poesia

Diário: A mulher e o cavalo, de Julia Raiz (1991-)

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Julia Raiz (1991-) é paulistana e mora há quatro anos em Curitiba, onde se formou mestre em estudos literários pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e atua como professora de português para estrangeiros. Junto com Clarissa Comin e Vitor Ussui toca o blog de escrita literária Totem & Pagu, projeto que já rendeu saraus, oficina e exposição.Tem textos publicados em revistas como Mallarmargens, Germina (onde foi publicada a primeira parte deste diário) e Zunái. Também participa de projetos de incentivo à escrita e leitura como o Leia Mulheres e o coletivo Marianas.

sergio maciel

* * *

Anunciação

Existem tantas coisas com as quais a gente convive diariamente. Não são obstáculos pelo caminho, você não está nesta trilha estreita para escalar uma grande montanha e salta cavaletes de madeira pintados de amarelo e preto. Não estou falando disso, de maneira nenhuma. Estou falando das bolas de ferro que, na floresta, enroscam-se nas plantas rasteiras e daqui a pouco você está carregando uma tora grudada ao tornozelo. Algumas bolas de ferro são como imãs que atraem outras bolas alheias, invisíveis, enormes como aquelas que perseguem o Indiana Jones que você vive em sonho. Os cavalos são as minhas bolas, estão em propagandas na tevê, são temas de peças, ensaios, estão em clipes de música pop, em filmes adultos, são brinquedos, são figurantes nos livros, são fotografados nos mais covardes confrontos entre a polícia montada e pessoas gritando, apanhando, correndo, jogando pedras e carregando bandeiras e cartazes. No aparador da sala, todo mundo tem pelo menos um cavalo em miniatura ou um galo, um gafanhoto, um touro, um gato, um elefante, uma mulher negra. O meu cavalo é um de Troia, posto na estante, um majestoso cavalo de madeira reduzido a 15 centímetros de cerâmica. Quando estou muito cansada, também me penso no interior de um cavalo, enrolada com a cabeça querendo entrar na barriga, tentando voltar para o ponto de partida, me imagino carregada no útero de um cavalo macho. Como seriam os bebês nascidos dos homens? Teriam eles mais força de vontade para cair no chão e andar com as próprias pernas? Nasceriam com dentes totalmente desenvolvidos, rolando da grama, prontos para abocanhar seu pedaço do mundo? O cavalo é o único animal que dá à luz seus filhotes, pequenas cópias em miniatura que as meninas usam penduradas nas orelhas quando está muito calor e o biquíni pinga.

Fica mais, ir agora é maldade

A vizinha da frente recebe muitas visitas à noite. Mulheres a visitam e elas combinam na porta o próximo horário. Vi que uma artista plástica prepara uma exposição com crânios equinos; a professora que tira fotos de cavalos me mandou uma mensagem amigável; eu gostaria de passar com um cavalo em cima de uma mulher que mora na Inglaterra, quebrar todos os seus ossos, reduzi-la à geleia. Não, melhor, atropelá-la a galope sem querer como se esmaga uma flor chamada crisântemo. Sem querer, gostaria de voltar no tempo e não ter desejado sua morte, mas matá-la mesmo assim.Por vezes, eu queria escrever em forma de canção um batuque alegre para tocar no volante enquanto você para na faixa de pedestre. Uma canção de esperança para cavalgar no deserto um cavalo com uma pena no cabelo, virar um pele vermelha de desenho animado. Os cavalos, depois da chegada dos cavaleiros brancos, ficaram tão tristes que emburreceram, se esqueceram que podiam disparar armas de fogo. Os cavaleiros os obrigavam a encurralar búfalos até que eles não tivessem mais nenhuma opção a não ser seguir em frente para o precipício, em direção à morte coletiva. Depois, se esse fosse um grande romance, o escritor escreveria que os cavalos se reuniam à noite, de costas para a fogueira e cantavam baixinho pedindo paz aos espíritos enganados.

Maneiras

Estou em chamas, peguei como gripe uma espécie de fogo que só queima internamente, parece que tenho bebido gasolina há muito tempo e, por fim, engulo um palito de fósforo acesso. Uso um rapaz português como incendiador, ele me mantém a andar nas pontas dos pés. Assim escrevo todos os dias, à mão, e melhor porque excitada e não sei diferenciar amizade de uma puxada violenta de cabelo. Um homem alto e magro com cara de cavalo e pontas dos cacos queimadas. Por isso esses dias não penso mais em mulheres e nem em cavalos, penso num cavalo só, com cara de homem, um bicho híbrido que pode me pisotear quando quiser, mas não o faz. Eu e o homem-cavalo trocamos cartas, mas ele não me manda beijinhos como os demais, me pergunta se eu quero beijos que não estão no diminutivo e diz que vai me importar numa caixa de madeira lacrada junto com castanhas do brasil. Não se importa que sentirão minha falta por aqui. Essa semana, prenderam a mulher do policial militar desaparecido há 10 dias. O desaparecido investigava um assalto sofrido pela própria esposa, mas depois de uma festa no final de julho não tinha mais sido visto. Temeram retaliação de criminosos, cogitaram uma amante vingativa, uma segunda família, dívida de jogo. Algum colega da corporação desconfiou da esposa e a pressionou só deus sabe como. A mulher admitiu ter assassinado o marido, guardado seu corpo por 24 horas e depois o esquartejado e enterrado num terreno abandonado.

