,
Nor am I the beauty of a garden bed
Attracting my share of Ahs and spectacularly painted,
Unknowing I must soon unpetal.
Compared with me, a tree is immortal
And a flower-head not tall, but more startling,
And I want the one’s longevity and the other’s daring.

Tonight, in the infinitesimal light of the stars,
The trees and the flowers have been strewing their cool odors.
I walk among them, but none of them are noticing.
Sometimes I think that when I am sleeping
I must most perfectly resemble them —
Thoughts gone dim.
It is more natural to me, lying down.
Then the sky and I are in open conversation,
And I shall be useful when I lie down finally:
Then the trees may touch me for once, and the flowers have time for me.

§

I am vertical traduzido para o português

2.
Eu estou de pé

Mas preferia estar deitada.
Não sou uma árvore de raízes fincadas
Sugando minerais e amor maternal
Para que a cada março eu resplandeça em folhas,
Nem sou a flor mais bela dos canteiros
Delicados, atraindo meu quinhão de “Ais”
Antes do iminente despetalar.
Comparadas a mim, uma árvore é imortal
E uma flor, conquanto pequena, é mais espantosa –
Invejo a longevidade de uma e a ousadia da outra.

Hoje, à luz infinitesimal das estrelas,
As árvores e as flores espalharam seus odores na noite fresca.
Caminho entre elas, mas não me notam.
Às vezes imagino que, dormindo,
Sou sua semelhante –
Penso obscura.
É mais natural se estou deitada;
Assim, o céu e eu conversamos sem segredos.
Serei útil quando estiver enfim deitada:
Aí as árvores serão mãos para mim, e, as flores, demora.

§

I am vertical traduzido para o português-inglês

3.
Eu estossou vertical

Mas eu preferia muito estassar horizontal.
Eu não sou uma árvore com minhas raízes em o solo
Chupando cima minerais e maternal amor
Então que cada Março eu talvez brilhe dentro folha,
Nem sou eu a belezura de um jardim cama
Atraindo minha divisa de “Ais” e espetacularmente pintado,
Dessabido eu devo logo despetalar.
Comparadas com mim, uma árvore é imortal
E a flor-cabeça não maior, mas mais surpreendente,
E eu quero o da uma longevidade e o da outra ousadia.

Nhoitje, em a infinitesimal luz de as estrelas,
As árvores e as flores tem estado espalhando seus frescos odores
Eu ando entre elas, mas nenhuma de elas estão notando.
Algezes eu penso que quando eu estou dormindo
Eu devo mais perfeitamente assemelhá-las
Pensamentos vão turvos.
Isso é mais natural pra mim, deitada baixo.
Então o céu e eu estamos em aberta conversação,
E eu devo ser útil quando eu fimenticar finalmente:
Então as árvores talvez toquem-me depra vez, e as flores terão tempo pra mim.

§

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§

Eu estou de pé traduzido para a
Lei Nº 13.620, de 16 de março de 2016, a lei antiterrorismo brasileira

5.
Eu é um ou mais prejuízo da tipificação penal

Consiste em hipótese em eu investigar ameaçar usar gases tóxicos.
Eu não é agente de reclusão cinco a oito anos
A receber ou fornecer treinamento contra a vida ou a integridade física de pessoa,
Para que cada eventual crime seja previsto fora ou dentro de instalações militares,
Não é também o mais único dos parágrafos
Com a finalidade de provocar terror social
Antes das instituições bancárias.
Distinto de eu, um agente de reclusão de cinco a oito anos é total
E o parágrafo, ainda que vetado, promove mais destruição em massa.
Hipótese de paz armada em um, de razões de discriminação no outro.

16 de março de 2016, contra qualquer constituição da liberdade
Os agentes de reclusão cinco a oito anos e os parágrafos são conceito de organização
[terrorista.
Eu ameaça municiar indivíduos, não investigam.
De modo temporário eu decreta explosivos nucleares
Eu é Estado.
Eu é Subchefia para Assuntos Jurídicos.
É mais natureza se eu ameaça usar gases tóxicos;
Regulamenta sem investigações
Será mecanismo quando ameaçar usar gases tóxicos.
Então os agentes de reclusão de cinco a oito anos serão levados ao conhecimento do
[Ministério Público, e os parágrafos, à Polícia Federal.

