poesia

6 poemas inéditos de Ismar Tirelli Neto (1985-)

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Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro; vive atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopioRamerrão, Alguns Dias Violentos Os Ilhados.

Março, 2016

Tampouco ele pode pôr-se de pé
Tampouco consegue despegar da infirme terra a testa da grave superfície da pilastra
Tampouco ele encontra a brochura
Tampouco ele capaz de dar nó
Tampouco lhe ocorre
Tampouco consegue carrear os embrulhos avenida abaixo
Tampouco ele com os caixotes de papelão
Tampouco ele na tarde tamisada
Tampouco cães, carroceiros
Tampouco nesta carnadura
Ele contorna
Tampouco consegue exculpar-se
Tampouco bordar, bordear
Tampouco falta

§

Pequena Galeria

Os rapazes daqui
o muito que emudecem
de seus “senhores”

estão pelas esquinas chupando
smoothies de carvão
nos olhos um fosco sem dor

(cinza venoso)

pernas espapaçadas
sobre os frades da calçada
dedos de papel-carbono e

o asfalto a trepar-lhes pelos jeans
sapatos sujos compondo
nas caras uma fixidez diabólica

§

Dois Postais Catastróficos

I.

Cores trompeteando
montanhas
tomadas em gesto
de atirar qualquer coisa de volta ao mar
(doze picos, doze apóstolos)

indefensibilidade de um céu
rosa ritz

ante as rochas as ondas
mantêm as espinhas eretas
alunos bem-comportados

II.

Este o seu rosto comprido quando o outono entrava
colhia-se um cheiro a peixe
este o seu rosto a oscilar com os números oficiais
às toneladas toneladas?
levados em caminhões de noite
aos outeiros da periferia

esta a sua carranca estampando-se asfáltica
água, montanhas treliçadas
aquilo que não ejaculava transparente?

§

“World Music”

Sou tão interessante quanto qualquer outro sujeito do meu tempo
Um pouco mais, talvez, porque raramente prestava atenção
Nos pequenos cinemas do centro da cidade
Aquele que empalideceu por anos
As costas supliciadas, clarão cambaleante, concluía
O sol lá fora
Tira um avermelhado de folhas verdes, atina-se
Com alguma coisa que as luzes logo vêm
pôr sob luz diversa,
enfim, uma lata de particularidades que ignoro
(No centro de particularidades que ignoro)
Porém, se a certos fenômenos tornei-me praticamente insuscetível
Outros tantos parecem interessar-me cada vez mais
No rebordo, braços cruzados, é terrivelmente pitoresco
Dar cobro de si num parque gramado
Fazendo planos, catando uma estação de world music

§

Passeio um Pouco Grave

Caminho caminho só
a contextura deste museu
acontece-me vez por outra
pisar numa coruja
a maravilha
ante todo o insepulto caminho
caminho só
a qualidade de minha própria atenção
poucas palavras a luz
repastada no mundo
caminho caminho só
talvez meus braços percam
um dia algo
desta terrível formalidade

§

 

Possível Siroco

Começa a continuar
todas as tardes, estendido o agasalho sobre um barranco
o parque a sentar-se os rangidos
pesavam-lhe
quem sabe?
cortinadas de neve este ano ainda
quem sabe?
paciência
todas as tardes
o agasalho, o parque todo fosco
começa a projeção
começa poucos espectadores continua
recolhendo palavras do emprego todo fosco
torrista escreve muita vez no verso de uma circular
todas as noites a mesma coletânea intitulada
The Blitz Years
numa noite de vento quente recosto-me à janela
penso em você sobretudo na solidez do clima

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