poesia

Yasmin Nigri (1990-)

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Extinção tem sido a palavra de ordem nesses últimos tempos. E a violência, dessa vez, não vem do escuro. Tudo está às claras: um massacre que ainda cai sobre nós, hoje vira sombra. Não mais se esconde por trás da política a sombra da polícia: ela se mostra de frente, por trás, por todos os lados as duas em uma, por cima e por baixo somos violentamente penetrados por uma máquina de extermínio. Hoje, eu me pergunto se o mercúrio não tem estado sempre retrógrado. Não mais me pergunto onde a comunicação falha: ela não falha. Claramente, ela acerta o buraco no qual nos vemos lançados a cada dia. O mundo vai mal.

Ando pensando que o último asteroide – aquele supostamente responsável pela extinção dos dinossauros – caiu há aproximadamente 66 milhões de anos. Segundo fontes duvidáveis (como todas deveriam ser), a maior das extinções foi há 251 milhões de anos e acabou com cerca de 90 a 96% das espécies. A extinção seguinte a essa (e imediatamente anterior a dos dinossauros) foi num intervalo de aproximadamente 50 milhões de anos. Então, se a última foi há 66, já passamos desse intervalo. Tudo indica que estamos com tempo, não? A velocidade da rotação da terra anda ficando mais lenta também, cada dia mais. E isso não é bom. É uma espécie de extinção. Apesar de o processo ser lento e ainda termos algum tempo, é inevitável. Os dias são de guerra. Há urgência. Os poetas andam enxergando sombras brancas rasgando o breu. Em uma única visada: na sombra de um meteoro cruzando o espaço, a barbárie dos tempos. Atemporal, a colonização penetra, rasga, invade. A queda se anuncia nos olhos que fitam o escuro. Yasmin Nigri, acostumada com a escuridão da noite (“Sempre fui noturna”), nos mostra que fitar o escuro é enxergar rastros de extinção.

Poucas coisas apontam para uma sobrevida. Seremos lembrados após a morte? Um jornal online disse que a exploração está no nosso DNA. Precisamos de mais tempo? Não precisamos de mais tempo para saber que sobrevivemos, ainda, com a poesia: é nela que convivemos intimamente com corpos estranhos. Dar corda no relógio e acelerar o tempo não faz afastar da noite as sombras, os corpos estranhos, os intrusos que, resistentes, nos habitam. “Ando nua”, andamos nus, como a poeta, como os poetas, com os poetas. “Enquanto eles se vestem com elegância e aprumo/ Vou perdendo roupas abotoaduras sapatos”, como quem despe os trajes até expor a nudez, a nudez da escuridão do corpo: a poeta anda nua porque anda tão somente com corpos estranhos. Parir um poema é parir às custas de si. Não há mais o “em si mesmo”: o poema é o “assombro incurável” das noites que “chegam com o barco que de mim partiu/ – Ivelejado -”. Não, a exploração não está no nosso DNA. Se ser assombrado é uma sensação de morte, só o é porque é uma sensação de vida: o poema acontece no assombro porque é no assombro que nos vemos fora de nós mesmos, suspensos no tempo e no espaço, lançados numa aporia incurável, sem saída, em que não distinguimos mais “eles” de “nós”. Somos o engano, “sou um blefe”. Podemos morrer abraçados à lágrima de não existirmos mais (“Poderia morrer abraçada a essa lágrima”), mas, na mesma visada, as águas que escorrem trazem em si o naufrágio, o “Terror de naufragar”. Entre a possibilidade de morrer dobrado sobre a lágrima, abraçando-a, e a espera de a lágrima congelar para ser possível ir por cima dela, por sobre ela (“Poderia morrer abraçada a essa lágrima/ (Ou esperaria que congelasse para patinar sobre?)”); entre a possibilidade e a espera, o que há é, a um só tempo, o “Terror de naufragar”, ou seja, “Todas as horas da vida”. Em outras palavras, a decisão que se impõe em “Todas as horas da vida”.

