poesia, tradução

A Commedia de Dante, por Matheus Mavericco

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Dante e seu poema, afresco de Domenico di Michelino

No geral eu até gosto de fazer introduções, mas como isso daqui vai ficar quilométrico, eu dispenso e parto do princípio que o leitor já saiba o significado de alguns dos segredinhos desse celebérrimo início, por exemplo aquilo do Nel mezzo del cammin significar aproximadamente 35 anos ou então selva oscura simbolicamente remeter à vida humana repleta de pecados, ou que o sol para o povo da Idade Média era planeta etc etc. Caso não saiba de nada disso, você pode acessar o site da universidade de Princeton e se deliciar com o farto material que eles disponibilizam lá: clique aqui.

Meu propósito é o de compilar todas as traduções do início da Divina Comédia que pude encontrar. É um modo de escancarar aquele paradoxo da tradução, qual seja, o de que enquanto os italianos contam com o privilégio de lerem no original, nós contamos com o privilégio de lermos dezenas de versões para aquele mesmo texto. Pois é, quem diria. Só que, ao lado de tantos nomes ilustres, eu resolvi, de maneira muito desbocada, intentar uma versão minha, com o propósito maior de soar diferente, ou seja, tentar chegar a soluções novas acima de tudo no âmbito das rimas, mesmo sabendo, de antemão, que muitas dessas soluções implicariam perdas inevitáveis, visto que a preferência da esmagadora maioria dos tradutores por determinadas soluções rímicas não é gratuita, encontrando, antes, uma real possibilidade lá no próprio original (vide o caso de rimas em “-orte” na segunda e terceira estrofe). Assim, em minha versão, eu fugi do “vida” e fui parar no “existência”, o que é uma mudança e tanto. Do mesmo modo, por necessidade da rima, tive que inverter a ordem dos versos 2 e 3 e transformar a selva oscura numa selva densa (adjetivo que Cristiano Martins usará em sua tradução versos depois), o que é uma perda, naturalmente, pois “densa” não traz a mesma conotação negativa de “escura” (por isso tentei reforçar a ideia com esse “Perdido” dando sopa). Todavia, se assim foi, creio que pelo menos tive um instantezinho de felicidade na hora de transpor aquele travo sonoro que muitos apontam no início do primeiro verso (nostra vita) para o segundo. Um outro exemplo está nos versos 17, 19 e 21, envolvendo uma rima em “-eta”. Aqui eu também segui a maioria, com a diferença de que, invertendo a ordem dos versos 20 e 21, tentei chegar a uma nova solução para o impasse que é justamente chegar a uma rima legal nesse verso 21 (acho “inquieta” muito bom, mas, como dito, eu quis fazer com que a roda girasse).

Enfim. Não vou ficar ensebando demais, mesmo porque nem sempre consegui cumprir o que eu próprio houvera estabelecido ― vide as rimas nos versos 11, 13 e 14, que seguem o “-onto” do original: são casos em que senti que, mudando a rima, me distanciaria demais do original, não conseguindo, portanto, manter essa coisa de apontar uma nova via que fosse minimamente válida. É uma tradução deficiente, a minha, mas eu escolhi incorrer nesse risco, além, é claro, das próprias deficiências que eu mesmo enquanto tradutor possuo. Caso o leitor não goste, ele pode escolher qualquer uma das variadas versões que compilei aqui, com soluções pra tudo quanto é gosto: sejam versões que buscam seguir a microscopia sintática e sonora do original, como a de Vasco Graça Moura, sejam versões que chegam até mesmo a escapar das rimas, como no caso do Barão da Villa Barra (isto é, observe como ele poderia ter rimado com “viva” no verso 27 e, no entanto, escafedeu-se!). Eu só gostaria que iluminássemos com um pouco mais de ênfase a tradução de Luiz Vicente De Simoni, que provavelmente não é do conhecimento de muitos, que, se brincar, ainda acham que o primeiro em solo nacional a traduzir Dante foi Machado de Assis em 1874 (Canto XXV do Inferno). Eu também achava, mas é importante não só notar que Gonçalves Dias possui versões peculiares para alguns Cantos do Purgatório, como também notar, conforme mostrou Pedro Falleiros Heise em sua tese de doutorado (disponível aqui), que o crédito de pioneiro de Dante em solo nacional é todo devido a De Simoni, que fez traduções de outras passagens também (por exemplo o Canto III ― aquele, da plaquinha ―, Francisca de Rímini, Conde Ugolino etc).

