poesia, tradução

Derek Walcott, por Alberto Pucheu

derek-walcott

            Era 1990. Em um dos dias de tal ano, eu havia comprado a Norton Anthology of Modern Poetry, com suas quase 2.000 páginas de poesia de língua inglesa, e deixado-a em cima do colchão, que ficava direto por sobre os tacos de madeira.

            Enquanto eu fazia algo na sala, minha mulher de então me chamava do quarto, dizendo-me que tinha aberto a antologia ao acaso e lido um poema que eu iria adorar. Foi assim, com o poema entregue para mim pela sorte e pelo amor, que li pela primeira vez Derek Walcott. “Winding up” me tocou intimamente como poucos outros, retornando em diversos momentos de minha vida como um horizonte, como um desses poemas que a cada vez e sempre me concernem com muita força, como se nele houvesse um modo de maturidade que me lança em direção a ele, uma vida de fato dita em poema (como não poderia se dar em nenhuma outra instância) em um grau muito extremo.

            Nunca me senti confortável em nenhuma língua para ser de fato tradutor, nunca tive o desejo de ser tradutor, mas, talvez exatamente por isso, aquele poema, que amei imediatamente, me trouxe a necessidade de, no mesmo momento em que o li pela primeira vez, ouvi-lo em português, de refazê-lo para que ele soasse em minha língua, de modo ainda mais íntimo de mim. Nos 24 anos que então tinha, traduzi-lo era como poder, de alguma maneira, ter a sensação de ter escrito o poema que tinha amado.

            Traduzi alguns outros de seus poemas da antologia, como, para dar apenas um exemplo, “Codicil”, que eu também achara maravilhoso. Nos dias seguintes, encomendei o Collected poems e, depois, Omeros. Quando o primeiro chegou, traduzi mais alguns poemas. Foi a única vez na vida em que traduzi poemas voluntariamente, todos eles escolhidos por amor, sendo escolhido pelo amor daqueles poemas.

            Dois anos depois, em 1992, Derek Walcott ganhou o Prêmio Nobel. Quase ninguém o conhecia por aqui. Silviano Santiago, que sabia que eu havia traduzido alguns poemas do caribenho, generosamente me indicou para fazer um texto com uma tradução ou outra para a revista Ciência Hoje, que lhe havia pedido um pequeno ensaio sobre o ganhador do respectivo prêmio. Um dos poemas que traduzi foi publicado no Caderno Ideias do Jornal do Brasil. Eu enviara acho que três poemas, entre os que eu escolhera simplesmente por amor a eles, tanto em inglês quanto as traduções, para a Folha de São Paulo, mas nesse jornal tive menos sorte: um de seus editores culturais, que era poeta, recebendo os originais por mim enviados junto com minhas traduções, realizou, ele mesmo, traduções dos poemas que eu mandara e as publicou imediatamente no jornal (e em sequência em livro), sem qualquer menção a mim.

            Hoje, duas décadas e meia depois desses acontecimentos, a poeta, tradutora e amiga Nina Rizzi me convida para publicar algumas dessas traduções na escamandro. Envio o arquivo para ela, de modo que ela escolha o que quer publicar, dizendo-lhe que não vou nem posso retornar às traduções, que não quero nem relê-las com o compromisso de ver a pertinência delas; peço igualmente a Nina para só publicar se ela achar que as traduções são minimamente aprováveis, pedindo-lhe apenas para não me deixar passar vergonha. Como disse repetidamente, elas foram feitas simplesmente por amor, pelo desejo de aprender com aqueles poemas, pelo desejo de lê-los em minha língua – talvez, lidas dessa maneira, elas possam tocar algumas outras pessoas que não conhecem Derek Walcott e que não podem ler em inglês.

             Derek Walcott, poeta, dramaturgo e ensaísta, nasceu em 1930, em Castries, na ilha de Santa Lucia. Formou-se na Universidade das Índias Ocidentais, na Jamaica, e em 1957 obteve uma bolsa para estudar teatro nos Estados Unidos. Em 1992, tornou-se o primeiro escritor caribenho a receber o prêmio Nobel de literatura. Viveu em Londres e em Trinidad, e durante muitos anos dividiu seu tempo entre a ilha de Santa Lucia e os Estados Unidos, onde lecionou na Universidade de Boston até se aposentar, em 2007.

