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Discurso de Raúl Zurita ao receber o Prêmio Pablo Neruda 2016, por Enrique Carretero

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Raul Zurita é poeta chileno, nascido em 10 de janeiro de 1950. Ficou órfão de pai quando tinha dois anos de idade, ficando sob o cuidado da mãe e avó materna, ambas imigrantes italianas. Formou-se em engenharia e na época de estudante universitário filiou-se ao partido comunista. É por isto que foi preso e torturado durante a ditadura militar chilena. Já solto, mas ainda durante os anos da ditadura militar, ficou conhecido por realizar performances poéticas em espaços públicos, utilizando seu próprio corpo como meio de expressão, inclusive em situações arriscadas de autoflagelação. É autor de uma extensa e reconhecida obra. Entre os principais títulos estão “Purgatório” (1979), , “Ante-Paraíso” (1982), “O amor do Chile” (1987) “Canto a seu amor desaparecido” (1985), “Canto dos rios que se amam” (1997), “Os poemas mortos” (2006), “As cidades da água” (2007), “Zurita” (2011), “Tua vida se rompendo” (2015). Recebeu vários prêmios literários no Chile e fora do seu país, como a Bolsa Guggenheim (1984), Prêmio Pablo Neruda (1988), Premio Pericles de Oro (1994) – Italia, Prêmio Nacional de Literatura do Chile (2000), Doutro Honoris Causa da Universidade de Alicante, Espanha, 2015 e o mais recente, o Prêmio Iberoamericano de Poesia Pablo Neruda, 2016.

Enrique Carretero, nascido em Santiago do Chile, é poeta e tradutor. Bacharel em letras pela USP, publicou seu primeiro livro de poemas, Travessias, pela editora Patuá em 2014. Atualmente faz mestrado em Letras Clássicas na mesma universidade.

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Discurso de Raúl Zurita ao receber o Prêmio Pablo Neruda 2016

O Chile, muito antes de ser um país foi um poema.  É o “Chile fértil província assinalada/ na região antártica famosa/ de remotas nações respeitada/ por forte, principal e poderosa”, do poema La Araucana de Alonso de Ercilla, esse soldado espanhol que participou na conquista e que depois de declarar que não vinha para cantar o amor, senão a espada, viu num território absolutamente desconhecido, no lugar mais remoto do mundo, as fronteiras ainda imaginárias de um país, unindo para sempre nosso destino com o destino da poesia, dos grandes sonhos e das suas encarnações concretas, mas também com os rastros de uma violência extrema incrustada no centro da nossa história.

Sou um poeta chileno, sou filho dessa violência e dessa delicadeza.

Agradeço este prêmio que leva o nome do maior poeta da história da língua castelhana, Pablo Neruda. Frente a sua obra a sensação frequentemente não é diferente da que podemos experimentar olhando para os cumes dos Andes ou para a imensidão do mar. Poemas como Galope morto, Walking Around ou Alturas do Macchu Picchu nos fazem pensar nessas dimensões. Nos seus momentos mais altos sua poesia, mais que a criação de um autor, parece um destino em cuja inexorabilidade estão expressadas todas as mortes, esperanças, tragédias, sonhos e despertares, de milhões e milhões de homens e mulheres que precisaram de poemas para completar suas existências. Pablo Neruda ao escrever seu Canto Geral não sabia que esse livro seria a prova de que os povos, que através dele o escreveram e que ali são mencionados, iriam atravessar ainda outra “morte geral” – as novas ditaduras e sua interminável sequela de assassinados e desaparecidos – dando a todas essas vítimas, aos oprimidos e marginados da nossa história, a condenação póstuma de encontrar na poesia a vida nova que devia esperar por eles e que por eles não esperava.

