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Fernanda Morse (1996-)

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Fernanda Morse (1996) nasceu em Niterói e hoje vive em São Paulo. Estuda Letras-Inglês na USP e escreve. Publicou seu primeiro livro em 2014 pela Coleção Kraft, da editora Cozinha Experimental. Em 2015, lançou os “impossíveis” pelo selo Cactus.

* * *

lobo
toma forma
esta noite
este corpo
telepático
infame
a lua
em si mesma
não cria
o monstro
noturno
a neve
o frio
o susto
quem sabe
o bicho
nasce
do desejo:
trouble
every
day

§

eu também sou do mal

descobrir um abismo ou
tomar essa nota:
vasculho uma vida inteira
para dar
meu nome

por encontrar um porte
te convido
ao baile de máscaras
vendredi soir
ninguém
se revela

relevo qualquer
iniquidade
eu também sou
do mal

também abro
gavetas e leio
recados de uma vida inteira
também abro
e­mails e leio
amores ao meio
um livro que me atropela
e abro
respostas às quais
nem me remeti

que medo
se for pega
eu nego eu nego
apelo
por ingênua
remissão

§

a minha amiga pode passar muito tempo calada
eu acato
— sofrendo —
já que adoro falar
com a minha amiga
mas às vezes ela se atrapalha
um pouco com seus dedos e
não pode mexer muito
com as palavras
às vezes me basta
ver a minha amiga de longe
atravessando a rua com um pano na cabeça
olhando pra baixo
olhando pros lados
sem saber que está sendo olhada
às vezes é
o melhor dos encontros
posso criar mil mundos
sobre a sua imagem abraçá-­la em segredo
ninguém precisa fazer nada
além de seguir viagem
o que muitas vezes é coisa o bastante
para se ocupar uma vida inteira

§

contornamos a cidade ou vamos
por dentro
hesitamos o caminho e as árvores
devoram
toda beleza distrai
acalma
violenta os sentidos
então vamos por dentro
agora é triste
agora vemos pessoas
que devoram toda a vida
dura e a coluna como vemos se entorta
não dobra não volta este acidente
que induzimos
se arrasta

§

nem sempre a intenção é clara
mesmo assim o desejo aporta

algumas palavras são proibidas
e algumas cores inapropriadas

virginia woolf invejava
os primeiros falantes de uma língua

os primeiros falantes de uma língua
fazem dela o uso mais prazeroso

deve ser mesmo prazeroso
provar palavras frescas

dizer flor sem parecer ingênua
dizer sangue sem parecer romântica

furor sem parecer antiga
entre tantas palavras velhas

e o melhor é imaginar que se podia
acabar um poema quando bem entendesse

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