Uncategorized

Cantar Langston Hughes, por Pedro Tomé: “Manhã Seguinte”

1000509261001_2105665572001_langston-hughes-house-in-harlem

 

Então, se a poesia tenta transmitir algo além do que pode ser transmitido nos ritmos da prosa, continua, do mesmo modo, havendo uma pessoa falando a outra; e isso também é verdade se você canta, pois cantar é outra maneira de falar. (T. S. ELIOT)

Famoso poeta do blues, Langston Hughes (1902-67) foi um dos pioneiros na expressão da cultura popular negra estadunidense através do veículo “formal” da literatura escrita. O poema “Morning After”, que traduzi para o português e musiquei, foi publicado pela primeira vez no livro Shakespeare in Harlem, de 1942. Assim como muitos poemas da parcela dita mais musical da obra de Hughes, “Morning After” é composto no formato cancional do twelve-bar blues, em que os dois primeiros versos são replicados e em seguida recebem uma conclusão nos dois versos finais, que encerram o ciclo de 12 compassos de cada estrofe.

Em tom jocoso, o enunciador do poema relata que, na noite anterior, após abusar de uma bebida alcoólica de qualidade duvidosa, teve pesadelos em que se via no inferno. Ao acordar, deparou-se com sua companheira roncando boquiaberta num volume ensurdecedor. As imagens apresentadas mostram certo apelo ao grotesco, com a mulher sendo comparada a um poço aberto e a uma multidão ruidosa. Poderíamos pensar numa espécie de devaneio experimentado pelo enunciador, que vai se intensificando com a sobreposição de sucessivas camadas: a embriaguez, o pesadelo e o estímulo sensorial dos sons de ronco. Se as duas primeiras estrofes soam como relatos, com verbos no passado, a terceira já se coloca como uma interpelação à mulher para que deixe de roncar tão alto, com verbos no imperativo, uso de vocativos e de exclamações.

Quanto à linguagem, as expressões e a grafia das palavras remetem ao inglês falado dos negros dos EUA (black english): “licker” em vez de “liquor”, “I drempt” em vez de “I dreamed”; “you jest” em vez de “you’re just”.

Resolvi musicar o poema com base na progressão de acordes tradicional do blues, em que se alternam os acordes tônico, subdominante e dominante: no caso, a tonalidade escolhida foi a de Lá Maior. A harmonia fica então configurada em torno dos acordes de Lá, Ré e Mi. Optei por uma sequência não tão óbvia, em que se começa a cantar no acorde subdominante (Ré Maior) em vez do tônico (Lá Maior), como seria mais intuitivo. Tal estrutura é encontrável em canções como “Little Red Rooster”, de Willie Dixon (1915-92), cuja versão mais famosa é a interpretada por Howlin’ Wolf (1910-76), expoente do blues elétrico de Chicago. 

Porém, a grande inspiração para o arranjo veio das canções de outro grande nome do blues elétrico do pós-Segunda Guerra: John Lee Hooker (1917-2001), oriundo do Mississippi, como seus colegas de Chicago, mas radicado em Detroit. Como canções de referência para a musicalização, eu citaria “Wandering Blues”, “Hobo Blues” e “Boogie Chillen”, todas de Hooker, cujo estilo se caracteriza pela instrumentação mínima, em que violão e voz são no máximo acompanhados pela percussão da batida do pé no assoalho. Busquei inspiração em seus licks e riffs de violão, altamente percussivos e tocados em resposta aos versos cantados.

O canto de Hooker é grave e sombriamente calmo, com eventuais arroubos vocais nos momentos em que a música se adensa. Muito próximo da fala, seu modo de cantar soa como um prosear: se “cantar é outra maneira de falar”, no dizer de Eliot, Hooker realiza essa comunicabilidade expressiva, tão típica do blues, em sua plenitude. Detectei igualmente um tom anedótico, de relato pessoal, no poema de Hughes, donde minha ideia de cantar de maneira pouco melódica, quase recitativa, como quem acorda meio tonto da ressaca e desorientado pelas visões de uma noite delirante. Assim, busquei privilegiar certas inflexões da voz que denotem ironia, súplica etc., num canto cuja teatralidade se acentua particularmente na estrofe final, quando minha voz adquire um timbre rouco, frouxo, meio nauseado – e aqui eu gostaria de destacar a influência de Raul Seixas, outro praticante da entonação vocal altamente interpretativa, além de pioneiro do blues no Brasil.