Recebo, então, esta distinção com um sentimento de gratidão, mas também de dor, de alegria e, ao mesmo tempo, de tristeza, de orgulho e, por sua vez, de vergonha. A tarefa não era escrever poemas nem pintar quadros; a tarefa era fazer da vida uma obra mestra, e os restos triturados dessa tarefa cobrem a terra como se fossem as ruínas de uma batalha terrivelmente perdida. A poesia é a mais alta criação humana, seu fundamento é a celebração da vida, mas inúmeras vezes teve que relatar a desgraça. Nada do que acreditei na minha juventude que seria o mundo foi o mundo, nada do que imaginei que seria o Chile depois do terrível passo da ditadura foi o Chile. O único bem que nos ensinaram esses anos ferozes: esse companheirismo, essa lealdade que fez a tantos de nós atravessarem a noite um pouco mais amparados, mostrando-nos nas situações mais difíceis que a solidariedade era possível, que o amor era possível. Foi o primeiro que foi esquecido e vimos surgir, assim, um país atomizado pelo neoliberalismo, não solidário com os mais fracos, em muitos aspectos déspota com os mais necessitados.

À poesia cabe intimamente esse fracasso, o estado de uma sociedade não pode ser medido por quão bem estão os que estão bem; felizes os felizes, diz Borges na sentença final do seu Fragmentos de um evangelho apócrifo, senão por quão mal estão os que estão mal; e os que estão mal, estão muito mal. A poesia deve baixar a eles, deve descer junto ao mais danificados, ao mais túrgido e ferido para empreender a partir dali, a partir do fosso do humano como queria o jovem Rimbaud, o árduo caminho a uma nova alegria, a uma nova esperança, a um novo sonho, porém não a um sonho qualquer, não a uma esperança fraca, não a uma alegria cautelosa, mas bem para que a partir da fome, dos asilos de anciãos pobres, a partir de cada menino e menina estuprados, a partir dos cárceres, a partir das Febem deste mundo, emerja um sonho tão forte que vire a realidade e nos mostre de novo as infinitas resplandecências desta terra que ainda nos ama.

E ela nos ama, e incrivelmente nos ama, pois teria sido suficiente que a cordilheira dos Andes tivesse se deslocado uns poucos quilômetros mais a oeste ou que o nível do Pacífico tivesse subido uns poucos metros, para que nada disto tivesse existido. No entanto, algo quis que fôssemos, algo quis que houvesse um povo a mais entre os outros povos, que houvesse um sonho a mais entre os outros sonhos, que houvesse uma voz a mais na conversação geral que todas as coisas têm com todas as coisas. Por razões que são misteriosas esse diálogo teve no Chile a forma da poesia.

A pergunta crucial que propõem os grandes poemas é: se os seres humanos são capazes de escrever o Cântico das criaturas de São Francisco, de pintar os afrescos de Fra Angélico ou a mulher com flores de Diego Rivera, se podem executar com zamponhas a música mais profunda e bela do planeta, a música boliviana, como é possível entender que, ao mesmo tempo, assassinem outros seres humanos? Se a comovedora voz de Isabel Aldunate cantou frente ao país dilacerado O jejum, se Violeta Parra, sabendo que ia se matar, compôs esse hino chamado Gracias a la vida, como, com que palavras é possível explicar que outros fizeram os estádios matadouros de homens? Se o poeta Robert Desnos, um dos fundadores do surrealismo, atravessou os campos de extermínio, realizando nas condições mais infernais que possam ser pensadas o ato absolutamente delicado de corrigir um poema de amor, como compreender as gasificações massivas, os fornos crematórios, Auschwitz? Um estudante adicto ao surrealismo, que entrara com os guerrilheiros tchecos, Josef Stuma, reconheceu Desnos entre os moribundos e recolheu o poema. Não continha nenhuma referência aos campos de concentração, nem às circunstâncias em que fora escrito. Era só um poema de amor, mas precisamente porque era só isso, um poema de amor em meio ao inferno, constitui a denúncia mais feroz que alguém já fizera do horror do genocídio. O poema se chama À misteriosa e frente à monstruosidade de Treblinka antepõe a imagem de um sonho. Leio:

“Sonhei tanto contigo que tu perdes tua realidade. Haverá tempo para alcançar esse corpo vivo e beijar sobre essa boca o nascimento da voz que amo? Sonhei tanto contigo que meus braços habituados a se cruzar sobre meu peito abraçam tua sombra, quiçá já não poderiam se adaptar ao contorno do teu corpo. E frente à existência real daquilo que me obceca e me governa há dias e anos seguramente me transformarei em sombra. Análises sentimentais. Sonhei tanto contigo que, por certo, já não conseguirei acordar. Durmo em pé, com meu corpo que se oferece a todas as aparências da vida e do amor, e tu, a única que agora importa para mim, mais difícil será tocar tua testa e teus lábios, que os primeiros lábios e a primeira testa que eu encontre. Sonhei tanto contigo, andei tanto, falei, me estendi ao lado da tua sombra e do teu fantasma que só me resta ser fantasma entre os fantasmas e cem vezes mais sombra que a sombra que sempre passeia alegremente pelo quadrante solar da tua vida.” [tradução feita a partir do discurso de Zurita, não do original de Desnos]

Contrasto, então, a infinita devoção desse poema, sua insubornável pureza, a todas as crueldades da história, porque, se a poesia de Robert Desnos não existisse, se a arte não existisse, provavelmente a violência seria a norma. Porém existe, e só o fato de que alguém em meio ao holocausto pudesse escrever algo tão incrivelmente belo como “Sonhei tanto contigo que tu perdes tua realidade”, faz que o assassinato seja infinitamente mais assassinato e o assassino, infinitamente mais assassino.

É o que sempre tratei de mostrar no que escrevi. Imaginei em meio ao terror da ditadura sagas inacabáveis que se apagavam ao amanhecer, poemas alucinados onde o Pacífico flutua suspenso sobre os cumes dos Andes e onde o deserto do Atacama se eleva como um pássaro sobre o horizonte. Imaginar esses poemas foi minha forma de resistir, de não enlouquecer, de não me resignar. Senti que frente à dor e ao dano era preciso responder com uma arte e uma poesia que fosse mais forte que a dor e o dano que estava sendo imposto em nós. Não se tratava de lançar uma descarga de pequenos poemas de combate, senão de algo muito mais devastado, mais luminoso, mais surdo e violento. Era necessário falar de amor, mas para falar de amor era preciso aprender a falar de novo, começar desde cada letra, porque nenhuma das linguagens que existiam antes bastavam para dar conta do que tinha acontecido. Sinto que os vestígios desses anos estão ali, nessas tentativas, e que ordenados por um desejo que nos transborda, os poemas não são mais do que os sonhos que a terra sonha, os sonhos com os que tenta se lavar do sofrimento humano, e que ninguém pode nada frente a isso, mas apenas gravar umas pequenas impressões, umas marcas mínimas que quiçá sobrevivam ao acordar.

Eu vivi no Chile dos anos da ditadura e sobrevivi a ela e à minha própria autodestruição. No ano de 1975, depois de um episódio humilhante com uns soldados, me lembrei da frase do evangelho de pôr a outra face e então fui e queimei a minha. Não soube bem por que o fazia, mas ali começou algo. Lembrei que quando criança vira um avião que voava em círculos, traçando com fumaça branca o nome de um sabão e imaginei de repente um poema sendo escrito no céu. Entendi, então, que aquilo que tinha começado na máxima solidão e desespero de um homem que queima o próprio rosto trancado num banheiro, devia terminar algum dia com o vislumbre da felicidade. Dois anos mais tarde pensei numa escrita no deserto que apenas pudesse ser vista de cima. Só diria “nem pena, nem medo”, e estaria sulcando um país onde quase o único  que havia era pena e medo. Anos mais tarde vi a frase recortada sobre o deserto e, com efeito, pela sua extensão só podia ser lida completamente do céu. Alguém reparou que o sulco das letras na terra era parecido com o sulco da cicatriz no meu rosto. Tinham se passado dezoito anos e surpreendeu-me ter sobrevivido. Recebo esta distinção em nome dos nossos ausentes.