§

Eu estou de pé traduzido para a carta de suicídio de Torquato Neto

6.
De modo Q FICO

Ou não consigo acompanhar a marcha do progresso
Não sou uma múmia de saudades
Louca disparada com véu e grinalda
Para acordar e me contorcer em dores
Não peço amor de palhaços mesmo
Vivos, com o cacho de banana
Os cariocas do tempo de começar a ver
A múmia é SANTA
E os palhaços o favor de acordar
Chega de contorcer, chega de banana

FICO, ao sacudirem demais o Thiago,
As múmias e os palhaços feito a minha mulher
Guia de cegos
Vou ficando sossegado
O amor pode acordar
Pra mim chega!
De modo Q FICO
Não acredito em guia de palhaços
Empacotado enquanto dure
Ana e Thiago começaram a ver as dores do progresso.

§

Eu estou de pé traduzido para os itens “Cuidados gerais” e “Instruções de Uso”
do Guia do Usuário do fogão Esmaltec elétrico, 4 bocas, branco

7.
A criança dentro do fogão quebra por choque térmico

Mas deveria queimar a casa.
Não é metal pesado de cabos tensionados
Alimentando-se de mundo e solvente
Para a cada queimadura chamuscar a tampa de vidro
E também não é gás incolor
Fósforo branco, detalhando a espuma sobre a mangueira
A poucos passos da explosão.
Atrás da criança, o metal é todo acidente
E o gás, ainda que vazado, é mais manipulado –
A criança precisa ser uma mangueira metálica.

Cuidados gerais, instruções de uso,
O metal e o gás se instalaram à mesa.
A criança segue sem advertências.
Se a criança enfia a boca no alumínio, autorizada,
Encontrará a abertura –
A criança é um pano úmido.
É mais seguro se ela tem perigo
E os interruptores e os fósforos se comprometem.
A criança pressiona o botão do acendimento automático:
O metal prepara um choque, e o gás, a chama.

§

Eu estou de pé traduzido para verbete “Joanad’Arc”
de Homens e Mulheres da Idade Média
organizado por Jacques Le Goff, (trad. Nícia Adan Bonatti)

8.
Iletrada linguagem é tristeza

Mas ilumina estar sobressalto.
Não é um vilarejo inocente bom cristão
Mergulhado em Deus e armas sobrenaturais
Para que a cada guerra iletrada linguagem vença em Chinon
Não é o mais aflorado profeta
Desencorajado, aconselhado por maus espíritos
Antes da cura mitômana.
Contraste com iletrada linguagem, o vilarejo são vozes
E um profeta, mesmo desesperado, é mais cético,
Iletrada linguagem quer conselhos de um e desespero de outro.

1431, no cerco das nações,
Vilarejo e profetas espalharam seus arcanjos por todo o tribunal.
Não notam que julgam iletrada linguagem que fala.
Distúrbio papel mental natura a inação:
um naufrágio do desigual –
marionete do demônio.
É mais natural se iletrada linguagem está sobressalto;
Assim a iletrada e a miraculosa linguagem encontram mensageiro.
Iletrada linguagem será urgência se estiver sobressalto:
O vilarejo será arcanjo Miguel e o profeta catedral de Reims.

§

I am vertical traduzido para português-vogais

9.
Ae__eiau

â…aiuou…a.e…i…oiõau
ai.eóaee…ui.ai.uu.ieoiu
âiu…aieaue…óeiâ
oéiea.ai.eiiea…iuiea
pieai.eieâi.óaaeé
aáiaiée…óaeéauai.eie
ã…oui.ai.â.uãéau
oeeuií…aíiioau
ea.aueéa.oau.â.o…ai
eaiuaeuõ…oeií.â.e.óe.ai

uai.i.e.iiieiau.ai.o.e.a
eíieeaue.éeii.eui.ei.uuoo
aiuauaoe…âoeoéaôii
oeaie.aií.éueaié.íii
ai.â.ô.eéi.iéeé
óu.ôí
iió.auau.u.i.aiiau
éeaiêai.a.i.oe.oeaio
eaiauí.iueuuueai.ai.au.ai.aí
éeiieiou.i.ó.oe.éeaue.ée.aie.ó.i

Padrão
poesia, tradução

Uma canção de Cage, por Reuben da Rocha

cage

Hoje completamos 24 anos sem John Cage (1912-92). Sem mais apresentações do mestre, segue abaixo uma tradução inédita de Reuben da Rocha, pra vivermos um pouco do Cage poeta.

guilherme gontijo flores

* * *

CANÇÃO

Vespas constroem
abobrinhas
olho a águia pescadora
ao ouvir isso.

