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June Jordan, por Sandra Santos

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June Jordan (1936-2002) foi uma das poetas, ensaístas e activistas afro-americanas mais amplamente publicadas e aclamadas da sua geração. Demonstrou-se desde cedo fortemente empenhada em defender causas políticas e sociais, como os direitos humanos, os direitos das mulheres, dos negros e dos marginalizados e a liberdade sexual (a poeta assumiu publicamente a sua bissexualidade). Todos estes tópicos encontram-se disseminados nas obras Some Changes (1971), Civil Wars: Selected Essays, 1963-80 (1981), Living Room (1985), Kissing God Goodbye: Poems 1991-1997 (1997), entre outras.

Foi também professora em muitas das mais prestigiadas universidades dos Estados Unidos, instruindo os seus alunos para a luta em prol de uma sociedade mais justa e livre. A este propósito, foi criada a “The June Jordan School for Equity” para acolher jovens que queiram continuar a investigar acerca dos grandes temas propostos pela poeta.

Ao longo da sua vida, arrecadou um conjunto de prémios e distinções, entre os quais, o Ground Breakers-Dream Makers Award da “The Woman’s Foundation” em 1994.

June Jordan acabaria por morrer devido a um cancro da mama, deixando um legado tão actual quanto necessário.

Sandra Santos

* * *

CHAMO TODAS AS MINORIAS SILENCIADAS

HEY

VÁ LÁ
ANDA LÁ

ESTEJAS ONDE ESTIVERES

NÓS PRECISAMOS DE NOS REUNIR
NESTA ÁRVORE

QUE NÃO FOI
PLANTADA
AINDA

CALLING ON ALL SILENT MINORITIES

HEY

C’MON
COME OUT

WHEREVER YOU ARE

WE NEED TO HAVE THIS MEETING
AT THIS TREE

AIN’ EVEN BEEN
PLANTED
YET

§

POEMA SOBRE OS MEUS DIREITOS

Ainda esta noite eu preciso de dar uma volta e esclarecer
o que me vai na cabeça acerca deste poema com o qual eu não consigo
sair sem mudar a minha roupa os meus sapatos
a minha postura corporal a minha identidade de género a minha idade
o meu estatuto de mulher sozinha na noite/
sozinha nas ruas/ sozinha sem estar no ponto/
o ponto é que eu não posso fazer o que eu quiser
com o meu próprio corpo porque eu sou do sexo errado
da idade errada da cor errada e
suponhamos que não estivesse aqui na cidade mas sim na praia/
ou longe no bosque e que quis ir
aí por minha conta a pensar em Deus/o a pensar
nas crianças ou a pensar no mundo/tudo isso
revelado pelo silêncio e pelas estrelas:
Poderia não ir e poderia não pensar e poderia não
ficar aí
sozinha
como eu preciso de estar
sozinha porque não posso fazer o que quero com o meu próprio
corpo e
quem raio pôs as coisas
nestes termos
e em França dizem que se o tipo penetra
mas não ejacula então ele não me violou
e se depois de apunhalá-lo se depois dos gritos se
depois de suplicar ao filho da mãe e se mesmo depois de o esmagar
com um martelo na cabeça se mesmo depois disso se ele
e os seus amigalhaços depois disso me violarem
então consenti e não foi
violação porque finalmente tu entendes finalmente
que eles violaram-me porque eu estava errada eu estava
outra vez errada por ser eu sendo eu onde eu estava/errada
por ser quem sou
exactamente como a África do Sul
que penetra a Namíbia que penetra
Angola e isso quer dizer quero dizer como sabem se
Pretória ejacula qual será o sinal a provar
a ejaculação do monstro da bota de cano alto na Blackland
e se
depois da Namíbia e se depois de Angola e se depois do Zimbabwe
e se depois de tudo os meus parentes e as mulheres resistirem até mesmo
a auto-imolação das povoações e se depois disso
perdermos mesmo assim que irão dizer os moços irão
pedir-me o meu consentimento:
Estás A Seguir-me?: Somos as pessoas erradas
da cor errada no continente errado
e por que raio toda a gente é tão razoável
e segundo o the Times desta semana
em 1966 a CIA decidiu que tinha este problema
e o problema era um homem chamado Nkrumah pelo que
o mataram e antes disso foi Patrice Lumumba
e antes disso foi o meu pai no campus
da minha escola Ivy League e o meu pai receava
caminhar até à cafetaria porque dizia que
estava errada a idade errada a cor errada
a identidade de género errada e estava a pagar a minha matrícula e
antes disso
era o meu pai que dizia que eu estava errada dizendo que
eu deveria ter nascido rapaz porque ele queria um/um
rapaz e que deveria ter tido a pele mais clara e
que deveria ter tido o cabelo mais liso e que
não deveria gostar tanto de rapazes mas sim
ter nascido um/rapaz e antes disso
era a minha mãe que mendigava por uma cirurgia estética para
o meu nariz e um aparelho para os meus dentes e dizendo-me
que largasse os livros que os libertasse em outras
palavras
estou muito familiarizada com os problemas da CIA
e com os problemas da África do Sul e com os problemas
da Exxon Corporation e com os problemas da América
branca em geral e com os problemas dos professores
e dos pregadores e os do FBI e os dos trabalhadores
sociais e particularmente da minha Mamã e do meu Papá/ estou muito
familiarizada com os problemas porque os problemas
vêm a ser
eu
Eu sou a história da violação
Eu sou a história da recusa de quem sou
Eu sou a história do terrífico encarceramento de
mim mesma
Eu sou a história do assalto violento e dos infinitos
exércitos contra qualquer coisa que queira fazer com a minha mente
e o meu corpo e a minha alma e
não importa se se trata de sair à noite
ou se se trata do amor que eu sinto ou
se se trata da santidade da minha vagina ou
da santidade das minhas fronteiras nacionais
ou da santidade dos meus líderes ou da santidade
de todos e de cada um dos desejos
que conheço desde o meu pessoal e idiossincrático
e infalivelmente sozinho e singular coração
Eu fui violada
por-
que estava errada tinha o sexo errado a idade errada
a cor errada o nariz errado o cabelo errado a
necessidade errada o sonho errado a geografia
errada a elegância errada eu
fui o sentido da violação
fui o problema que toda a gente procura
eliminar pela força
da penetração com ou sem a evidência do muco e/
mas deixemos que isto seja inequívoco este poema
é não consentir eu não consinto
à minha mãe ao meu pai aos professores
ao FBI à África do Sul ao Bedford-Stuy
ao Park Avenue à American Airlines aos madraços
nas esquinas aos arrepios encobertos nos
carros
Eu não estou errada: Errado não está o meu nome
O meu nome é meu meu meu
e não posso dizer-te quem raio pôs as coisas nestes termos
mas posso dizer-te que de agora em diante a minha resistência
a minha simples e diária e nocturna auto-determinação
pode muito bem costar-te a vida.

