poesia

jussara salazar

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Jussara Salazar é escritora e artista plástica. Mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná, atualmente faz Doutorado em Comunicação na PUC/SP. Publicou os livros: Inscritos da casa de Alice (1999), Baobá – Poemas de Leticia Volpi, (2002), Natália (2004), Coraurissonoros (Buenos Aires, 2008), Carpideiras (2011), ganhador da Bolsa Funarte de Criação Literária em 2009 (MINC-Funarte, 2009), e a plaquete O gato de porcelana, o peixe de cera e as coníferas (Arqueria, 2014).

Abaixo, um dos poemas presentes na segunda edição impressa do escamandro, publicada recentemente.

escamandro

 

a colheita de peixes

Não falarei da chuva que cai. Apagando a
fumaça das fogueiras. Encharcando as ruas
lotadas de turistas
zanzando subindo e descendo
naquele navio desproporcional que se aproxima
ou se afasta devolvendo a geometria e a exatidão
das pedras sujas do cais. Monstro marítimo
que arrasta o corpo pesado
esse navio simula uma falsa solidão. Imagino seu convés
abarrotado de turistas mexicanos que no breakfast
pela manhã desdobram
entre risadas
seus mapas de papel fino. Fazem planos
para uma próxima invasão à tarde. Uma visita ao planetário?
Não falarei do cheiro das algas marinhas
ou de como o contorno de banhistas
perdidos com suas silhuetas anônimas
vão desaparecendo feito formigas na areia. Entre as manobras do prático
as redes vão capturar sua colheita magra de peixes
Não falarei. Direi ao mar:
os teus peixes morrem
mas o mar não escuta
move
as negras ondas
as negras mãos líquidas
que não gesticulam mas gritam
palavras desconhecidas
em línguas estranhas
Não falarei enquanto falo ao mar. E ouço nomes
que se assemelham ao teu nome. O querubim
de olhos engraçados e sem um braço
repete também o teu nome
um mantra
uma loa
um poema monótono
um poema bélico. Não falarei sobre a dúvida
ou as bifurcações impossíveis
das quadras em forma de triângulo nas ruas
de um bairro distante do cais. Nem das pequenas ondas
lentas e mornas
que se acinzentam com essa chuva monótona
e do barulho inaudível que escuto
Não falarei das ondas. Nunca
as ondas roçando o teu torso macio
anjo vagando sem rumo
mutilado
boiando
apodrecendo
nesse vaivém das águas

(Jussara Salazar)

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