Das árvores e arbustos sobrou pouco
pouca coisa nasce nos aterros arenosos
evanesce no ar
igual truques de um aprazível daimon para me entreter
e pássaros se ouvem vir de dentro da neblina.

Rebenta igual um rio
fazedor de mundos
será que é muito largo, muito fundo? Para minha surpresa alguém responde três varas.

Começa a mudar
na mata, damos de cara com a perdiz
estou coberto de piolhos verdes alados.

Quando olho mais longe encontro
as ruas mais baixas das cidades.

Em poucas semanas vão estar
como deveriam ser.

Governo
cobra e sapo
vento de agosto
subida das águias
cachorro do mato.

Abra o ninho colorido da tartaruga
Thoreau.

Agora debaixo da neve
macieiras
lascas de madeira morta
trançadas aos montes
bastantes para encher a fronha do chapéu.

Na floresta
na colina
botões arbustos
cotovias revoadas da encosta
cidade persa
a primavera cresce.

Todas as partes da natureza pertencem a uma cabeça, as espirais
a terra
a água.

Olha e ouve as novas andorinhas em volta dos
grandes botões do bordo tamanho primavera
degelo d’água, inverno do ar
alçado ali por sua mãe
noite da mata virgem.

Ouço o bramido me lembrando março, março.

Frente a frente com ele, eles estão prestes a enforcá-lo
ele deixa eles no bolso.

Ouço gralharem corvos roucos rumo à pinha branca
grilos rangem pela praia
o mesmo frio que faz a chuva; não cortante.

Suas partes centrais entortaram para cima.

Olha, trinta ou quarenta pintassilgos em bando, ar frio
um vasto número de peixes debandou.

Já que floresce uma segunda vez
era perfeito pra deitar em cima
concertos matinais do melro, acônito de inverno
montes de borboletas
asas em preto e branco
novo país onde as pedras não pegaram fogo.

Que eu seja tão vivaz quanto o salgueiro.
E a voz humana não vai expressar tanto teor quanto a nota do pássaro?

Junto a isso, pegadas do coelho
que também esbarrou no pequeno carvalho
gritos da locomotiva, carros retumbantes, sussurro
submerso o dia inteiro.

O musgo abocanha a fruta verde.

A cobra na verga, veloz, embora à vontade na árvore
calou-se a grama do olho azul. Quando ela vai se abrir?

Flâmulas
surpresas, ramos de alho-poró na pedra.

Este é meu areal.

Ponte para a liberdade e nenúfares
nenúfares

nas nossas matas
divinas em parte
e aceleram o coração dela
calmo e selvagem é um só. Que som mais gostoso!

[Tradução de Reuben da Rocha. Poema originalmente publicado no livro M (1972).]

SONG

Wasps are building
summer squashes
saw a fish hawk
when I hear this.

Both bushes and trees are thinly leaved
few ripe ones on sandy banks
rose right up high into the air
like trick of some pleasant daemon to entertain me
and birds are heard singing from fog.

Burst like a stream
making a world
how large do you think it is, and how far? To my surprise, one answered three rods.

Begin to change
in the woods, we came upon a partridge
I find myself covered with green and winged lice.

When I look further, I find
the lower streets of the towns.

In a few weeks they will be
as it should be.

Government
snake and toad
an August wind
soaring hawks
dog of the woods.

Open the painted tortoise nest
Thoreau.

Now under the snows of winter
apple tree
chips of dead wood
then torn up and matted together
‘nough to fill a bed out of a hat.

In the forest
on the meadow
button bushes
flock of shore larks
Persian city
spring advances.

All parts of nature belong to one head, the curls
the earth
the water.

See and hear young swallows about
maple buds large as in spring
ice water, winter in the air
carried there by its mother
wildwoods night.

I hear it roaring, reminding me of March, March.

Stood face to face to him and are about to hang him
puts them in his pockets.

I hear the crows cawing hoarsely flying toward the white pine
cricket creaks along the shore
such coolness as rain makes; not sharp.

Their central parts have curved upward.

See thirty or forty goldfinches in a flock, cold air
great numbers of fishes fled.

