poesia

3 poemas inéditos de Dirceu Villa

villa escamandro

Dirceu Villa (1975, São Paulo) é autor de 4 livros de poesia, MCMXCVIII (1998), Descort (2003, prêmio Nascente), Icterofagia (2008, ProAC) e Transformador (poemas, 1998-2013), e tradutor de Um anarquista e outros contos, de Joseph Conrad (2009), Lustra, de Ezra Pound (2011) e Famosa na sua cabeça, de Mairéad Byrne (2015). Escreveu ensaios sobre poesia contemporânea e revisão do cânone de poesia de língua portuguesa. Foi o curador da exposição de livros de Ezra Pound, a Ezpo, da biblioteca de Haroldo de Campos, na Casa das Rosas (2008). Organizou uma antologia de poetas brasileiros contemporâneos para a revista La Otra, do México, em 2009, e escreveu prefácios para obras de Stéphane Mallarmé, Charles Baudelaire Christopher Marlowe, além de autores contemporâneos, como Alfredo Fressia, Ricardo Aleixo e outros. Foi convidado para o PoesieFestival de Berlim em 2012, e em 2015 foi escolhido para residência literária em Norwich e Londres, promovida pelo British Council, a FLIP e o Writers’ Centre Norwich. Ensinou literatura na pós lato-sensu da Universidade de São Paulo (USP), na graduação da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e é professor da Oficina de Tradução Poética da Casa Guilherme de Almeida (Centro de Estudos de Tradução Literária).

* * *

 dois encompassam; paz

o mesmo com os amantes; o mais sem ser
a si mesmo; mão em flores finas no barranco;
quebram ondas abaixo; encontram nuvens
acima; pele lisa de juventude madura agora;

saborear os dias como risos; rios que jorram
da fonte nova; banham nova vida, de brilho;
banham beijos os combates deste amor;
luz de manhã acende as cores no seu rosto;

denso de sono e sexo; denso de sonhos no ar;
caprichosos antes de despertar, boa esperança;
lençol desliza lento; lascas de fruta fazem sol;
penhascos borram o vivo azul; colo agora calmo;

coração, pulso e pescoço; calor inunda a pele;
braços suaves em abraço; seios me estreitam;
tudo nos custa nada; verdade nos lábios; a hora
cresce da margem; em manto e flores; espírito

dois encompassam; dois se encontram; paz.

§

íbex

entre a distância e o estrondo
da montanha, o dorso
delineia o colosso,
curvado na hipnótica espiral
onde tudo se decide:
um clangor, mas silêncio
de paz montada em cascos
e a rocha dura, a sólida
troca de estouros secos
em que se troca a pele
desta quieta e feroz
montanha animal
em rígida pedra.
salta em folhas íngremes
de mineral pontudo
e sempre se empina nas patas
como se músculo só.
procurar o verdor no sol
da aridez vermelha,
que trinca a terra seca
abrindo feridas
no chão áspero, ardendo;
sem medo, porque pedra
se torna entre as pedras:
o precipício venta
e sem tremor se encontra no topo,
em seus chifres, o íbex.

§

cegueiras & visões

ouve então, que estás de novo
em pé sobre a navalha do destino
(Tirésias em Antígone, Sófocles)

oh the humanity
o repórter sem idéias de tragédia
diante da tragédia das idéias

mas nós : nostos : sempre a viagem
mesmo quando à roda deste quarto

ficino para dentro
do secreto escuro timbre
das vogais camonianas
(como viu merquior)
a mente que engendra
o engenho
enquanto o falador
pigmeu literário
propagandeia sua
obra-obituário
e falanges se esmagam
— não deuses, heróis — subhomens otários
em armas, nem homens

traças

nos mapas ginasiais
cada país de uma cor;

não valeriam uma vírgula aos olhos
da condessa oyenhausen-gravenburg
se entretendo à noite
com a musa que teme o dia
e tinha nojo dos despóticos
“medo e vileza”
conheceu mme. du staël & metastasio

sob a lâmpada de diógenes
sentada sorrindo ao sr. pitschmann
enviado especialmente a ver e registrar
esse preciso sorriso,
os olhos vivos e tão doces
o contorno do queixo e dos seios
a quem escape a virtude de seus versos

a condessa de vimieiro
a viscondessa de balsemão, que receia amor
entrevistas dormindo
por olhos que pedem calor
nos corredores de silêncio do convento em chelas

excelente a sua mente
num péssimo tempo

qual tempo seria oportuno?
eu mesmo digo isto
mais de três séculos
depois dela, agora mesmo, nesta folha de papel
na navalha do destino, de novo
kurtz vê o molusco deslizar, sobreviver

e lembro

do 21º batalhão
das duas brigadas
dispostas em três corpos:
sessenta cartuchos, armas, capotes
52 quilômetros a cobrir —
que o brasileiro nunca desiste —
sem homens pra manobras
agora impraticáveis;
sem víveres, pouca munição, peças de artilharia
pesada — tudo se reduz
a uma só brigada
1600 homens mal das pernas

não sem proveito
ao tesouro público

o império não paga sequer
300 mil réis prometidos
que filoctetes perdoa
ao país
taunay anota
piedoso ou irônico

antes de menelik II & dos fuzis
de rimbaud, o rapaz que amávamos
— disse camus —
e da vaca que concordou em ceder-lhe
“alguma palha”
onde dormir

o que esqueceu de tudo, cego,
traindo seus dons com um cinto de ouro
e de armas, sua morte

césar apunhalado no senado
senados traiçoeiros com punhais afiados
(cf. 2016 d.C.)

hécuba cegando polymnestor
os atraídos por tesouros, que as mulheres os ceguem
em vingança

nenhum acaso na lembrança
do amor como da guerra

pausas escandindo
este vazio em filosofia?

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