poesia, tradução

Marceline Desbordes-Valmore (1786-1859), por Sandra Stroparo & Caetano W. Galindo

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Foto de 1854, por Nadar.

Enquanto se festejam os últimos prêmios Nobel entregues a mulheres e as estatísticas de “quantas mulheres que…”, podemos imaginar tantas outras escritoras considerando que escrevem não “porque são mulheres” e não “apesar disso”, mas porque precisam e sabem e querem escrever. Num cenário contemporâneo, em que esses embates parecem ter perdido a importância (embora Malala ainda lute pelo direito das meninas de irem para a escola no Paquistão) não é difícil lembrar que essa é uma situação recente. Autoras tão importantes quanto Hilda Hilst e Ana Cristina César receberam muita resenha e crítica, mesmo acadêmica, em que observações sobre o “feminino” dominavam a abordagem, mesmo quando elogiosa.

E essa história toda tem ilustres precursoras.

Marceline-Desbordes Valmore

Paul Verlaine, em seu Poètes Maudits (em sua segunda edição, de 1888), disse que Marceline não era uma bas-bleu, uma “meia azul”. Assim os franceses chamavam, imitando os vizinhos ingleses que tinham suas bluestockings, às mulheres que procuravam um espaço no mundo intelectual, como críticas ou escritoras. Título preconceituoso, era um bom exemplo do absurdo que significava, para o mundo masculino, a intenção de uma mulher de participar de um mundo ao qual, eles achavam, sua intelectualidade não a teria preparado.

Mas, disse Verlaine, já precedido por Sainte-Beuve, Barbey d’Aurevilly (que assinalava sua competência, ainda que feminina”) e Baudelaire, Marceline era “digna de estar entre” seus poetas malditos: Rimbaud, Mallarmé, Corbière, Villiers e ele mesmo, sob o pseudônimo de Pauvre Lélian.

Todas as referências, aliás, que recebeu da crítica do seu tempo foram sempre marcadas pela singularidade de seu gênero, como uma qualidade adversativa a que sempre se devesse prestar mais atenção. “Marceline-Desbordes Valmore foi mulher, foi sempre mulher e foi absolutamente mulher; mas foi a um grau extraordinário a expressão poética de todas as belezas naturais da mulher”, afirmou Baudelaire, na sua melhor fórmula de elogio.

Marceline nasceu no norte da França no final do século XVIII (1786), e cresceu em uma família perturbada pela Revolução — seu pai fabricava enfeites e brasões para a Igreja e, claro, ficou sem trabalho — e com uma mãe que, embora tenha morrido cedo, a educou com um mundo de poemas e cantigas populares cujos ecos vão permanecer para sempre em seus versos. No início da adolescência vive a grande aventura de sua vida: separada de seu pai, sua mãe a leva para a ilha de Guadalupe, para tentar a vida perto de um parente. Algum tempo depois a mãe morre de febre amarela e a filha sofre para voltar sozinha para a França, para perto do pai.

Aos 16 anos a vida a empurra para o trabalho e o teatro a acolhe. Durante anos viveu como atriz e cantora, entre Douai, sua cidade natal, Rouen e Paris, mas as dificuldades por que passava a fizeram procurar outras saídas e quando descobriu que se ganhava algum dinheiro, ainda que pouco, em publicações de poemas, achou que podia fazer isso. O palco, no entanto, lhe ensinou o dodecassílabo de Racine, que ela dominou e adaptou aos seus temas e que fica especialmente evidente nas suas primeiras elegias.

Livros foram se sucedendo e o ambiente romântico a acolheu, ainda que parcialmente. O próprio Victor Hugo, maior figura literária do período, esteve entre os que a reconheceram. Verlaine lembrou que o fato de Marceline ser do norte da França e não do Midi ou do Sul, de onde vinha a tradição mais clássica da poesia francesa, deu a sua poesia uma nuance nova, mais verdadeira, a do “norte cru”, segundo ele: uma linguagem sem pedantismos.

E intrinsecamente romântica. Temas variados atravessaram sua literatura, mas a natureza bucólica e algo idealizada da infância foi sempre o referencial principal de seus tropos, fonte clara de inspiração, e mesmo metáfora para temas mais delicados de alguma sensualidade e erotismo. Quanto a isso, ela seguiu perfeitamente os ditames e o zeitgeist do primeiro Romantismo.

