poesia

Fernanda Pacheco (1993-)

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Fernanda Pacheco (1993) é de Osasco – SP, mãe do Vicente, formada em História e trabalha como professora da rede pública do estado. É autora dos livros A Culpa é do Chet Baker (editora Patuá) e Ciranda lado b. Tem poemas publicados nas revistas Mallarmargens e Diversos Afins.

sergio maciel

* * *

ABISMO

no quintal dos meus sonhos
acaricio aquela cruz fincada em mim,
nela se pendura a musa puta
que te faz rasgar a crosta da pele absurda.

demente por princípio
delirante por base

é o amor líquido que escorre até o fundo:
sou teu           poço,
fosso,
poro solitário do corpo.

contorno da escuridão no meio da rua
onde me apago
me apego                            me afasto.

sou sua curva em rotação rítmica
me ajoelho no calvário pra te provocar ira,

desabo

depois do rasgo dos cortes graves
bem no centro do seu colo ACELERADO
habitat natural do tempo abstraído
versículo & textículo
do meu eu
convertido.

§

03:51

minha tela é o escuro dos olhos fechados
à beira do estige miles davis sopra bitches brew
danço a euforia remediada
o tormento mastiga cada canto dos meus dedos
as arestas deste espaço se curvam
tenho espasmos pela pressão do silêncio:

– morte do horizonte declarada!

a dor é elevada
sólida          dura           firme
como é quente a sombra onde derreto
o que você está dizendo?
tenho a boca na palma da mão.

musa antiga sem um olho
acaricia fatias finas do meu esqueleto.
o medo está vazando,
logo acaba o trilho.
é vazio aqui e muito bagunçado,
um escândalo!
o som alterna com o susto.
te incomoda?

meus olhos ceiam teu corpo subvertido.

§

VINHO

minhas mãos na maçaneta
denunciam meu cuidado
com o silêncio.
tenho monumentos tortos
transparentes, cheios de pó,
[firmes
que de tanto vazio
se ergueram
nas esquinas deste apartamento.

meus pés neste chão fosco
atestam meu cuidado
com o silêncio.
tento enxergar reflexos
só a distorção do estranho me vem.
é assim que me vejo?

às vezes não me reconheço
e espero mais um sol partir
enquanto os vermelhos todos
me alimentam.
todos esses nadas
parados
me submetem
ao risco
de achar que sou algo
quando na verdade
vou além
voo além
das paisagens foscas
dos teus olhos
secos.

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