Eu trabalho com minha vida e tento que isso não seja uma bandeira. Não porque minha vida tenha algo de exemplar, o diabo me livre de ser exemplo de nada, mas porque creio que, se podemos chegar ao fundo de nós mesmos, sem autocompaixão nem falsa solidariedade, olhando para nossa zona de luz, nossa sede de amor, porém também toda nossa reserva de ódio, violência e homicídio, é possível que cheguemos ao fundo da humanidade inteira. Creio que tudo que pude ter feito está ali. Escrevi a partir de um corpo que se dobra sob os efeitos do Parkinson, que fica rígido, que treme, que vai para frente e que cai, e já achei linda minha doença, já senti que meus tremores são belos, que minha dificuldade para segurar estas folhas que agora leio é bela. Já escrevi sobre esse corpo, sobre as dores que causei a outros e as que eu mesmo me impus, gravei com fogo meus poemas sobre minha pele. Só os doentes, os fracos, os feridos, são capazes de criar obras mestras. Sinto que escrevi a partir de um certo irreparável desespero e, ao mesmo tempo, a partir de uma irrefreável alegria. Uma alegria estranha porque é como se nascesse da dificuldade de sermos felizes. Do encontro desses fantasmas nasce minha escrita. A escrita é como as cinzas que restam de um corpo queimado. Para escrever é preciso queimar-se inteiro, consumir-se até que não reste nem um fragmento de músculo nem de ossos nem de carne. É um sacrifício absoluto e ao mesmo tempo é a suspensão da morte. É algo concreto, quando se escreve a vida fica suspensa e, portanto, fica suspensa também a morte. Escrevo porque é meu exercício privado de ressurreição.

Dizia ao início que essa terra ainda nos ama, ainda quer se ver em nós, ainda o mar, o deserto, as montanhas, querem se olhar nos nossos olhares, ainda o som do romper das ondas e do vento quer se reconhecer nos nossos ouvidos, ainda suas estrelas querem se refletir nos nossos olhos. Nos seus momentos mais felizes minha poesia tentou expressar esse amor da terra, não sempre foi assim. Escrevi a partir da ferida e do dano num mundo ferido, doente, sem compaixão. Escrevi a partir da dor, mas nosso dever é a felicidade. Escrevi a partir do ódio, mas nosso dever é o amor.

Termino com o poema com que gostaria de encerrar minha vida:

Então, esmagando a face queimada / contra os ásperos pedregulhos deste solo pedregoso –como um bom sul-americano- erguerei por mais um minuto meu rosto para o céu / chorando / porque eu acreditei na felicidade / terei visto de novo as irrefutáveis estrelas

Te amo Paulina, você é as irrefutáveis estrelas da minha noite.

(trad. Enrique Carretero)

§

Chile, mucho antes de ser un país fue un poema. Es el “Chile fértil provincia señalada/ en la región antártica famosa/ de remotas naciones respetada/ por fuerte, principal y poderosa”, de La Araucana de Alonso de Ercilla, ese soldado español que participó en la conquista y que después de declarar que no venía a cantarle al amor sino a la espada, vio en un territorio absolutamente desconocido, en el lugar más remoto del mundo, los bordes aún imaginarios de un país, uniendo para siempre nuestro destino con el destino de la poesía, de los grandes sueños y de sus encarnaciones concretas, pero también con las trazas de una violencia extrema anidada en el centro de nuestra historia.

Soy un poeta chileno, soy un hijo de esa violencia y de esa delicadeza.