            Alberto Pucheu (Rio de Janeiro, 25 de fevereiro de 1966) é poeta e ensaísta brasileiro, Professor de Teoria Literária do Departamento e do Programa de Pós-Graduação de Ciência da Literatura da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Seu livro de poemas A fronteira desguarnecida foi vencedor do Programa de Bolsas para Escritores Brasileiros, da Fundação Biblioteca Nacional, e o de ensaios Pelo colorido, para além do cinzento; a literatura e seus entornos interventivos recebeu o Prêmio Mário de Andrade de Ensaio Literário, da Fundação Biblioteca Nacional. Tem publicado ensaios em diversos livros, nos principais periódicos acadêmicos brasileiros e em portais nacionais e internacionais de literatura, bem como resenhas e poemas. Em 2011, teve 20 das fotografias que vem tirando de frases grafitadas em ruas de diferentes cidades do mundo expostas, sob o título de Paisagens urbanas quase sem paisagens, no evento internacional ArteFórum, sob a curadoria de Beatriz Rezende, e realizou, em julho de 2011, a instalação Palavras, na OI Futuro de Ipanema, no projeto Poesia Visual, sob a curadoria de Alberto Saraiva (essa série de exposições e instalações contou também com mostras de Ferreira Gullar, Antonio Cicero, Wladimir Dias Pino, Tadeu Jungle, Helena Trindade, Roberto Corrêa dos Santos e Lúcio Agra). Página pessoal: http://www.albertopucheu.com.br/

***

Winding Up

 I live on the water,
alone. Without wife and children,
I have circled every possibility
to come to this:

a low house by grey water,
with windows always open
to the stale sea. We do not choose such things,

but we are what we have made.
We suffer, the years pass,
we shed freight but not our need

 for encumbrances. Love is a stone
that settled on the sea-bed
under grey water.  Now, I require nothing

 from poetry but true feeling,
no pity, no fame, no healing. Silent wife,
we can sit watching grey water,

 and in a life awash
with mediocrity and trash
live rock-like.

I shall unlearn feeling,
unlearn my gift.  That is greater
and harder than what passes there for life.

 

Desfecho

Vivo nas águas,
solitário. Sem mulher nem filhos.
Atravessei todas as possibilidades
para chegar até aqui:

pequena casa em água cinza,
janelas sempre abertas
para o velho mar.  Não escolhemos o destino,

mas somos o que fizemos.
Sofremos, os anos passam,
lançamos a carga fora, mas não a necessidade

de obstáculos. O amor é uma pedra
no leito do mar
debaixo da água cinza.  Agora, nada mais quero

da poesia senão o coração.
Não quero a piedade nem a fama nem a cura.  Silenciosa
esposa, contemplamos a água cinza,

e numa vida repleta
de mediocridade e lixo
vivemos como rocha.

Devo desaprender sentimentos,
esquecer meu dote.  Isto é maior
e mais difícil do que o que se entende por vida.

§

 

MAP OF THE NEW WORLD

I Archipelagos

At the end of this sentence, rain will begin.
At the rain’s edge, a sail.

Slowly the sail will lose sight of islands;
into a mist will go the belief in harbours
of an entire race.

The ten-years war is finished.
Helen’s hair, a grey cloud.
Troy, a white ashpit
by the drizzling sea.

The drizzle tightens like the strings of a harp.
A man with clouded eyes picks up the rain
and plucks the first line of the Odyssey.


MAPA DO NOVO MUNDO

Arquipélagos, I

Ao fim desta frase, começará a chover.
Pela margem da chuva, um barco.

Veleiro longeando a visão das ilhas;
a crença nos portos de toda uma raça
adentra a neblina.

A guerra de dez anos finda.
O cabelo de Helena, uma nuvem cinza.
Tróia, fosso branco
no mar garoante.

Os pingos se esticam como cordas de harpa.
Um homem de olhos brumosos colhe a chuva
e brota a primeira linha da Odisséia.

§

 

Midsummer, Tobago

 Broad sun-stoned beaches.

White heat.
A green river.

A bridge,
scorched yellow palms

from the summer-sleeping house
drowsing through August.

Days I have held,
days I have lost,

days that outgrow, like daughters,
my harbouring arms.


Verão, Tobago

Praias de claro sol mineral.

Calor branco.
Um rio verde.

Uma ponte,
palmeiras amarelas ressecadas

da casa-de-verão
dormindo através de Agosto.

Dias que guardei,
dias que perdi,

dias que cresceram, como filhas,
para além do abrigo de meus braços.

 §

 

Names

(for Edward Brathwait)

              I

My race began as the sea began,
with no nouns, and with no horizon,
with pebbles under my tongue,
with a different fix on the stars.

But now my race is here,
in the sad oil of Levantine eyes,
in the flags of the Indian fields.

I began with no memory,
I began with no future,
but I looked for that moment
when the mind was halved by a horizon.

