poesia, tradução

Uma canção de Cage, por Reuben da Rocha

cage

Hoje completamos 24 anos sem John Cage (1912-92). Sem mais apresentações do mestre, segue abaixo uma tradução inédita de Reuben da Rocha, pra vivermos um pouco do Cage poeta.

guilherme gontijo flores

* * *

CANÇÃO

Vespas constroem
abobrinhas
olho a águia pescadora
ao ouvir isso.

Das árvores e arbustos sobrou pouco
pouca coisa nasce nos aterros arenosos
evanesce no ar
igual truques de um aprazível daimon para me entreter
e pássaros se ouvem vir de dentro da neblina.

Rebenta igual um rio
fazedor de mundos
será que é muito largo, muito fundo? Para minha surpresa alguém responde três varas.

Começa a mudar
na mata, damos de cara com a perdiz
estou coberto de piolhos verdes alados.

Quando olho mais longe encontro
as ruas mais baixas das cidades.

Em poucas semanas vão estar
como deveriam ser.

Governo
cobra e sapo
vento de agosto
subida das águias
cachorro do mato.

Abra o ninho colorido da tartaruga
Thoreau.

Agora debaixo da neve
macieiras
lascas de madeira morta
trançadas aos montes
bastantes para encher a fronha do chapéu.

Na floresta
na colina
botões arbustos
cotovias revoadas da encosta
cidade persa
a primavera cresce.

Todas as partes da natureza pertencem a uma cabeça, as espirais
a terra
a água.

Olha e ouve as novas andorinhas em volta dos
grandes botões do bordo tamanho primavera
degelo d’água, inverno do ar
alçado ali por sua mãe
noite da mata virgem.

Ouço o bramido me lembrando março, março.

Frente a frente com ele, eles estão prestes a enforcá-lo
ele deixa eles no bolso.

Ouço gralharem corvos roucos rumo à pinha branca
grilos rangem pela praia
o mesmo frio que faz a chuva; não cortante.

Suas partes centrais entortaram para cima.

Olha, trinta ou quarenta pintassilgos em bando, ar frio
um vasto número de peixes debandou.

Já que floresce uma segunda vez
era perfeito pra deitar em cima
concertos matinais do melro, acônito de inverno
montes de borboletas
asas em preto e branco
novo país onde as pedras não pegaram fogo.

Que eu seja tão vivaz quanto o salgueiro.
E a voz humana não vai expressar tanto teor quanto a nota do pássaro?

Junto a isso, pegadas do coelho
que também esbarrou no pequeno carvalho
gritos da locomotiva, carros retumbantes, sussurro
submerso o dia inteiro.

O musgo abocanha a fruta verde.

A cobra na verga, veloz, embora à vontade na árvore
calou-se a grama do olho azul. Quando ela vai se abrir?

Flâmulas
surpresas, ramos de alho-poró na pedra.

Este é meu areal.

Ponte para a liberdade e nenúfares
nenúfares

nas nossas matas
divinas em parte
e aceleram o coração dela
calmo e selvagem é um só. Que som mais gostoso!

[Tradução de Reuben da Rocha. Poema originalmente publicado no livro M (1972).]

SONG

Wasps are building
summer squashes
saw a fish hawk
when I hear this.

Both bushes and trees are thinly leaved
few ripe ones on sandy banks
rose right up high into the air
like trick of some pleasant daemon to entertain me
and birds are heard singing from fog.

Burst like a stream
making a world
how large do you think it is, and how far? To my surprise, one answered three rods.

Begin to change
in the woods, we came upon a partridge
I find myself covered with green and winged lice.

When I look further, I find
the lower streets of the towns.

In a few weeks they will be
as it should be.

Government
snake and toad
an August wind
soaring hawks
dog of the woods.

Open the painted tortoise nest
Thoreau.

Now under the snows of winter
apple tree
chips of dead wood
then torn up and matted together
‘nough to fill a bed out of a hat.

In the forest
on the meadow
button bushes
flock of shore larks
Persian city
spring advances.

All parts of nature belong to one head, the curls
the earth
the water.

See and hear young swallows about
maple buds large as in spring
ice water, winter in the air
carried there by its mother
wildwoods night.

I hear it roaring, reminding me of March, March.

Stood face to face to him and are about to hang him
puts them in his pockets.

I hear the crows cawing hoarsely flying toward the white pine
cricket creaks along the shore
such coolness as rain makes; not sharp.

Their central parts have curved upward.

See thirty or forty goldfinches in a flock, cold air
great numbers of fishes fled.

Since it blossoms a second time
it was fit to rest on
morning concerts of sparrows, hyemalis and grackles
many butterflies
black with white on wings
new country where the rocks have not been burned.

May I be as vivacious as willow.

Shall not voice of man express as much content as the note of a bird?

In the midst of them, I see track of rabbit
it also struck a small oak
screeching of the locomotive, rumbling cars, a whisper
far down all day.

Mosses bear now a green fruit.

This snake on twigs, quick as thought and at home in the trees
the blue-eyed grass is shut up. When does it open?

Flitting about
surprising, this cluster of leek buds on rock.

These are my sands.

Hubbard’s bridge and waterlilies
waterlilies.

In our forests
part divine
and makes her heart palpitate
wild and tame are one. What a delicious sound!

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