poesia

Frederico Klumb (1990-)

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Frederico Klumb nasceu em 1990, no Rio de Janeiro.
Cursa Cinema na PUC-RJ e integra a Oficina Experimental de Poesia (OEP).
Atualmente divide-se entre o Roteiro e a Poesia.

* * *

 do rio a são paulo um bebê chorava no avião

do alto as
espigas puxadas pelo espaço
em fuga da derme da terra
dirigem-se a plutão
antenas
comunicam-se com as cidades
civilizações distantes
e as varetas das asas
tremem
a criança pequena
molestada pela pressão das coisas
por crescer no meio da cidade
chora
por ter visto a terra de cima
antes mesmo de saber andar
e ser posta de volta no
chão

§

  carne fria em três movimentos

I.

há um banner na estação do metrô:

morreu Jesus
houve um alvoroço
e qual nada
caiu como pedra

como se cai uma fruta
de copa de árvore

como se cai uma folha:
flutua em queda franca
num momento que dura
……………………..todo o tronco
como se cai
do inverso do duro
dum mole etéreo e plasmado
planando no ar
……………………..plumando
o ar
no esforço de tornar-se verde
e juntar-se à terra
e tornar-se tronco
e tornar-se copa

e tornar-se verde

apesar do marrom putrefato e dos vermes,
a fertilidade está sempre num buraco

…….Pois bem que morreu
Os homens reuniam-se em volta
muita coisa havia que ser feita

Tratou Mateus do que era histórico
do que era urgente
do que era
………………..arqueologia

já que não havia mais corpo
sumiu-se

Os outros três
trataram de estilo
da filosofia
do lago de fogo
que se estendia da Gólgota pela Palestina

Pois bem que morreu
talvez não tenha caído

há um banner na estação de trem
ele diz:

Foi por você.

II.

A janela do vagão joga luz no quarto
segundo em que tudo
é visível
há alguém gritando dois por um real
como as cores que tentam se mostrar
aparentemente pouquíssimo burocráticas
Há que se traduzir do português para o português
Há muita falha em nossa comunicação

ambiguidade
líquidos misturados
que mesmo líquido não são
como um vinho faísca de trinta reais
na garrafa cara com restos
de roxo
rastros do tempo

e resquícios da folha que era uva e caiu
como se cai uma folha
como se cai uma fruta
como se cai
……………………..tudo o que cai

e registros de riso
de uma gargalhada embriagada.

Próxima estação: Largo do Machado.

III.

Na rua
o sol se anuncia
desavergonhado
e dezenas de pessoas
fazem fila sem pressa
na porta de uma igreja
ao lado da pequena cruzada

e Palmira
cada vez mais perto dos olhos
zunindo de projéteis
sibilando em    sisz    vxuu
……………………………………….vxuu vxuu

assobiando apesar dos sinais fechados
aceno do meio do borrão apenas
um frame na janela
fazendo a colheita das crianças
acostumadas às cápsulas como às figurinhas

enquanto
do lado de dentro
padres trajados de branco
pastores
embalam senhoras
seguras nas ancas
de outras mais jovens

Eis o mistério da fé
ele diz
e sustenta a história
adornada em negro
de cruzes
sobre a lã do pálio que pesa os ombros

§

detrás dos ladrilhos
grafados na janela alta desse edifício
no meio de sua própria mancha
há alguma coisa
…………………………………que explode os quadros
ainda quando está nublado

a este fenômeno
esta claridade difusa
os fotógrafos por vezes acrescentam o diminutivo
feito que sentem como quem fabrica a própria luz

tenho inveja do pintor
pendurado num andaime
que sabe os canais de tv que se assiste nessa casa
se colocam sal nas batatas
como sentam-se nas cadeiras
se gritam uns com os outros quando estão com raiva
se têm coragem de chorar em público

sei que não pensa em mim
está protegido demais
…………………………………….sob a égide do andaime
a incerteza de seu ofício no sétimo andar
olhar a vida todos os dias do alto
está protegido demais das obviedades

deve pensar qual o desperdício
de acender velas para santos
que estão de pé cá embaixo
enquanto tão perto deles

os toca com as pontas dos dedos
sem precisar esticar-se 30 centímetros

e no que os cavalos pensam
com os jockeys montados
cientes de que os podem içar ao chão
sem precisar de braços ou pernas

se pudesse me ver
da altura de 30 metros
eu seria dois pontos no chão da cidade

veria os carros passando sem assombro
as máquinas mancas da manhã
funcionando ritmadas
o movimento fajuto da vida metálica

se fosse câmera nos via aqui
você a me dizer
que o que a gente têm é uma pequena revolução industrial
linda e terrível.

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