Alerto, todavia, que esta não é uma compilação completa. A tradução portuguesa de Fernanda Botelho, publicada num livro que contava com Sophia de Mello Breyner Andresen para o Purgatório, e a tradução de Malba Tahan, em prosa, são alguns exemplos de traduções a que não tive acesso. Não incluí a tradução de Hernâni Donato pois tenho comigo somente a versão plagiada da Nova Cultural (2003), que estampa, na capa, o nome de um tal de Fábio M. Alberti. Não sei como não me livrei desse encosto ainda… (Consciência ambiental, quem sabe?) Enfim. Caso o leitor queira saber mais a respeito desse caso de plágio, é só dar uma pousada no blog da Denise Bottman, clicando especificamente aqui e aqui. O livro Dantesca luso-brasileira, de Giacinto Manuppella (disponível aqui), me foi particularmente útil para a compilação. Agradeço a Luis Fernando Pinheiro, vulgo Calib, por me fornecer a tradução do Barão da Villa Barra.

Na postagem sobre o poema Via, de Carolina Bergvall, feita pelo camarada Adriano Scandolara, é possível encontrar um número bom de traduções para o primeiro terceto, muitas inéditas. A versão de Adriano Scandolara, por exemplo, faz uma interessante homenagem ao Drummond d’A Máquina do Mundo (isto é: a escolha do termo “palmilhado”). Vale a pena conferir.

 

matheus mavericco

§

Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura,
ché la diritta via era smarrita.

Ahi quanto a dir qual era è cosa dura
esta selva selvaggia e aspra e forte
che nel pensier rinova la paura!

Tant’è amara che poco è più morte;
ma per trattar del ben ch’i’ vi trovai,
dirò de l’altre cose ch’i’ v’ho scorte.

Io non so ben ridir com’i’ v’intrai,
tant’era pien di sonno a quel punto
che la verace via abbandonai.

Ma poi ch’i’ fui al piè d’un colle giunto,
là dove terminava quella valle
che m’avea di paura il cor compunto,

guardai in alto, e vidi le sue spalle
vestite già de’ raggi del pianeta
che mena dritto altrui per ogne calle.

Allor fu la paura un poco queta,
che nel lago del cor m’era durata
la notte ch’i’ passai con tanta pieta.

E come quei che con lena affannata,
uscito fuor del pelago a la riva,
si volge a l’acqua perigliosa e guata,

così l’animo mio, ch’ancor fuggiva,
si volse a retro a rimirar lo passo
che non lasciò già mai persona viva.

§

trad. Luiz Vicente De Simoni. [1843]
em: Ramalhete poético. 1843, p. 3-5. Disponível aqui.

No meio do correr da nossa vida
Me achei andando em uma selva escura,
Pois a estrada direita ia perdida.

Dizer qual era, ai quanto é cousa dura,
Esta selva selvagem, aspera e forte,
Que inda na mente o susto me figura!

Tanto custa, que pouco mais é a morte.
Mas, tratando do bem que nella achei,
Direi quanto vi nella de outra sorte.

Eu bem não sei dizer como hi entrei,
Tanto de somno eu ‘stava recheado,
Quando a não falsa via abandonei.

Mas quando ao pé de um morro eu fui chegado,
Onde acabava o valle, que de espanto
Me havia o coração compenetrado;.

Olhei ao alto, e vi seu dorso em manto
De raios do planeta, que direito
Conduz o viajante em qualquer canto.

Então um pouco socegou meu peito
Do susto, que o allagara, e que durado,
Tinha, na noite em que eu me vira estreito.

E como quem com alento anciado
Do pélago sahindo para a riva,
Volve-se, e olha a onda em que hap’rigado:

Assim minha coragem fugitiva
Virou-se para traz, a ver o passo,
Que jámais não deixou pessoa viva.

