poesia, tradução

Juan Laurentino Ortiz, por Sandra Sandos

Juan L. Ortiz

Juan Laurentino Ortiz (Puerto Ruiz, 1896 – Paraná, 1978) foi um poeta argentino, mais conhecido por Juan L. Ortiz. A sua infância foi passada num meio rural da Mesopotâmia argentina e a sua juventude em Buenos Aires, onde se envolveu ativamente a nível político e intelectual nos valores do anarquismo. Regressou à sua cidade natal, Entre Ríos, trabalhando como empregado público. Inicialmente, a sua poesia revelava algum intimismo pós-modernista, contudo evoluiu para temáticas relacionadas com o sentimento cósmico da paisagem e um humanitarismo solidário. Traduziu a poesia de Paul Éluard, Guisseppe Ungaretti, Ezra Pound e alguns poetas chineses. Retirado dos círculos literários, a sua obra obteve uma difusão escassa e publicada de forma dispersa em vários poemários: “El agua y la noche”; “El alba sube”; “El ángel inclinado”; “La rama hacia el Este”; “El álamo y el viento”; “El aire conmovido”; “La mano infinita” e “La brisa profunda”. Em 1971, estas obras reuniram-se em três volumes com o título “En el aura del sauce”. Juan L Ortiz falece com 82 anos, legando uma escrita profundamente comungante com a natureza e os conflitos sociais.

Sandra Santos é estudante de mestrado em “Estudos Editoriais” pela Universidade de Aveiro (Portugal). Desenvolve projectos na sua área de estudos. Escreve e pro/traduz. Membro do colectivo artístico “Mutações Poéticas”. Co-fundou a página de facebook “Poesia em matéria fria”. Co-coordenou o sexto número da revista de poesia “Cuaderno Ático”. A sua missão de vida é contribuir para a partilha de conhecimento, através da sua intervenção político-poética no mundo.

* * *

PARA QUE LOS HOMBRES

Para que los hombres no tengan vergüenza
de la belleza de las flores,
para que las cosas sean ellas mismas: formas sensibles
o profundas de la unidad o espejos de nuestro esfuerzo
por penetrar el mundo,
con el semblante emocionado y pasajero de nuestros sueños,
o la armonía de nuestra paz en la soledad de nuestro pensamiento,
para que podamos mirar y tocar sin pudor
las flores, sí, todas las flores
y seamos iguales a nosotros mismos en la hermandad delicada,
para que las cosas no sean mercancías,
y se abra como una flor toda la nobleza del hombre:
iremos todos hasta nuestro extremo límite,
nos perderemos en la hora del don con la sonrisa
anónima y segura de una simiente en la noche de la tierra.

PARA QUE OS HOMENS

Para que os homens não tenham vergonha
da beleza das flores,
para que as coisas sejam elas mesmas: formas sensíveis
ou profundas da unidade ou espelhos do nosso esforço
em penetrar o mundo,
com o semblante emocionado e passageiro de nossos sonhos,
ou a harmonia da nossa paz na solidão de nosso pensamento,
para que possamos olhar e tocar sem pudor
as flores, sim, todas as flores
e sejamos iguais a nós mesmos na irmandade delicada,
para que as coisas não sejam mercadorias,
e se abra como uma flor toda a nobreza do homem:
iremos todos até o nosso limite extremo,
perder-nos-emos na hora do dom com o sorriso
anónimo e seguro de uma semente na noite da terra.

§

HAY EN EL CORAZÓN DE LA NOCHE

Hay en el corazón de la noche
un roce,

anterior al ángel que deshace
el éxtasis de las hojas,
anterior a los gallos,
al desmayo primero, tenue,
tenuísimo

del cielo,
a esas alas sobresaltadas
¿qué sueño, pesadilla de pájaro?

Hay en el corazón de la noche
un roce.

Cómo es de sensible la noche!

HÁ NO CORAÇÃO DA NOITE

Há no coração da noite
um roçagar,
anterior ao anjo que desfaz
o êxtase das folhas,
anterior aos galos,
ao desmaio primeiro, ténue,
tenuíssimo
do céu,
a essas asas sobressaltadas
que sonho, pesadelo de pássaro?

Há no coração da noite
um roçagar.
Como é sensível a noite!

§

CÓMO ES DE SENSIBLE

¡Cómo es de sensible la emoción del crepúsculo!
El silencio es tan hondo que hace daño casi,
a pesar de que arde, todo floral, arriba,

en la emocionada palidez del cielo,
con eucaliptus negros, de improviso, subidos.

