poesia

João Gabriel Madeira Pontes (1992-)

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João Gabriel Madeira Pontes nasceu no Rio de Janeiro, em 1992. É formado em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Seu livro de estreia, Indiscrição, será publicado em breve pela Editora Kazuá.

* * *

entre certos instantes de brahms e uma cloaca, V

– (…) Hath she any discoverable principle of being?
– None, save the freedom of a broken law (…).

Nathaniel Hawthorne, The Scarlet Letter

Tua sombra transborda das paredes rasgadas
E do chão raso de pedras portuguesas para
Salvar minha juventude do cansaço

Dos velhos amores. Foi estranho conhecer-te,
Naquele botequim, teu batom a macular
O copo americano, tua boca a clamar

Por mais cerveja barata. Nem sequer me disseste
Teu nome. Em vez disso, perguntaste se eu
Já havia chorado a morte de alguém.

E eu disse: de meu pai; e tu te riste inteira.

Quebraste o violão do rapaz tristonho que
Tocava boleros vis e, sem antes prestar
Reverência ao público, cantaste três

Músicas da Cesária Évora em sequência. Não
Pude deixar de reparar: pediste um lenço
Para secar o suor agridoce que escorria

De tua testa. Entoavas a morna com o mesmo
Entusiasmo dos apóstolos em Pentecostes,
Com o mesmo cuidado de quem retira

Um cisco preso no canto do olho da criança,

Da criança que agora floresce em tua barriga e
Que eu já cismo em chamar de minha, sim,
De minha. Passei os últimos três dias

Catando gafanhotos nos quintais baldios das casas
Contíguas à nossa e pensando nos discursos
Que proferirá a garganta delgada

Do bendito fruto de teu ventre. Quando eu vivia
Sob o teto de minha mãe, falava do mundo
E do ser político. Hoje, leio obituários.

Mais tarde, quero te ouvir cantando outra vez.

§

Livre interpretação de uma gravura de Hans Staden

Vejo a carcaça de um fauno

no regaço agreste.

Ao saírem,
calados,
em fila indiana,
os investidores arrastam

as canetas, as pastas de couro,
os parafusos das cadeiras,
a lista de ramais.

Espero até ficar sozinho
e cravo meus dentes na saborosa
ata da reunião.

Mastigo planilhas
com voracidade,
………………..penso
na recepcionista do prédio.

Será que ela tem
……..mau hálito?
Será que ela tem
……..gengivas bonitas?
Será que ela tem
……..amígdalas bonitas?

Deixo a sala.
Engulo os metros
de carpete do corredor
& a simpática
funcionária da limpeza,
que manejava um delicioso
aspirador de pó.

Já no térreo,
à falta da recepcionista,
provo um pouco
do segurança de plantão.

Os caninos de Lévi-Strauss
fascinam os tupinambás e
brotam, como navalhas,
na ladeira da Sacopã,
uma fímbria de sangue,
tijuco da evangelização.

Consulto minha agenda
para saber o endereço
de cada um dos executivos
com quem tratei mais cedo,
na rápida conferência
que me abriu
………….o apetite.

Faço todos de petisco;
………………suas famílias também.

Volto à rua, disparo.

Boto para dentro

os semáforos,
as tampas dos bueiros,
os postes de iluminação,
os bancos da Praça Floriano.

Fito o asfalto faminto.
Fito o asfalto, faminto.

Os recifes rubros e ruidosos
contra o piche
são sirenes.
Consigo reconhecê-las
a quilômetros de distância.

Quando eu era pequeno,
canelas à mostra,
costumava correr
atrás de ambulâncias,
a viração do óleo queimado
atiçando a tarde.

Paro em um bar e assisto
ao telejornal em closed caption.
Enquanto aguardo a digestão,
gargalho da estupidez
do comentarista político.

E pondero: antes da conta,
uma xícara de café
sempre cai bem.

O deserto de Gobi
cabe em uma ampulheta,

mas eu, arrependido
como um vampiro cristão,
tonto de remorso,

resolvo embarcar em um trem coxo
da Central do Brasil em direção
……………………..a Saracuruna.

Ladeio recôncavos & borracharias,
espicho o estômago assombrado
para me intrometer em conversas
que não me dizem respeito.

A fogueira na multidão triunfa
………….sobre os plutocratas.

Rangem as mandíbulas de nanquim.

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