I have never found that moment
when the mind was halved by a horizon –
for the goldsmith from Benares,
the stonecutter from Canton,
as a fishline sinks, the horizon
sinks in the memory.

Have we melted into a mirror,
leaving our souls behind?
The goldsmith from Benares,
the stonecutter from Canton,
the bronzesmith from Benin.

A sea-eagle screams from the rock,
and my race began like the osprey
with that cry,
that terrible vowel,
that I!

Behind us all the sky folded,
as history folds over a fishline,
and the foam foreclosed
with nothing in our hands

but this stick
to trace our names on the sand
which the sea erased again, to our indifference.

              II

And when they named these bays
bays,
was it nostalgia or irony?

In the uncombed forest,
in uncultivated grass
where was there elegance
except in their mockery?

Where were the courts of Castille?
Versailles’ colonnades
supplanted by cabbage palms
with Corinthian crests,
belittling diminutives,
then, little Versailles
meant plans for a pigstry,
names for the sour apples
and green grapes
of their exile.

Their memory turned acid
but the names held;
Valencia glows
with the lanterns of oranges,
Mayaro’s
charred candelabra of cocoa.
Being men, they could not live
except they first presumed
the right of every thing to be a noun.
The African acquiesced,
repeated, and changed them.

Listen, my children, say:
moubain: the hogplum,
cerise: the wild cherry,
baie-la: the bay,
with the fresh green voices
they were once themselves
in the way the wind bends
our natural inflections.

These palms are greater than Versailles,
for no man made them,
their fallen columns greater than Castille,
no man unmade them
except the worm, who has no helmet,
but was always the emperor,

and children, look at these stars
over Valencia’s forest!

Not Orion,
not Betelgeuse,
tell me, what do they look like?
Answer, you damned little Arabs!
Sir, fireflies caught in molasses.

 

NOMES

(para Edward Brathwait)

              I

Minha estirpe começou como o mar,
sem nomes, sem horizonte,
com seixos debaixo de minha língua
e uma outra leitura das estrelas.

Agora, eis minha estirpe
nos olhos tristes do Levantino,
nas bandeiras dos campos indianos.

Comecei sem memória,
comecei sem futuro,
procurei pelo momento
em que a mente se perdesse no horizonte.

Nunca encontrei o momento
em que a mente se perdesse no horizonte –
para o ourives de Benares,
para o lapidador de Cantão,
o horizonte mergulha, como linha
de pesca, na memória.

Teremos nos dissolvido num espelho
largando nossas almas para trás?
O ourives de Benares,
o lapidador de Cantão,
o ferreiro de Benin.

Uma águia-marinha grita da rocha,
minha estirpe começou como a águia
e seu grito,
as terríveis vogais
E – U!

O céu se dobrou atrás de nós
como a história se dobra sobre a linha de pesca,
e a espuma, dobrando-se, executou a penhora:
sem nada em nossas mãos

senão este graveto
a traçar nossos nomes na areia
que o mar torna a apagar, para nossa indiferença.

II

E quando nomearam estas baías
baías,
foi nostalgia ou ironia?

Na floresta despenteada,
na relva inculta,
onde haveria graça
senão no cômico?

Onde estariam as cortes de Castela?
As colunatas de Versalhes
trocadas por folhas de repolho
com elmos coríntios,
diminutivos degradados,
pequena Versalhes, então,
significava projetos para chiqueiros,
nomes para maçãs azedas
e uvas verdes
do exílio.

A memória fez-se ácido
mas os nomes ficaram;
Valência brilha
com lanternas de laranjas,
o candelabro de Mayaro
carbonizado de cacau.
Sendo homens, só poderiam viver
presumindo o direito
de todas as coisas terem nome.
Os Africanos os aceitaram,
os repetiram e os transformaram.

Escutem, crianças, digam:
moubain: o cajá,
cerise: a cereja silvestre,
baie-la: a baía;
um dia, com verdes vozes frescas,
foram eles mesmos –
como o vento que curva
nossos tons naturais.

Estas palmeiras são maiores que Versalhes,
nenhum homem as construiu,
suas colunas suspensas maiores que Castela,
nenhum homem as destruiu,
mas apenas o verme, que, sem capacete,
foi sempre o imperador.

Crianças, olhem as estrelas
sobre a floresta de Valência!

Não é Órion,
não é Betelgeuse,
digam-me, o que parecem?
Respondam, pequenos árabes malditos!
Senhor, vaga-lumes no melaço.

§

 

Endings

Things do not explode,
they fail, they fade,

as sunlight fades from the flesh,
as the foam drains quick in the sand,

even love’s lightning flash
has no thunderous end,

it dies with the sound
of flowers fading like the flesh

from sweating pumice stone,
everything shapes this

till we are left
with the silence that surrounds Beethoven’s head.