Jazz

Matisse recortou papéis pintados à guache e os batizou de muitos nomes, entre eles: o cavalo, a amazonas e o palhaço. No enterro de pierrot também aparecia um cavalo azul e laranja feito de papel. No pavilhão de baixo do museu um cavalo olha diretamente para a câmera, enquanto o cavaleiro pousa. O cavalo tira também uma foto de mim e de todas as pessoas que passam em frente ao quadro nesses últimos quatro meses. Dezenas e dezenas de pessoas que param menos ou mais tempo diante do cavalo sem saber que são fotografadas, sem saber que uma versão invertida de si vai parar lá dentro do quadro, presa na retina convexa de um animal que puxa carroças. Um processo do qual o cavaleiro é totalmente ignorante porque pousa. Ellen Ruth também passeia pelo museu de mãos dadas com um homem que não nos interessa, vê os cavalos de Matisse e os perfis dos homens que os montam, pensa neles enquanto faz xixi.

Prisco

Volto à livraria no centro da cidade. Uma porta fechada do lado de várias onde moram senhoras de cabelos brancos que saem às ruas ao amanhecer com sacolas de feira, todas viúvas se visitam na hora do chá e, vez sim vez não, pensam em se amassar umas com as outras e se deixar estar no canto da sala. Volto à livraria da dona que usa moletom da Adidas e boné. Vai comemorar o centenário da revolução russa e o oito de março com uma exposição de antigas máquinas de costura usadas por operárias. No meio de dezenas de metros de tecido, chapéus e sapatos, uma escova, fabricada em 1916, feita de crina de cavalo. Uma jovem moça mistura os cabelos da sua criança aos pelos do cavalo como se a mandasse pular, se irrita que a menina permaneça rígida, obediente. Força o primeiro nó de embaraço como se vestisse botas com esporas, puxa o cabelo para trás e monta na filha para provar como é ser mulher no mundo animal. A língua mingua, passeio pela livraria com medo de assombrações uterinas. Esquecido no canto do sótão, espera por mim um cavalo de madeira. Esqueço de pedir permissão para Socorro e o monto feito amazona que sou de outros tempos, cavalgo a história como se cavalga um homem, de pernas abertas, fingindo que crianças desconhecem o sentido do vai e vem que deu origem à humanidade. Dei voltas à toa sem saber voltar para casa, porque esse livro é todo impossível perdi a capacidade de traçar caminhos.

Não consigo me livrar do Google, ele me persegue feito um namorado obsessivo

Tenho um caroço na cabeça. Não fui ao médico, não fiz exames, não fui diagnosticada. Mas tenho um tumor na cabeça, um tumor mimético, vive para ser outro, cria algo à aparência, a partir de. Esse tumor adquiriu a aparência do meu cérebro, ele o substituiu. Não tenho cérebro, tenho um tumor que tomou o meu crânio como se fosse um cérebro. Parece um cérebro, cheira a cérebro, tem gosto de cérebro. Não sinto dores, tonturas ou enjoos porque ele está tão bem localizado que parece ao meu corpo, para todo os efeitos, um cérebro. Muito eficientes, os tumores não só se dobram, se multiplicam ao longo do tempo, nunca cessam de nascer e nascer de novo como as mulheres pobres que trabalham na rua. Jack the Ripper, o cérebro, pode ser Druitt, o médico; Klosowski, o barbeiro; Maybrick, o comerciante; Ostrog, o russo; Edward, o duque; Tumblety, o gay; Sickert, o pintor; Kosminsky, o lunático; Barnett, o pescador; Churchill, o lorde; Cream, o abortista; Deeming, o marinheiro; Dudson, o escritor; Bury, o assassino; Cross, o carteiro. Todos homens que montavam cavalos em Londres do século XIX.

Carrego em par o peito dou aos desajeitados e aos caolhos
Não há nada de mais em ser um homem entediado, o cinema está cheio deles, recitando Rimbaud de cabeça. Homens mais ricos que sanatórios mentais, que não conseguem sentir nada e por isso se picam deitados na banheira. O narrador sussurra frases que dão conta da vida. Tão simples. Tão superiores. Esses homens se perguntam quem controlam os homens? Quem controlam os homens que controlam? Quantos homens são necessários para escrever um manifesto? Os homens são, ao mesmo tempo, a roda que gira e a trava que a obriga a parar. Todos esses meninos fazem bico para comer, odeiam o pai, trancam as mães no sótão. Eles não sabem de onde vieram. Saí com o português ontem à noite. Não de verdade, obviamente, por carta. Fomos ao centro assistir um especial do Kurosawa: Os Sete Samurais. Um filme de 3h28min com 10min de intervalo. Pouco depois da metade, três samurais e um camponês são mandados, a cavalo, para incendiar a cabana onde estão os bandidos que planejam saquear a aldeia e queimá-la. Depois de iniciarem o fogo, que se alastra devagar, os quatro espreitam para dentro da cabana, onde os saqueadores dormem espalhados, pernas e braços abertos por causa do calor, compartilham beliches com prisioneiras: mulheres muito brancas, despenteadas, semi-nuas. Do chão, uma mulher, que dorme sozinha, se ergue como se ainda estivesse sonhando. À medida que o fogo se espalha, as reféns correm primeiro para fora, gritando sempre atordoadas, em seguida os homens também fogem, feridos pela espada dos inimigos que os esperam na porta. Completada a missão, os samurais e o camponês preparam-se para pegar a trilha de volta, quando o camponês olha para trás e vê que sai da cabana em chamas, intacta como por um milagre, a mulher que dormia no chão. O homem corre desesperado até ela,reconhecendo-a como a esposa que tinha sido raptada, mas seu rosto, que até agora permanecia impassível, contrai-se numa careta de horror e a mulher corre desesperada de volta para onde saiu.

 

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