“Para ser lembrada após a morte” não diz nada a respeito do que poderia se colocar nos termos ante e post mortem. Tampouco diz respeito a uma ontologia. Neste poema, que poderia, no máximo e devidamente, ser antológico, o ser que há, incuravelmente assombrado, sobrevive e, mais que isso, vive de braços dados com as sombras intrusas, com o impossível que cria, com o barco invelejável que parte de si. O “ser é” um blefe. O ser que existe aí, para ser lembrado após a morte, é um “ser com”. Porque ele, ou ela, ela que anda nua, decidiu gostar da possibilidade de se dedicar, todas as horas da vida, à poesia (“Todas as horas da vida/ Gostaria de poder dedicar-me/ À poesia”). E gostar dessa possibilidade é gostar de se dedicar tão somente ao outro. “Para ser lembrada após a morte” é um poema da dedicação ao outro. Na noite, enquanto todos querem dormir, ela desperta. E faz da noite um despertar.

Todos os dias meteoros caem. E todos os dias temos ainda algum tempo. A Yasmin tem um corpo que não cansa. E que não cabe no “espaço-tempo criado pelo homem”. Ela tem uma grande nave no útero, inalcançável, que não se assemelha em nada a um objeto não identificado. Aviso aos navegantes: este corpo bélico está aqui para explodir a vida útil dos objetos – explodir a visão que se tem do corpo como objeto, a vida objetificável, os territórios colonizados. Este corpo bélico se identifica com todos os úteros não identificáveis da história de todas as eras. Ela é uma antimusa. Uma antimusa nunca chega, nunca vai entrar pela sua narina, pela sua goela (ela não chega, mas ela pode, de repente, cair sobre você). A Yasmin tem no corpo, no corpus, no corpo, o materialismo de uma foice que avança sobre as mãos de todos os homens que se empenham em destruir, em possuir, em governar. Hoje, nesses últimos tempos, como amar diante do terror do naufrágio? O que seria gostar? Caberia o amor no instante imediato do terror dos tempos? Arrisco: a poeta indica que gostar é se dedicar ao que não queremos presos nas mãos: “Gosto de você como gosto das coisas que o homem ainda não alcançou.”

O coração, um “objeto ínfimo”, “Vermelho-júbilo”: eis o terror: quando amor e terror se entrelaçam. “Não sinto medo quando meus olhos estão por trás de uma lente”. Não, afinal, o medo é enxergar a vida em sua nudez, sem filtro. Estamos falando do que há de mais frágil e vulnerável e precário. Sabemos que ir ao amor – como ir aos escombros do terror – é ir sabendo da queda irreparável, muitas vezes incurável, em um terreno esburacado. Como quando fitamos a vida sem lente: em tudo há a possibilidade de ser um sítio de guerra. Nesses lugares onde se está de mãos dadas com o fracasso, não há ombro que salve (“não há ombro na medida do meu fracasso”): a linguagem falha (“Digo tudo num verbo convulso”) quando estamos lado a lado com a ruína. De “objeto ínfimo”, o peito assume a forma de toda a extensão de um “sítio frágil”. Quando amar é correr o risco de naufragar, o “Terror de te amar” encontra o “Terror de naufragar” na iminência da mesma queda: não há saída, tombamos inevitavelmente. Como quem cai apaixonado, tombar brusca ou brandamente é apenas uma questão de tempo para se ver caindo no real: o terror de amar é o medo de tombar.

Não há saída, não há salvação. Enquanto a Terra não para, enquanto o asteroide não cai, enquanto a extinção acontece em todas as horas da vida, alguém explode o tempo como um meio de vida e como um modo de amar. E isso, sim, é uma máquina de guerra. “Eros sobrepuja Tanatos”. Há vida.