§

trad. Antonio José Viale. [1883]
em: O sexto canto da Iliada e dous cantos do “Inferno” de Dante. Typographia da Academia, 1853, p. 33-34. Disponível aqui.

Em meio curso da terrena vida
Embrenhado me achei n’uma espessura,
Fóra da estrada recta, e conhecida.

Seria negra e lugubre a pintura
Desta selva tão densa e emmaranhada,
Que renova, ao lembrar, temor, tristura.

Pode á morte no horror ser comparada;
Mas como nella achei algum conforto,
Altas cousas, que vi, dizer me agrada.

Como entrei no caminho errado e torto,
Eu não posso contar, que em tal instante
O somno me vencera: errava absorto.

Cheguei a uma colina não distante,
Do valle no limite derradeiro,
Que me enchera de medo penetrante.

Os olhos êrgo, e do visinho outeiro
Eis que a espalda dourava o grão planeta,
Que mostra a recta senda ao caminheiro.

Então em mim um tanto se aquieta
A tormenta que o susto alevantara,
Na triste noute, em solidão completa.

E como quem, sem fôlego, da amara
Agoa das ondas salvo, a praia alcança,
Os olhos volve ao mar, de que escapara;

Tal meu animo afflicto a vista lança
Para o bosque tão negro e temeroso,
Que tolhe ao coração toda a esperança.

§

trad. Domingos Ennes. [1887]
em: A Divina Comédia, Inferno. Cia Brasil Editora, 1947, p. 8-9.

Em meio do caminho desta vida
Achei-me um dia numa selva escura,
Muito longe da senda já perdida.

Era a selva (di-lo-ei com amargura)
Em excesso pujante erude, e forte;
Tal susto me causou que inda hoje dura!

Mais amarga não é talvez a morte;
Contarei o que vi nela encoberto,
E o grande bem que lá me coube em sorte.

Mas como fui parar a tal deserto
Não sei, ― que o sono me tomou no instante
Em que perdi o trilho bom e certo.

Como visse um oiteiro mais distante,
Onde o medonho vale enfim termina,
Que tanto me aterrou, não fui avante.

Ergui então os olhos à colina:
Co’ os raios se vestia, no seu alto,
Do planeta que os homens ilumina.

Calmou-se um pouco o susto, cujo assalto,
Durante toda a noite de tormento,
Me trouxe o coração em sobressalto.

Como quem ofegante e sem alento,
Sendo tirado da onda que deriva,
Olha da riba o pégo turbulento.

Na mente, naquela hora ainda esquiva,
Entrei a contemplar de novo o espaço
Que não deixou jamais pessoa viva.

§

trad. Barão da Villa Barra. [1888]
em: A Divina Comédia. Pradense, 2010.

Da minha vida em meio do caminho,
Tendo perdido o rumo verdadeiro,
Em uma selva escura dei comigo.

Ah! Como é árduo descrever qual era
Áspera, brava, espessa de tal modo,
Que só a ideia me renova o susto!

Foi tal, que é pouco mais pungente a morte;
Mas por amor do bem aí achado,
narrarei o que mais por mim foi visto.

Não sei dizer como me entrei por ela;
Pois tão tomado então de sono estava,
Que abandonei a senda em que seguia.

De uma colina eu atingira a base,
Onde o seu termo tinha aquele vale,
Que de terror me confrangera o peito.

Notei, alçando os olhos, que a encosta
Já douravam os raios do planeta,
Que a reta estrada a todos indigita.

Serenou-se-me um pouco a atroz procela,
Que no largo do peito a noite inteira
Angustioso sossobro me causara.

O náufrago depois que a praia ganha,
Arquejando, ofegante volve os olhos,
Os transpostos abismos contemplando.

Assim o meu espírito inda esquivo
Pôs-se a mirar de novo aquele passo
Com vida por ninguém jamais vadeado.

§

trad. Xavier Pinheiro. [1888]
em: Divina Comédia, vol. I. W. M. Jackson, 1948, p. 5.

Da nossa vida, em meio da jornada,
Achei-me numa selva tenebrosa,
Tendo perdido a verdadeira estrada.