Embora sempre tenha se mantido religiosa — Deus está bastante presente em sua poesia —, defendia uma religiosidade humanista, menos ligada aos ditames da Igreja e mais sensível ao homem, aos pobres, às mães e seus filhos e, num viés bastante surpreendente para a época, escreveu também muitos poemas em que o engajamento político-social deixa entrever uma aspiração de liberdade anti-governista (mas não falemos de anarquismo), numa voz cansada da política a que assistiu durante sua vida, da Revolução ao Segundo Império francês. Além disso, a defesa de uma incipiente autonomia feminina, num reflexo biográfico claro, foi um dos temas que desenvolveu e que foi levianamente considerado como mais um de seus temas “femininos”…

Há críticos que defendem que sua obra fornece um belo quadro da poesia do século XIX, percorrendo várias fases e possibilidades românticas e apontando para uma poesia fin-de-siècle em que “o efeito, não a coisa” (Mallarmé) é pintado nos versos. Mallarmé também se interessou por ela. Em uma carta de 1867, Mallarmé avisa seu amigo, Eugène Lefébure: “Enviarei amanhã dois volumes divinos de novelas de Madame Valmore: Huit Femmes. Mulheres como ela!”

Mas quem apresentou Marceline a Verlaine foi Rimbaud, que muito cedo já tinha percebido perfeitamente, segundo Verlaine, na aproximação entre Marceline e Baudelaire, “a mesma alma dolorosa e como que um parentesco entre esses dois gênios tão diferentes à primeira vista”.

Acrescente-se a isso tudo, ainda, a variedade formal que sua poesia apresentou. Das quebras do verso clássico francês fez várias opções, de 8 ou 4 sílabas, mas foi especialmente com alguns versos ímpares, particularmente ousados naquele mundo tão afeito às tradições e apegado às suas 12 sílabas, que Marceline impressionou o ouvido musical de Velaine: “Antes de tudo, a Música. Preza/ Portanto o Ímpar…”, numa tradução de Augusto de Campos.

Escreveu muito, sempre. Poesia, romances, contos, novelas, cantigas infantis. Morreu em 1859, aos 73 anos. A crítica sobre sua obra ainda é algo rarefeita na França. Nunca mereceu uma edição na Pléiade

Sandra Stroparo

* * *

A sincera

Você quer comprar?
Coração à venda.
Você quer comprar,
Sem ter que brigar?

Deus o fez de aço;
E você que o renda;
Deus o fez de aço
Para um só abraço!

Eu decido o preço;
Você quer saber?
Eu decido o preço;
Não fique surpreso.

Você tem o seu?
Dê! ganhe meu ser.
Você tem o seu,
Pra pagar o meu?

Se seu não é mais,
Só tenho um desejo;
Se seu não é mais,
Pra mim não há paz.

O meu seguirá,
Cerrado sem pejo;
O meu seguirá,
E Deus o terá!

Pois para a paixão,
A vida é tão rara;
Pois para a paixão,
Não há duração.

A alma só corre
Como a água clara;
A alma só corre,
Só ama! e morre.

La sincère
in: Les Pleurs, 1833.

Veux-tu l’acheter ?

Mon cœur est à vendre.

Veux-tu l’acheter,

Sans nous disputer ?



Dieu l’a fait d’aimant ;

Tu le feras tendre ;
Dieu l’a fait d’aimant

Pour un seul amant !



Moi, j’en fais le prix ;

Veux-tu le connaître ?
Moi, j’en fais le prix ;

N’en sois pas surpris.



As-tu tout le tien ?

Donne ! et sois mon maître.

As-tu tout le tien,

Pour payer le mien ?



S’il n’est plus à toi,

Je n’ai qu’une envie ;

S’il n’est plus à toi,

Tout est dit pour moi.



Le mien glissera,

Fermé dans la vie ;

Le mien glissera,

Et Dieu seul l’aura !


Car, pour nos amours,

La vie est rapide ;

Car, pour nos amours,

Elle a peu de jours.



L’âme doit courir

Comme une eau limpide ;

L’âme doit courir,

Aimer ! et mourir.

§

Os sinos e as lágrimas

Na terra onde soa a hora,
Tudo, ah! meu Deus! tudo chora.

O órgão da triste arcada,
O pobre nas orações,
O preso com seus grilhões
E a criança acalantada;

Na terra onde soa a hora,
Tudo, ah! meu Deus! tudo chora.

Chora o sino o sol se pôr
Sobre a igreja amortalhada,
E a carpideira sentada
Que tem a chorar?… O amor.

Na terra onde soa a hora,
Tudo, ah! meu Deus! tudo chora.

Pede aos anjos ocultados
Alívio das noites feras,
Nas celestiais esferas,
Mantém os olhos fixados.

Na terra onde soa a hora,
Tudo, ah! meu Deus! tudo chora.

Ao que o céu há replicado:
“Terra, espera pela hora!
Já disse a tudo que chora,
Que tudo lhe será dado.”

Soa, sino rebrilhante!
Brilha, lágrima abrasante!
Sino triste ao sol se pôr!
Olhos tristes pelo amor!