Agradezco este premio que lleva el nombre del más grande poeta de la historia de la lengua castellana, Pablo Neruda. Frente a su obra la sensación a menudo no es distinta a la que podemos experimentar mirando las cumbres de los Andes o la inmensidad del mar. Poemas como Galope muerto, Walking Around o Alturas de macchu Picchu nos hacen pensar en esas dimensiones. En sus momentos más altos su poesía más que la creación de un autor se parece a un destino en cuya inexorabilidad están expresados todas las muertes, esperanzas, tragedias, sueños y despertares, de millones y millones de hombres y mujeres que han requerido de los poemas para completar sus existencias. Pablo Neruda al escribir su Canto General no sabía que ese libro iba a ser la prueba de que los pueblos que a través de él lo escribieron y que allí se mencionan, debían atravesar todavía otra “muerte general” –las nuevas dictaduras y su interminable secuela de asesinados y desaparecidos- dándoles a todas esas víctimas, a los oprimidos y marginados de nuestra historia la sanción póstuma de encontrar en la poesía la vida nueva que debía esperarlos y que no los esperaba.

Recibo entonces esta distinción con un sentimiento de gratitud pero también de dolor, de alegría y al mismo tiempo de tristeza, de orgullo y a la vez de vergüenza. La tarea no era escribir poemas ni pintar cuadros; la tarea era hacer de la vida una obra maestra y los restos triturados de esa tarea cubren la tierra como si fueran los escombros de una batalla atrozmente perdida. La poesía es la más alta creación humana, su fundamento es la celebración de la vida, pero ha tenido demasiadas veces que relatar la desgracia. Nada de lo que creí en mi juventud que sería el mundo ha sido el mundo, nada de lo que imaginé que sería Chile después del terrible paso de la dictadura es lo que ha sido Chile. Lo único bueno que nos enseñaron esos años feroces: ese compañerismo, esa lealtad, que nos hizo a tantos atravesar la noche un poco más guarecidos, mostrándonos en las situaciones más difíciles que la solidaridad era posible, que el amor era posible, fue lo primero que se olvidó y vimos surgir así un país atomizado por el neoliberalismo, insolidario con los más débiles, en muchos aspectos déspota con los más desposeídos.

A la poesía le concierne íntimamente ese fracaso, el estado de una sociedad no puede medirse por lo bien que están los que están bien; felices los felices, dice Borges en la sentencia final de su “Fragmentos de un evangelio apócrifo,” sino por lo mal que están los que están mal, y los que están mal están muy mal. La poesía debe bajar con ellos, debe descender junto a lo más dañado, a lo más tumefacto y herido para emprender desde allí, desde esas fosas de lo humano como quería el pequeño Rimbaud, el arduo camino a una nueva alegría, a una nueva esperanza, a un nuevo sueño, pero no a un sueño cualquiera, no a una esperanza débil, no a una alegría cautelosa, sino para que desde el hambre, desde los asilos de ancianos pobres, desde cada niño y niña violadas, desde las cárceles, desde los Sename de este mundo, emerja un sueño tan fuerte que de vuelta la realidad y nos muestre de nuevo los infinitos resplandores de esta tierra que aún nos ama.

Y nos ama, e increíblemente nos ama, pues habría bastado que la cordillera de los Andes se hubiera desplazado unos pocos kilómetros más al oeste o que el nivel del Pacífico hubiese subido unos metros, para que nada de esto hubiese existido. Sin embargo algo quiso que fuéramos, algo quiso que hubiese un pueblo más entre los otros pueblos, que hubiese un sueño más entre los otros sueños, que hubiese una voz más en la conversación general que todas las cosas mantienen con todas las cosas. Por razones que son misteriosas ese diálogo tomó en Chile la forma de la poesía.

