poesia

Mirian Paglia Costa (1947-)

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mirian paglia costa (londrina, 1947) é poeta, jornalista e editora da revista defesa latina. trabalhou em revistas como visão e veja. em 1969, venceu o prêmio de poesia festival universitário de londrina. de sua obra, pode-se destacar a plaquete sete eus, lançada em 1981, mesmo ano de colar de maravilhas, publicado por massao ohno, com ilustrações de darcy penteado, além do livro de poemas notícias do lugar comum, de 1997, publicado pela editora 34 e de participações em antologias como carne viva (1984) e antologia da nova poesia brasileira (1992), ambas organizadas por olga savary, e 101 poetas paranaenses v.1 (1844-1959) – antologia de escritas poéticas do século XIX ao XXI, organizada por ademir demarchi. todos os poemas deste post foram retirados desta última antologia.

sergio maciel

* * *

DE COLAR DE MARAVILHAS

| VI |

a procissão caminha
passos, meninas do colégio
à frente, minha prima
bela e lampeira
em sua caixa de boneca
já não chora, já não diz — “Mamãe”
muda
desfila o dia de gala
seu medo passou completamente

vão todos sombrios
em uniforme de luto
só ela está de cor-de-rosa
fantasiada
anjo até os pés

minha prima vai à tumba
ela que não entrava em canto escuro
nós a seguimos entre flor e choro
porque dói
o pé no sapato de verniz
a festa interminável

é grande o cemitério nos confins
tristes seus pássaros de bronze
empoleirados sobre túmulos
há retratos, letras, saudades
mas a procissão avança
rápida para olhos que soletram

a freira manda cantar
sai trôpego o hino
tudo é lento, engasga
ninguém quer enterrar a caixa
fechada com boneca

pela primeira vez tocamos terra
com mãozinhas enluvadas
lançando punhados no buraco
é roxo o pó que cai
empedra o som, batendo na madeira

sujo inteiramente
como as luvas
um homem feio vem
chapéu de feltro velho, abas ensebadas
e com pá completa seu serviço

a procissão desaba nas aleias

dia seguinte
embaixo da limeira
uma voz de prima não brinca de carniça
não canta introito de pega-pega
— balança caixão
—balança você
— dá um tapinha na bunda e vai esconder

§

|XI|

ô meu deus, quero de volta
minhas colegas de escola
blusa engomada picando nó sovaco
o castigo de gala
freiras chatas, revistando tudo
e reza antes da aula
dia de ser anjo prolongado

ô meu deus, quero de volta
O fogo daquele inferno
com diabo de tridente
e vermelho

§

| XX |

a noite é quente e ruinosa
onde plantou meu avô sua barba
e sua honra
das paredes da casa
restam madeiras
eretas e modificadas
dos filhos espalham-se os destinos

a vizinhança já foi chácara
campo de pelada e batalhas
zona do meretrício
caminho de tropa e lama
rua asfaltada e buracos

já houve horta, bichos esquisitos
mortes, desespero e festas no local
não há mais espírito pioneiro
tudo se disciplina e urbaniza

hoje meu avô está plantado
no chão que ele desbravou
e sua semente de pobre
macaroni e aventureiro
vingou nessa terra roxa
lado de cá do Tibagi
onde continuará havendo
trabalho, desespero e festa

§

BAR SELETO

vagas mensalistas aqui estacionam
pernas rodadas, caras batidas
buscam, quem sabe?
a vitamina que devolve a juventude

do vento do pastel aspiram sonhos?

sentam moles bundas nos banquinhos
olhos soltos sobre incertos objetos
e bebem
engolem o suco de tantas frutas
como se fosse lava
engolem tudo

diz-que vagabundas nunca morrem
pelo menos, só vivas aparecem no jornal
diz-que também não fazem falta
trocam de peruca
engordam, emagrecem
estão sempre no lugar sabido

mas
na hora vaga que precede o dia
bebem vitamina e comem
como crianças
o pastel que despenca seu recheio

— pendura a conta, ainda gritam
os saltos gastos já batendo na calçada
baiana, luzia, inalda, roseni, palmira
elas têm pressa

quando amanhece
todas as putas viram fadas

§

AD PERPETUAM REI MEMORIAM

maus
versos e bons planos
faço isso há anos
é chumbo o alfabeto que aprendi
escrevo

tenho todos os dentes
peso até excessivo
adoeço raramente
nasci no brasil
logo, não existo

cólicas líricas seguidas de vómito
meu diagnóstico

proletária do espírito
salário não paga minha fome

pedem pão, dou verbo
vergonha não rima nem resolve

às vezes desejo o terror
ilusão do justo restaurado
mas quem garante?

se o tapa é a lei da mão
instaura a selva

eu queria ser inocente

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3 comentários sobre “Mirian Paglia Costa (1947-)

  1. Anesio disse:

    Parabéns, Mirian, poesia de forte emoção em ritmo de profunda comoção! Imagens da infância em parcelas de tristezas e lembranças coladas à inquietude de uma alma em criação magistral. A poesia em é um segredo que não pode ser revelado, pois sua essência é o mistério de parecer sempre ser inacabada. Poesia não tem início nem fim. É o acaso e o ocaso na impossível harmonia que somente as palavras podem traduzir, mas nunca esclarecer.

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