crítica, poesia

Reuben da Rocha entrevista Carlos Augusto Lima

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Reuben da Rocha: O que é a 1973 Edições?
Carlos Augusto LimaUma proposição a partir de uma frase-verso-conversa de Eduardo Jorge. Uma ficção, principalmente. 

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RR: Queria saber da concepção de Motociclista do globo da morte, em que consistiu esse caminho, da escrita ao objeto, a tipografia, o carimbo, o envelope? Já li você falar em extensões editoriais do poema…
CAL – Sim, o poema se estende na confecção-elaboração-pensamento do objeto. Tenho tido a sorte grande de contar com alguns parceiros que são, para mim, editores-poetas, poetas-editores (Tarso de Melo, Dalila Teles, Maninha Teles, Manoel Ricardo de Lima, Carlos Henrique Schroeder, Francisco dos Santos, Álvaro Beleza, Galciani Neves), que me convidaram para publicar algo e eu, por minha vez, os convidei a participar da feitura dos poemas na sua forma livro. Uma conversa que não necessariamente é regida por uma coerência de sentido entre objeto e texto, assim como não o são seus títulos, formas, dobras, costuras, impressos. Não se dá essa ligação no imediato da leitura, do toque, do manusear. Isso se estabelece de uma outra forma que passa pela troca, a invenção, pela invisibilidade. A “soma de todos os afetos” e conversas está lá, no momento em que algum leitor muito específico encontra o livro. A partir daí, não sei mais…

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RR: E a repetição? E a fragilidade dos meios? Você preza por gestos pequenos, próximos do silêncio, e que têm forte assertividade experimental na minha opinião. São formas de vida do deserto?
CAL – Meu ponto de partida é a precariedade. A primeira de todas, a falta de recursos para publicar livro. Editar livros é muito caro, ainda, no Brasil e, de certa forma (mas não sei até quando e onde vou manter essa ideia) resolvi não publicar meus próprios livros contando com editais ou dinheiro público, mesmo tendo colaborado com coletâneas, revistas e outras publicações que fazem uso desse tipo de recurso. Não vejo problema nenhum na utilização desses recursos, é uma escolha muito particular, que prefiro ver como um “experimento político” e, como todo experimento, é um dado suscetível de falhas e abandonos. Pode ser que eu mude de ideia com o passar do tempo. É sempre bom cultivar nossas contradições, nossos escorregões. No entanto, não gosto de confundir essa precariedade econômica da qual falei com autocomiseração, coitadismo, opção pelo “alternativo” (esse termo surrado), nem qualquer associação com algum tipo de “Arte povera”, etc. Apenas tento lidar com uma limitação e me pergunto como mover o que escrevo, produzo. Mover é: onde colocar o poema? Que outros lugares são possíveis para depositar o verso (porém, não contê-lo)? Esse é o desafio a que me proponho: inventar. E, a fragilidade e simplicidade dos materiais (aqui respondendo alguns pontos da sua pergunta anterior) não excluem uma sofisticação, uma beleza possível naquilo que é inventado. Sofisticação no mínimo, gestos silenciosos, mas essenciais. Não sei até que ponto isso é “experimental”. Não faço nada de novo. Há décadas há pessoas criando de forma muito mais potente do que eu, inclusive agora, aqui, do meu lado (Você, Reuben, é um exemplo magnífico disso). Experimental e radical foi Gutenberg e seus tipos móveis, não? Repito: eu apenas tento atravessar as limitações (do Capital, da linguagem, dos materiais, do corpo), as fronteiras que criamos no grande Deserto que é o mundo todo, cada cidade e morada. Às vezes eu consigo. Mas, como desmonta sempre muito bem Kafka em todas as suas narrativas: “Isso pode ser apenas uma impressão”. 

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RR: É verdade que existem diferentes tempos acontecendo agora?
CAL – Sim! E para cada situação aonde você se move, uma abstração-tempo diversa. Tento aprender com eles, cada tempo. Sou um aluno aplicado. Mas, de toda forma, mesmo na diversidade de tempos nas quais nos colocamos, caminhamos todos, sempre, para o fim das coisas que é a morte. A morte é o fim do meu tempo e o fim da própria morte, como me lembra Blanchot para quem o problema da morte não é o fim da vida, mas o fim da própria possibilidade de morrer. E ela vai levar o nosso Tempo, no fim.

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 RR: O que você fez com a ideia de livro?
CAL – O que poucas pessoas notam nas minhas publicações-brincadeiras-objetos é que a forma do livro como nós conhecemos está lá o tempo todo. Estão lá, quase sempre, o título, a folha de rosto, as páginas com os poemas, a biografia do autor, a ficha técnica, o nome da editora. A diagramação dos poemas, mesmo lidando com os carimbos (no caso do “Motociclista”) é a mais convencional possível. O livro está lá e, ao mesmo tempo, não. É uma ideia expandida de livro e segue um pouco a máxima que guardo de um amigo e grande poeta que é Ricardo Aleixo: “Livro é tecnologia”. Essa frase ficou ecoando na minha cabeça no momento em que conversávamos sobre o tal “fim do livro”, evento catastrófico que a indústria e a imprensa cria de tempos em tempos. Livro é tecnologia das mais sofisticadas e o que se pode fazer ainda com ele é incontável. Nada de novo, nada de novidade. Uma ideia expandida, só isso. E guardo um caderninho com várias dessas ideias. Tenho vários outros planos. É preciso sempre ter um plano, não?

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 RR: Criar é produzir?
CAL – Sempre um nunca. Nem operação concreta, objetiva, nem manufatura, objeto, escrita, coisa tátil, vendável. Criar é para dentro. Crio dentro do silêncio e da inoperação. Crio dentro da preguiça, da bobagem, do trocadinho. Crio no invisível, na presença das minhas filhas, no olhar da namorada, na risada de Júlia. Crio nos meus interesses cada vez mais difusos, que vão de Blanchot, Davi Kopenawa, I-Ching, Hip Hop e sementes de árvores nativas. Produzo cada vez menos, e esse menos é cada vez mais desimportante. Atualmente, muita coisa tem dado errado. Mas é exatamente aí onde preciso ser grato.

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