La pregunta crucial que plantean los grandes poemas es: si los seres humanos son capaces de escribir el Cántico de todas las criaturas de San Francisco, de pintar los retablos de Fra Angelico o la mujer con flores de Diego Rivera, si pueden ejecutar con zampoñas la música más profunda y bella del planeta; la música boliviana, ¿cómo puede entenderse que al mismo tiempo asesinen a otros seres humanos? Si la sobrecogedora voz de Isabel Aldunate cantó frente al país destrozado “El ayuno”, si Violeta Parra, sabiendo que se iba a matar, compuso ese himno que se llama “Gracias a la vida”, ¿cómo, con qué palabras puede explicarse que otros hayan hecho de los estadios mataderos de hombres? Si el poeta Robert Desnos, uno de los fundadores del surrealismo, cruzó los campos de exterminio, ejecutando, en las condiciones más infernales que se puedan concebir, el acto absolutamente delicado de corregir un poema de amor, ¿cómo pueden comprenderse las gasificaciones masivas, los hornos crematorios, Auschwitz? Un estudiante adicto al surrealismo, que había entrado con los partisanos checos, Josef Stuma, reconoció a Desnos entre los moribundos y recogió el poema. No contenía ninguna referencia a los campos ni a las circunstancias en que fue escrito. Era solo un poema de amor, pero precisamente porque era solo eso; un poema de amor en medio del infierno, constituye la denuncia más feroz que alguien haya hecho del horror del genocidio. El poema se llama “A la misteriosa”, y pone frente a la monstruosidad de Treblinka la imagen de un sueño. Lo leo:

“Tanto soñé contigo que pierdes tu realidad. ¿Habrá tiempo para alcanzar ese cuerpo vivo y besar sobre esa boca el nacimiento de la voz que quiero? Tanto soñé contigo que mis brazos habituados a cruzarse sobre mi pecho abrazan tu sombra, quizá ya no podrían adaptarse al contorno de tu cuerpo. Y frente a la existencia real de aquello que me obsesiona y me gobierna desde hace días y años seguramente me transformaré en sombra. Oh balances sentimentales. Tanto soñé contigo que seguramente ya no podré despertar. Duermo de pie, con mi cuerpo que se ofrece a todas las apariencias de la vida y del amor y tú, la única que cuenta ahora para mí, más difícil me resultará tocar tu frente y tus labios que los primeros labios y la primera frente que encuentre. Tanto soñé contigo, tanto caminé, hablé, me tendí al lado de tu sombra y de tu fantasma que ya no me resta sino ser fantasma entre los fantasmas, y cien veces más sombra que la sombra que siempre pasea alegremente por el cuadrante solar de tu vida.”

Opongo entonces la infinita devoción de ese poema, su insobornable pureza, a todas las crueldades de la historia, porque si la poesía de Robert Desnos no existiera, si el arte no existiera, probablemente la violencia sería la norma. Pero existe, y el solo hecho de que alguien en medio del holocausto, pudo escribir algo tan increíblemente bello como “Tanto soñe contigo que pierdes tu realidad”, hace que el crimen sea infinitamente más crimen y el asesino infinitamente más asesino.

Es lo que he tratado de mostrar en lo que he escrito. He imaginado en medio del terror de la dictadura sagas inacabables que se me borraban al amanecer, poemas alucinados donde el Pacífico flota suspendido sobre las cumbres de los Andes y donde el desierto de Atacama se eleva como un pájaro sobre el horizonte. Imaginar esos poemas fue mi forma de resistir, de no enloquecer, de no resignarme. Sentí que frente al dolor y al daño había que responder con un arte y una poesía que fuese más fuerte que el dolor y el daño que se nos estaba causando. No se trataba de lanzar andanadas de pequeños poemas de combate, sino de algo mucho más arrasado, más luminoso, más sordo y violento. Había que hablar de amor, pero para hablar de amor había que aprender a hablar de nuevo, comenzar desde cada letra, porque ninguno de los lenguajes que existían antes bastaban para dar cuenta de lo que había sucedido. Siento que los escombros de esos años están allí, en esos intentos, y que dictados por un deseo que nos sobrepasa, los poemas no son sino los sueños que sueña la tierra, los sueños con los que intenta lavarse del sufrimiento humano, y que uno no puede nada frente a eso sino apenas grabar unas pequeñas marcas, unos mínimos retazos que quizás sobrevivan al despertar.