Since it blossoms a second time
it was fit to rest on
morning concerts of sparrows, hyemalis and grackles
many butterflies
black with white on wings
new country where the rocks have not been burned.

May I be as vivacious as willow.

Shall not voice of man express as much content as the note of a bird?

In the midst of them, I see track of rabbit
it also struck a small oak
screeching of the locomotive, rumbling cars, a whisper
far down all day.

Mosses bear now a green fruit.

This snake on twigs, quick as thought and at home in the trees
the blue-eyed grass is shut up. When does it open?

Flitting about
surprising, this cluster of leek buds on rock.

These are my sands.

Hubbard’s bridge and waterlilies
waterlilies.

In our forests
part divine
and makes her heart palpitate
wild and tame are one. What a delicious sound!

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poesia

6 poemas inéditos de Ismar Tirelli Neto (1985-)

bartleby

Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro; vive atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopioRamerrão, Alguns Dias Violentos Os Ilhados.

Março, 2016

Tampouco ele pode pôr-se de pé
Tampouco consegue despegar da infirme terra a testa da grave superfície da pilastra
Tampouco ele encontra a brochura
Tampouco ele capaz de dar nó
Tampouco lhe ocorre
Tampouco consegue carrear os embrulhos avenida abaixo
Tampouco ele com os caixotes de papelão
Tampouco ele na tarde tamisada
Tampouco cães, carroceiros
Tampouco nesta carnadura
Ele contorna
Tampouco consegue exculpar-se
Tampouco bordar, bordear
Tampouco falta

§

Pequena Galeria

Os rapazes daqui
o muito que emudecem
de seus “senhores”

estão pelas esquinas chupando
smoothies de carvão
nos olhos um fosco sem dor

(cinza venoso)

pernas espapaçadas
sobre os frades da calçada
dedos de papel-carbono e

o asfalto a trepar-lhes pelos jeans
sapatos sujos compondo
nas caras uma fixidez diabólica

§

Dois Postais Catastróficos

I.

Cores trompeteando
montanhas
tomadas em gesto
de atirar qualquer coisa de volta ao mar
(doze picos, doze apóstolos)

indefensibilidade de um céu
rosa ritz

ante as rochas as ondas
mantêm as espinhas eretas
alunos bem-comportados

II.

Este o seu rosto comprido quando o outono entrava
colhia-se um cheiro a peixe
este o seu rosto a oscilar com os números oficiais
às toneladas toneladas?
levados em caminhões de noite
aos outeiros da periferia

esta a sua carranca estampando-se asfáltica
água, montanhas treliçadas
aquilo que não ejaculava transparente?

§

“World Music”

Sou tão interessante quanto qualquer outro sujeito do meu tempo
Um pouco mais, talvez, porque raramente prestava atenção
Nos pequenos cinemas do centro da cidade
Aquele que empalideceu por anos
As costas supliciadas, clarão cambaleante, concluía
O sol lá fora
Tira um avermelhado de folhas verdes, atina-se
Com alguma coisa que as luzes logo vêm
pôr sob luz diversa,
enfim, uma lata de particularidades que ignoro
(No centro de particularidades que ignoro)
Porém, se a certos fenômenos tornei-me praticamente insuscetível
Outros tantos parecem interessar-me cada vez mais
No rebordo, braços cruzados, é terrivelmente pitoresco
Dar cobro de si num parque gramado
Fazendo planos, catando uma estação de world music

§

Passeio um Pouco Grave

Caminho caminho só
a contextura deste museu
acontece-me vez por outra
pisar numa coruja
a maravilha
ante todo o insepulto caminho
caminho só
a qualidade de minha própria atenção
poucas palavras a luz
repastada no mundo
caminho caminho só
talvez meus braços percam
um dia algo
desta terrível formalidade

§

 

Possível Siroco

Começa a continuar
todas as tardes, estendido o agasalho sobre um barranco
o parque a sentar-se os rangidos
pesavam-lhe
quem sabe?
cortinadas de neve este ano ainda
quem sabe?
paciência
todas as tardes
o agasalho, o parque todo fosco
começa a projeção
começa poucos espectadores continua
recolhendo palavras do emprego todo fosco
torrista escreve muita vez no verso de uma circular
todas as noites a mesma coletânea intitulada
The Blitz Years
numa noite de vento quente recosto-me à janela
penso em você sobretudo na solidez do clima

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