POEM ABOUT MY RIGHTS

Even tonight and I need to take a walk and clear
my head about this poem about why I can’t
go out without changing my clothes my shoes
my body posture my gender identity my age
my status as a woman alone in the evening/
alone on the streets/alone not being the point/
the point being that I can’t do what I want
to do with my own body because I am the wrong
sex the wrong age the wrong skin and
suppose it was not here in the city but down on the beach/
or far into the woods and I wanted to go
there by myself thinking about God/or thinking
about children or thinking about the world/all of it
disclosed by the stars and the silence:
I could not go and I could not think and I could not
stay there
alone
as I need to be
alone because I can’t do what I want to do with my own
body and
who in the hell set things up
like this
and in France they say if the guy penetrates
but does not ejaculate then he did not rape me
and if after stabbing him if after screams if
after begging the bastard and if even after smashing
a hammer to his head if even after that if he
and his buddies fuck me after that
then I consented and there was
no rape because finally you understand finally
they fucked me over because I was wrong I was
wrong again to be me being me where I was/wrong
to be who I am
which is exactly like South Africa
penetrating into Namibia penetrating into
Angola and does that mean I mean how do you know if
Pretoria ejaculates what will the evidence look like the
proof of the monster jackboot ejaculation on Blackland
and if
after Namibia and if after Angola and if after Zimbabwe
and if after all of my kinsmen and women resist even to
self-immolation of the villages and if after that
we lose nevertheless what will the big boys say will they
claim my consent:
Do You Follow Me: We are the wrong people of
the wrong skin on the wrong continent and what
in the hell is everybody being reasonable about
and according to the Times this week
back in 1966 the C.I.A. decided that they had this problem
and the problem was a man named Nkrumah so they
killed him and before that it was Patrice Lumumba
and before that it was my father on the campus
of my Ivy League school and my father afraid
to walk into the cafeteria because he said he
was wrong the wrong age the wrong skin the wrong
gender identity and he was paying my tuition and
before that
it was my father saying I was wrong saying that
I should have been a boy because he wanted one/a
boy and that I should have been lighter skinned and
that I should have had straighter hair and that
I should not be so boy crazy but instead I should
just be one/a boy and before that
it was my mother pleading plastic surgery for
my nose and braces for my teeth and telling me
to let the books loose to let them loose in other
words
I am very familiar with the problems of the C.I.A.
and the problems of South Africa and the problems
of Exxon Corporation and the problems of white
America in general and the problems of the teachers
and the preachers and the F.B.I. and the social
workers and my particular Mom and Dad/I am very
familiar with the problems because the problems
turn out to be
me
I am the history of rape
I am the history of the rejection of who I am
I am the history of the terrorized incarceration of
myself
I am the history of battery assault and limitless
armies against whatever I want to do with my mind
and my body and my soul and
whether it’s about walking out at night
or whether it’s about the love that I feel or
whether it’s about the sanctity of my vagina or
the sanctity of my national boundaries
or the sanctity of my leaders or the sanctity
of each and every desire
that I know from my personal and idiosyncratic
and indisputably single and singular heart
I have been raped
be-
cause I have been wrong the wrong sex the wrong age
the wrong skin the wrong nose the wrong hair the
wrong need the wrong dream the wrong geographic
the wrong sartorial I
I have been the meaning of rape
I have been the problem everyone seeks to
eliminate by forced
penetration with or without the evidence of slime and/
but let this be unmistakable this poem
is not consent I do not consent
to my mother to my father to the teachers to
the F.B.I. to South Africa to Bedford-Stuy
to Park Avenue to American Airlines to the Hardon
idlers on the corners to the sneaky creeps in
cars
I am not wrong: Wrong is not my name
My name is my own my own my own
and I can’t tell you who the hell set things up like this
but I can tell you that from now on my resistance
my simple and daily and nightly self-determination
may very well cost you your life

(June Jordan, trad. Sandra Santos)

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