Fins

Coisas não explodem,
definham, fenecem,

como a luz do sol some da carne,
como a espuma seca na areia,

mesmo o relâmpago do amor
não finda em trovões,

morre com o som
das flores fenecendo como a carne

da sudorífera pedra-pomes,
é esta a forma de tudo

até que nos sobra apenas
o silêncio que transborda da cabeça de Beethoven.

§

 

Preparing for Exile

Why do I imagine the death of Mandelstam
among the yellowing coconuts,
why does my gift already look over its shoulder
for a shadow to fill the door
and pass this very page into eclipse?
Why does the moon increase into an arc-lamp
and the inkstain on my hand prepare to press thumb-downward
before a shrugging sergeant?
What is this new odour in the air
that was once salt, that smelt like lime at daybreak,
and my cat, I know I imagine it, leap from my path,
and my children’s eyes already seem like horizons,
and all my poems, even this one, wish to hide?


Preparando para o Exílio

Por que invento a morte de Mandelstam
entre coqueiros amarelos,
por que meu dom procura sobre os ombros
uma sombra que ocupe a porta
e faça na página eclipse?
Por que a lua cresce no arco da lâmpada
e o borrão no meu dedo grava a digital
diante de um sargento indiferente?
Que novo odor no ar é este
que já foi sal, que cheirou a lima na aurora,
e meu gato, sei que invento, pula do meu caminho,
e os olhos de meus filhos parecem horizontes,
e o que querem meus poemas, mesmo este, esconder?

§

 

Iona: Valle Mabouya

 IV

[for Eric Brandford]

Ma Kilman, God will punish you,
for the reason that you’ve got too much religion.
On the other hand, God will bless you,
God will bless you because of your charity.

Corbeau went to Curaçao,
he sent you money back,
you took the same money
and put it in a rumshop.
You can’t read, you can’t write, you can’t speak English,
you should know that rumshops make no profit.
When Corbeau came back,
he had, yes he had money,
when he arrived back here.
Yes, Mama, Corbeau’ll go crazy!

Iona told Corbeau, while you were in Curaçao,
I made two little children, come and see if they’re yours.
Corbeau cried out, “Mama! Good night, ladies and gentlemen,
light the lamp there for me,
for me to look at these kids!”
Corbeau came back and said, “I know niggers resemble,
they may or may not be mine,
I’ll mind them all the same!”

Ah yes, Corbeau then left, he went down to Roseau,
he went to look fo work, to mind the two litte ones.
Iona told Corbeau, don’t go down to roseau.

But he went to Roseau, and Roseau’s whores fell on him.
Philippe Mago brought Corbeau a saxophone,
he had no time to play the sax,
a saxman just like him took away his living.

Saturday morning early, Corbeau goes into town.
Saturday afternoon we hear Corbeau is dead.
That really made me sad, that really burnt my heart;
that really went through me when I heard Corbeau was dead.

Iona said like this: it made her sorry too,
it really burnt her heart, that the saxophone will never play.

I heard a horn blowing
by the river reeds down there.
“Sweetheart”, I said, “I’ll go looking
for flying fish for you.”
When I got there, I came across Corbeau.
He said: “That horn you heard
was Iona horning me.”

The guitar man’s saying:
“We both are guitar men,
don’t take it for anything,
we both holding the same beat.”

Iona got married, Sunday at four o’clock.
Tuesday, by eight o’clock, she’s in the hospital.
She made a fare, her husband broke her arm.
When I meet your mother,
I’ll tell what you did me.
Iona!
(I’ll tell your mama!)
Iona!
(You don’t listen to me!)

Thre days and three nights
Iona boiled, she’s still not cooked.
(I’ll tell her mother that).
They say Iona’s changed,
it isn’t changed Iona’s changed,
she’s wicked, wicked, that’s all,
Iona!

 

Iona: Vale Mabouya

 IV

 [para Eric Brandford]

Ma kilman, Bom Deus a punirá
por você ser tão religiosa.
Mas também, Bom Deus a abençoará,
Bom Deus a abençoará por sua caridade.

Corbeau foi a Curaçao,
lhe mandou dinheiro,
você pegou o dinheiro
e abriu um cabaré.
Você não sabe ler nem escrever nem falar Inglês,
você devia de saber, cabaré não dá lucro.
Quando Corbeau voltou,
tinha muito, muito dinheiro,
quando voltou pra cá.
Minha Nossa! Corbeau vai pirar!