Yo viví en Chile en los años de la dictadura y sobreviví a ella y a mi propia autodestrucción. El año 1975 después de un episodio humillante con unos soldados me acordé de la frase del evangelio de poner la otra mejilla y entonces fui y quemé la mía. No supe bien por qué lo hacía, pero allí comenzó algo. Recordé que de niño había visto un avión que volaba en círculos trazando con humo blanco el nombre de un jabón para lavar ropa e imaginé de golpe un poema escribiéndose en el cielo. Entendí entonces que aquello que se había iniciado en la máxima soledad y desesperación de un hombre que se quema la cara encerrado en un baño, debía concluir algún día con el vislumbre de la felicidad. Dos años más tarde pensé en una escritura sobre el desierto que solo pudiese ser vista desde lo alto. Solo diría “ni pena ni miedo”, y estaría surcando un país donde casi lo único que había era pena y miedo. Años más tarde vi la frase recortada sobre el desierto y, efectivamente, por su extensión solo se podía leer completa desde el cielo. Alguien reparó que el surco de las letras en la tierra se parecía al surco de la cicatriz en mi cara. Habían pasado dieciocho años y me sorprendió haber sobrevivido. Recibo esta distinción en nombre de nuestros ausentes.

Yo trabajo con mi vida y trato de que eso no sea una consigna. No porque mi vida tenga algo ejemplar, el diablo me libre de ser ejemplo de nada, sino porque creo que si podemos llegar al fondo de nosotros mismos, sin autocompasión ni falsa solidaridad, mirando nuestra zona de luz, nuestra sed de amor, pero también toda nuestra reserva de odio, violencia y de crimen, es posible que lleguemos al fondo de la humanidad entera. Creo que todo lo que puedo haber hecho está allí. He escrito desde un cuerpo que se dobla bajo los efectos del Parkinson, que se rigidiza, que tiembla, que se va para adelante y que cae y he encontrado hermosa mi enfermedad, he sentido que mis temblores son bellos, que mi dificultad para sostener estas hojas que ahora leo es bella. He escrito sobre ese cuerpo, sobre los dolores que les he causado a otros y los que yo mismo me he infligido, he grabado con fuego mis poemas sobre mi piel. Solo los enfermos, los débiles, los heridos, son capaces de crear obras maestras. Siento que he escrito desde una cierta irreparable desesperación y, a la vez, desde una incontenible alegría. Una alegría extraña porque es como si naciera de la dificultad de ser felices. Del encuentro de esos fantasmas nace mi escritura. La escritura es como las cenizas que quedan de un cuerpo quemado. Para escribir es preciso quemarse entero, consumirse hasta que no quede una brizna de músculo ni de huesos ni de carne. Es un sacrificio absoluto y al mismo tiempo es la suspensión de la muerte. Es algo concreto, cuando se escribe se suspende la vida y por ende se suspende también la muerte. Escribo porque es mi ejercicio privado de resurrección.

Decía al comienzo que esta tierra aún nos ama, todavía quiere verse en nosotros, todavía el mar, el desierto, las montañas, quieren mirarse en nuestras miradas, todavía el sonido de las rompientes y del viento quiere reconocerse en nuestros oídos, todavía sus estrellas quieren reflejarse en nuestros ojos. En sus momentos más felices mi poesía ha tratado de expresar ese amor de la tierra, no siempre ha sido así. He escrito desde la herida y del daño en un mundo herido, enfermo, sin compasión. He escrito desde el dolor, pero nuestro deber es la felicidad. He escrito desde el odio, pero nuestro deber es el amor.

Termino con el poema con que quisiera cerrar mi vida:

Entonces, aplastando la mejilla quemada / contra los ásperos granos de este suelo pedregoso -como un buen sudamericano- alzaré por un minuto más mi cara hacia el cielo / llorando / porque yo que creí en la felicidad / habré vuelto a ver de nuevo las irrefutables estrellas

Te amo Paulina, tú eres las estrellas irrefutables de mi noche.

Raúl Zurita (texto em espanhol extraído do site www.elclarin.cl )

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2 comentários sobre “Discurso de Raúl Zurita ao receber o Prêmio Pablo Neruda 2016, por Enrique Carretero

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