Les cloches et les larmes
in: Poésies Inédites, 1860.

Sur la terre où sonne l’heure,
Tout pleure, ah! mon Dieu! tout pleure.

L’orgue sous le sombre arceau,
Le pauvre offrant sa neuvaine,
Le prisonnier dans sa chaîne
Et l’enfant dans son berceau;

Sur la terre où sonne l’heure,
Tout pleure, ah! mon Dieu! tout pleure.

La cloche pleur le jour
Qui va mourir sur l’église,
Et cette pleureuse assise
Qu’a-télle à pleurer?… L’amour.

Sur la terre où sonne l’heure,
Tout pleure, ah! mon Dieu! tout pleure.

Priant les anges cachés
D’assoupir ses nuits funestes,
Voyez, aux sphères célestes,
Ses longs regards attachés.

Sur la terre où sonne l’heure,
Tout pleure, ah! mon Dieu! tout pleure.

Et le ciel a répondu:
“Terre, ô terre, attendez l’heure!
J’ai dit à tout ce qui pleure,
Que tout lui sera rendu.”

Sonnez, cloches ruisselantes!
Ruisselez, larmes brûlantes!
Cloches qui pleurez le jour!
Beaux yeux qui pleurez l’amour!

§

Uma carta de mulher

As mulheres, eu sei, não devem escrever;
Mas ouso a arte,
Pra que em meu coração de longe possas ler
Como quem parte.

Qualquer beleza que existir em minha escrita
Mostraste antes
Mas soa nova a palavra cem vezes dita,
Quando entre amantes.

Que te traga alegria! Eu fico a esperar,
Mesmo distante;
Sinto que me vou, para ver e escutar
Teu passo errante.

Não te desvies se passar uma andorinha
Sobre esse chão,
Porque acredito que era eu, fiel, quem vinha,
Tocar-te a mão.

Tu te vais, tudo se vai! Parte em viagem,
Luzes e flores,
O verão te segue e me deixa à fria aragem,
Dos dissabores.

Se só temos esperança e alarmes, no entanto,
E a vista cansa,
Dividamos pelo melhor: mantenho o pranto,
Guarda a esperança.

Não, não queria, tanto a ti estou ligada,
Te ver penar:
Querer dor a sua metade abençoada,
É se odiar.

Une lettre de femme
in: Poésies Inédites, 1860.

Les femmes, je le sais, ne doivent pas écrire ;
J’écris pourtant,
Afin que dans mon cœur au loin tu puisses lire
Comme en partant.


Je ne tracerai rien qui ne soit dans toi-même
Beaucoup plus beau :
Mais le mot cent fois dit, venant de ce qu’on aime,
Semble nouveau.


Qu’il te porte au bonheur ! Moi, je reste à l’attendre,
Bien que, là-bas,
Je sens que je m’en vais, pour voir et pour entendre
Errer tes pas.


Ne te détourne point s’il passe une hirondelle
Par le chemin,
Car je crois que c’est moi qui passerai, fidèle,
Toucher ta main.

Tu t’en vas, tout s’en va ! Tout se met en voyage,
Lumière et fleurs,
Le bel été te suit, me laissant à l’orage,
Lourde de pleurs.


Mais si l’on ne vit plus que d’espoir et d’alarmes,
Cessant de voir,
Partageons pour le mieux : moi, je retiens les larmes,
Garde l’espoir.


Non, je ne voudrais pas, tant je te suis unie,
Te voir souffrir :
Souhaiter la douleur à sa moitié bénie,
C’est se haïr.

§

As rosas de Saadi

Eu pretendia esta manhã te trazer rosas;
Mas pus tantas em minhas vestes rigorosas
Que os nós cerrados não as puderam guardar.

Os nós se romperam. As rosas se soltaram
No vento, até chegar ao mar todas voaram.
Seguiram a água para não mais voltar.

A onda se viu de um vermelho incendiado.
À noite o vestido ainda está perfumado…
Respira em mim o aroma para recordar.

Les roses de Saadi
in: Poésies Inédites, 1860.

J’ai voulu ce matin te rapporter des roses ;

Mais j’en avais tant pris dans mes ceintures closes

Que les nœuds trop serrés n’ont pu les contenir.



Les nœuds ont éclaté. Les roses, envolées

Dans le vent, à la mer s’en sont toutes allées.

Elles ont suivi l’eau pour ne plus revenir ;



La vague en a paru rouge et comme enflammée.

Ce soir, ma robe encore en est tout embaumée…

Respires-en sur moi l’odorant souvenir.

(trad. Sandra Stroparo & Caetano W. Galindo)

Referência:

DESBORDES-VALMORE, Marceline. Poésies. Préface et choix d’Yves Bonnefoy. Paris: Gallimard, 1983.

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