Quando você estava em Curaçao, Iona disse a Corbeau,
tive dois filhos, venha ver se são seus.
Courbeau gritou, “Boa noite, senhoras e senhores,
acendam a luz para mim,
para eu ver estas crianças!”
Corbeau virou-se e disse, “Crioulo é tudo igual,
não sei se são meus,
mesmo assim, vou cuidar deles!”

Corbeau saiu, desceu para o Roseau,
foi procurar trabalho, para cuidar dos pequeninos.
Não vai para o Roseau, Iona disse a Corbeau.

Mas ele foi para o Roseau, as putas gostaram.
Philippe Mago lhe trouxe um saxofone,
Corbeau não teve tempo para tocá-lo,
outro saxofonista tirou-lhe a vida.

Manhã de sábado, Corbeau desce para a cidade.
Tarde de sábado, Corbeau está morto.
Fiquei triste, com o coração apertado;
Foi dentro do estômago que senti a morte de Corbeau.

Iona disse que também ficou triste,
seu coração apertou, o saxofone não tocará mais.

Escutei um sopro no som
vindo da tromba do rio.
“Querida”, eu disse, “Vou pegar
um peixe-voador para você”.
Quando cheguei lá, encontrei Corbeau.
Ele disse: “O sopro que você escutou
eram sussurros de Iona”.

O guitarrista dizia:
“Somos ambos da guitarra,
entenda,
tocamos o mesmo ritmo”.

Domingo às quatro, Iona se casou.
Terça, às oito, ela está no hospital.
Ela preparou a comida, seu marido lhe quebrou o braço.
Quando encontrar sua mãe,
direi o que você me fez.
Iona!
(Direi para sua mãe!)
Iona!
(Você não me escuta!)

Iona ferveu por três dias
e três noites, e ainda não está cozida.
(Contarei isto para sua mãe.)
Disseram que Iona mudou,
não é mudança a mudança de Iona,
ficou malvada, malvada, só isso,
Iona!

§

 

A Far Cry from Africa

A wind is ruffling the tawny pelt
Of Africa. Kikuyu, quick as flies,
Batten upon the bloodstreams of the veldt.
Corpses are scattered through a paradise.
Only the worm, colonel of carrion, cries:
“Waste no compassion on these separate dead!”
Statistics justify and scholars seize
The salients of colonial policy.
What is that to the white child hacked in bed?
To savages, expendable as Jews?

Threshed out by beaters, the long rushes break
In a white dust of ibises whose cries
Have wheeled since civilization’s dawn
From the parched river or beast-teeming plain.
The violence of beast on beast is read
As natural law, but upright man
Seeks his divinity by inflicting pain.
Delirious as these worried beasts, his wars
Dance to the tightened carcass of a drum,
While he calls courage still that native dread
Of the white peace contracted by the dead.

Again brutish necessity wipes its hands
Upon the napkin of a dirty cause, again
A waste of our compassion, as with Spain,
The gorilla wrestles with the superman.
I who am poisoned with the blood of both,
Where shal I turn, divided to the vein?
I who have cursed
The drunken officer of British rule, how choose
Beteween this Africa and the English tongue I love?
Betray them both, or give back what thy give?
How can I face such slaughter and be cool?
How can I turn from Africa and live?


Um Grito Distante da África

O vento rufa o couro curtido
Da África. Kikuyu, tal mosca célere,
Devora o fluxo sanguíneo da estepe.
Defuntos se espalham num paraíso.
Senhor da carniça, só o verme grita:
“Não tenham compaixão por estes mortos!”
Técnicos e acadêmicos comprovam
As marcas da política colonial.
O que pensam, com medo, as crianças brancas?
E os selvagens, fartos como os judeus?

Batidos no pilão, os longos juncos
Mostram um pó branco de íbis que grasnam,
Desde a aurora da civilização,
No rio seco ou na planície fértil
De bestas. A violência da besta
Sobre a besta é a lei natural, mas,
em pé, o homem procura a divindade
pela dor. Delirantes como as bestas,
suas guerras dançam para o tambor,
E para ele é força o medo nativo
da paz branca às custas dos próprios vivos.

Outra vez, a necessidade bruta
Passa as mãos no lenço da causa suja,
Outra vez, nossa compaixão desgasta-se,
Como com a Espanha, o gorila contra o super-homem.
Eu, envenenado com sangue de ambas,
Dividido até as veias, pra onde vou?
Eu que xinguei
O bêbado oficial inglês, como escolher
Entre esta África e a língua inglesa que amo?
Traí-las, ou devolver o que dão?
Como encarar tal chacina e sorrir?
Como dar as costas a África e viver?

§§§

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4 comentários sobre “Derek Walcott, por Alberto Pucheu

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