 

danielle magalhães

 

Yasmin Nigri (1990) é carioca, poeta, artista visual e bacharel em filosofia pela UFF, onde atualmente cursa o mestrado na linha de estética e filosofia da arte. Trabalha com mediação educativa em exposições de arte, elabora e ministra oficinas de criação poética, é crítica de arte, integrante e co-fundadora do coletivo feminista Disk Musa, onde trabalha na produção de conteúdos áudio visuais e performance.

 

sergio maciel

* * *

METEOROS

Inspirado na obra ‘Meteorito’ de Letícia Ramos exposta no MAM

Encosto os olhos na luneta
Vejo uma escala cromática de brancos rasgar o breu
Seria a sombra furta-cor de um meteoro cruzando o espaço
Ou a Europa penetrando o continente africano?

sem-titulo

 

§

GOSTO DE VOCÊ

Gosto de você como gosto da teoria das cordas, dos buracos de minhoca e dos buracos brancos: que são o outro lado dos buracos negros e permitem que o universo permaneça em constante expansão. Na prática não existe nenhuma comprovação dos buracos brancos. Mas você sabia que um par de partículas subatômicas, como um elétron e um antielétron, agem como se estivessem entrelaçados telepaticamente e bastaria um computador maior que o universo e átomos do nosso corpo entrelaçados a átomos livres para que pudéssemos nos teletransportar para qualquer lugar do multiverso? Sonho. Essa é a única maneira. Gosto de você como gosto das coisas que não compreendo e que, no entanto, são exatamente aquilo que não nos conforma ao espaço-tempo criado pelo homem. Esse mesmo homem que desde antes deu nascer me conforma em contornos muito bem traçados e previstos. Sinto-me uma grande nave que os homens se empenham em destruir. Gosto de você como gosto das coisas que o homem ainda não alcançou.

 

§

PARA SER LEMBRADA APÓS A MORTE

Poderia morrer abraçada a essa lágrima
(Ou esperaria que congelasse para patinar sobre?)

Avanço vitrais e abóbadas em comoção
Vejo inumeráveis marcas impressas do que li e ouvi

Borges claramente ensinou
Que se escreve com os pedaços de toda tradição

Assombro incurável
Todo poema se cumpre às minhas custas

Em que diabos pensava quando os pari?
Sou um blefe e nunca mais vou escrever

Enquanto eles se vestem com elegância e aprumo
Vou perdendo roupas abotoaduras sapatos

Por baixo dos trajes eles não existem
Ando nua

Caminho até o relógio e dou corda
Para afastar a sombra intrusa do meu quarto

Sempre fui noturna
Crio situações impossíveis enquanto todos querem dormir

As noites chegam com o barco que de mim partiu
– Ivelejado –

Terror de naufragar

Sorrio no espelho à revelia de tudo

Todas as horas da vida
Gostaria de poder dedicar-me

À poesia

 

§

TERROR DE TE AMAR

Pegue nas mãos e pese este objeto ínfimo
Vermelho-júbilo
Enquanto trabalho
Não sinto medo quando meus olhos estão por trás de uma lente
Apesar de nunca ter atingido o resultado pretendido
É na busca pela terra sólida e dura que
Digo tudo num verbo convulso até tombar brandamente
Só o peito permanece
Sítio frágil

§

 

NÃO HÁ OMBRO

Rio-me

Quando me pego pensando

Em pedir desculpas por trazê-los à minha realidade

Desmedida para a poesia e

Nada diante das pedras

Cuja queda descobriu minha farsa

Já não há ombro na medida do meu fracasso

Pensar que piso onde antes Cleópatra esteve

E depois Dante aquele que

Teria jogado no inferno

Minhas antimusas

Ana C.

Silvia Plath

Anne Sexton

E tantas outras que o habitaram em vida

Escreviam para resgatar o que é morto

E nisso descobriam os vivos

Onde Eros sobrepuja Tanatos

 

(poemas de Yasmin Nigri, introdução de Danielle Magalhães)

Padrão

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