¡Y cómo se prolonga la emoción! ¿Cuándo
una dulzura suave, flotante, alargó tenues
sombras entre las plantas? ¿Cuándo salió la luna?

Soledad de los campos con luna. Soledad.
Campo y luna, dos notas sólo que sostienen
esta música eterna. Campo y luna.
¿Para qué más? Tengamos el oído sutil.

COMO É SENSÍVEL

Como é sensível a emoção do crepúsculo!
O silêncio é tão profundo que quase magoa,
pese embora arda, todo floral, acima,
na emocionada palidez do céu,
com eucaliptos negros, de improviso, elevados.

E como se prolonga a emoção! Quando
uma doçura suave, flutuante, distendeu ténues
sombras entre as plantas? Quando apareceu a lua?

Solidão dos campos com lua. Solidão.
Campo e lua, duas notas só que sustêm
esta música eterna. Campo e lua.
Para quê mais? Tenhamos o ouvido subtil.

§

ES OTOÑO MUCHACHOS…

Es Otoño, muchachos. Salid a caminar.
Otoño en su momento inicial, más hermoso.
No os engañará este azul casi alegre?
¿Alegre?
¿La profundidad tiene alguna vez alegría?

¿No os engañará este verde joyante por momentos?
¿O esta invitación alada de la tarde?
No, una honda presencia deshace las azules sombras
y apaga la alegría del campo
—un luminoso, puro sueño que tiembla.

¿Cómo, y la tarde no se corona de flores
como de un fuego quieto de ángeles guardianes?

Ya está el viento, muchachos, el viento del otoño, del otoño,
violento o suave casi como un suspiro,
una enfermiza alma
de qué oscuros reinos?
que revela en las cosas
un herido pensamiento
de sorprendidas criaturas.

El viento,
niño fúnebre que juega con las últimas ilusiones del cielo
hasta darle una aguda limpieza de extraña agua final.

El viento, muchachos, el viento infinito.

É OUTONO, RAPAZES…

É Outono, rapazes. Ide caminhar.
Outono no seu momento inicial, mais formoso.
Não vos enganará este azul quase alegre?
Alegre?
A profundidade tem alguma vez alegria?

Não vos enganará por momentos este verde jubilante?

Ou este convite alado da tarde?
Não, uma profunda presença desfaz as sombras azuis
e apaga a alegria do campo
– um luminoso, puro sonho que treme -.

Como, e a tarde não se coroa de flores
como de um fogo quieto de anjos guardiões?

Está já o vento, rapazes, o vento do outono, do outono,
violento ou suave quase como um suspiro,
uma enferma alma
de que escuros reinos?
que revela nas coisas
um ferido pensamento
de surpreendidas criaturas.

O vento,
menino fúnebre que joga com as últimas ilusões do céu
até dar-lhe uma aguda limpeza de rara água final.

O vento, rapazes, o vento infinito.

NADA MÁS QUE ESTA LUZ

El éxtasis, el éxtasis,
entre el cielo y la tierra, suspendido,
mejor: que se abre y se dilata como un alma
profunda, pero de una
claridad delicada de serenos
pensamientos sensibles.
Nada más que esta luz, otoño,

otoño, nada más que esta luz
que penetra sutil
las cosas
pero queda
al rededor de ellas, como temblando,
sensitiva
y casi pudorosa.
Nada más que esta luz, otoño.
¿ Es de todos esta luz ?
La calle humilde está
traspasada, y como elevada,
ligera,
en esta dicha etérea.
Pero a todos llegas, otoño,
a todos llegas en esta tarde
en que hay manos translúcidas y eternas
que hacen signos tiernos en el aire

NADA MAIS QUE ESTA LUZ

O êxtase, o êxtase,
entre o céu e a terra, suspenso,
melhor: que se abre e se dilata como uma alma
profunda, mas de uma
claridade delicada de serenos
pensamentos sensíveis.
Nada mais que esta luz, outono,
outono, nada mais que esta luz
que penetra subtil
as coisas
mas permanece
ao redor delas, tremendo,
sensitiva
e quase pudorosa.
Nada mais que esta luz, outono.
É de todos esta luz?
A rua humilde está
trespassada, e como que elevada, ligeira,
na ventura etérea.
Mas a todos chegas, outono,
a todos chegas nesta tarde
en que há mãos translúcidas e eternas
que fazem sinais ternos no ar.

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Um comentário sobre “Juan Laurentino Ortiz, por Sandra Sandos

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