O uso da viola caipira, afinada em “ceboção em ré maior”, confere um sabor brasileiro à gravação, além de sugerir algo sobre as diversas confluências entre o universo do blues rural estadunidense e a música de raiz dos interiores do Brasil, como o tom de causo mineiro que enxergo em “Morning After”.

A tradução do poema foi pautada pela musicalização: os versos em português foram se consolidando à medida que eu buscava cantá-los, verificando empiricamente o que soava bem como canto de blues. Nesse sentido, trata-se de uma tradução em voz alta, não presa à textualidade estrita, à leitura/escritura silenciosa. Esse parâmetro aural/vocal resolve, por si só, as questões do ritmo e rima. Por exemplo, para fazer jus à regularidade rítmica de “your mouth was open like a well”, com alternância entre sílabas tônicas e átonas, lancei mão de outra cadência em “boca era um bueiro aberto”. Nesse verso, em que a cadência é salientada pela aliteração da consoante “b”, a alternância entre uma tônica e duas átonas foi permitida pela flexibilidade prosódica do canto, em que pude enfatizar a primeira sílaba de “bueiro”, desse modo criando uma célula métrica de tercinas – para colocar em termos musicais.

A naturalidade da expressão foi também um critério: na canção popular, a comunicação deve ser direta, e por isso busquei fluidez sintática e escolha léxica acessível. Se não optei por algum socioleto específico do português brasileiro a fim de fazer jus ao black english de Hughes, usei o registro da fala contemporânea (“eu tava lá no inferno”), com algumas gírias (“goró”). Em verdade, usei o registro da minha própria fala, e assim creio ter obtido uma maior naturalidade.

De todo modo, me parece que a canção popular, para além da naturalidade na expressão, exige certo grau de entretenimento para o ouvinte. Daí a opção por mencionar o centro de São Paulo como tradução para “great big crowd”: a aclimatação metafórica, comum em tradução de canção, não só dá conta do efeito humorístico dos versos originais – em que o ronco da pequena moça é comparado a uma multidão barulhenta –, mas passa ao público receptor brasileiro certa sensação de familiaridade, tendo em vista a referência à maior cidade do país. Do ponto de vista musical, o uso da viola também traz essa familiaridade. Afinal, não estou apenas fazendo blues, estou fazendo blues brasileiro; e aí está o cerne do próprio processo de tradução – reemitir, não replicar, o poema, levando em consideração certos aspectos da língua-cultura de chegada. O poema traduzido é, como objeto autônomo, um poema brasileiro.

Pedro Tomé

* * *

Manhã Seguinte

Passei tão mal essa noite,
Nem respondia mais por mim.
Passei tão mal,
Nem sabia mais de mim.
Minha vista embaçou
Por causa de um goró ruim.

Eu sonhei essa noite
Que eu tava lá no inferno.
Sonhei essa noite
Que eu tava lá no inferno.
Acordei e olhei pros lados –
Babe, sua boca era um bueiro aberto.

Eu falei, Baby! Baby!
Vê se não ronca tão alto.
Baby! Faz favô!
Vê se não ronca tão alto.
Você é pequenininha mas seu ronco
Lembra o centro de São Paulo.

Morning after

I was so sick last night I
Didn’t hardly know my mind.
So sick last night I
Didn’t know my mind.
I drunk some bad licker that
Almost made me blind.

Had a dream last night I
Thought I was in hell.
I drempt last night I
Thought I was in hell.
Woke up and looked around me –
Babe your mouth was open like a well.

I said, Baby! Baby!
Please don’t snore so loud.
Baby! Please!
Please don’t snore so loud.
You jest a little bit o’ woman but you
Sound like a great big crowd.

 

Padrão

Um comentário sobre “Cantar Langston Hughes, por Pedro Tomé: “Manhã Seguinte”

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s