Dizer qual era é cousa tão penosa,
Desta brava espessura a asperidade,
Que a memória a relembra inda cuidosa.

Na morte há pouco mais de acerbidade;
Mas para o bem narrar lá deparado
De outras cousas que vi, direi verdade.

Contar não posso como tinha entrado;
Tanto o sono os sentidos me tomara,
Quando hei o bom caminho abandonado.

Depois que a uma colina me cercara,
Onde ia o vale escuro terminando,
Que pavor tão profundo me causara.

Ao alto olhei, e já, de luz banhando,
Vi-lhe estar às espaldas o planeta,
Que, certo, em toda parte vai guiando.

Então o assombro um tanto se aquieta,
Que do peito no lago perdurava,
Naquela noite atribulada, inquieta.

E como quem o anélito esgotava
Sobre as ondas, já salvo, inda medroso
Olha o mar perigoso em que lutava,

O meu ânimo assim, que treme ansioso,
Volveu-se a remirar vencido o espaço
Que homem vivo jamais passou ditoso.

§

trad. João Trentino Ziller. [1953]
em: Divina Comédia. Ateliê, 2011, p. 82-83.

A meia idade da terrena vida,
perdido achei-me numa selva escura,
a senda certa estando já perdida.

Quanto, dizer qual era, é cousa dura,
esta selva selvagem rude e forte,
que medo infunde à mente mais segura!

Acre é tanto que pouco mais é morte.
Porém das outras cousas falarei,
e o bem direi que nela achei por sorte.

Ignoro como na floresta entrei:
com tanto sono estava em meu roteiro,
que o rumo certo e reto abandonei.

Logo, porém, que ao pé cheguei do outeiro,
onde se acaba o triste vale escuro
que de medo me enchera por inteiro,

a vista ergui e o vi do raio puro
da luz coberto do planeta lindo
que a todos guia com poder seguro.

Do coração o medo ia sumindo,
que pela noite adentro me vencera
e fora minhas forças consumindo.

Qual náufrago, depois de luta fera,
tendo alcançado a suspirada meta,
o mar revolto incerto considera,

assim minh’alma, pensativa, inquieta,
a contemplar virou-se o rude passo
que não deixou jamais pessoa ereta.

§

trad. José V. de Pina Martins. [1972]
em: Dante: Gigantes da Literatura Universal. Editorial Verbo, 1972, p. 57-58.

No meio do caminho desta vida
eu me encontrei por uma selva obscura
porque a direita via era perdida.

Dizer qual era é coisa muito dura
esta selva selvagem, áspera e forte
que só lembrá-la o pavor renova!

Tanto amarga que pouco é mais a morte;
mas para falar do bem que lá encontrei,
de outras coisas direi que descobri.

Não sei contar como é que eu lá entrei,
tão grande sono tinha quando mesmo
o caminho veraz abandonei.

Depois de ter chegado ao pé do outeiro
onde aquele vale escuro terminava
que do medo meu peito compungia,

olhei ao alto e vi sua vertente
vestido já dos raios luminosos
do sol que nos aclara toda a estrada.

Então o medo um pouco se aquietou
que no lago do peito me durara
a noite que passei em tanta dor.

E como quem sem fôlego e com afã
fosse salvo das ondas junto à margem
e olha para o mar que o afrontara,

o meu ânimo assim, que inda fugia,
voltou-se a remirar atrás o espaço
que jamais homem vivo atravessou.

§

trad. Cristiano Martins. [1976]
em: A Divina Comédia, 5ª ed, vol. I. Itatiaia, 1989, p. 101-102.

A meio caminho desta vida
achei-me a errar por uma selva escura,
longe da boa via, então perdida.

Ah! Mostrar qual a vi é empresa dura,
essa selva selvagem, densa e forte,
que ao relembrá-la a mente se tortura!

Ela era amarga, quase como a morte!
Para falar do bem que ali achei,
de outras coisas direi, de vária sorte,

que se passaram. Como entrei, não sei;
era cheio de sono àquele instante
em que da estrada real me desviei.

Chegando ao pé de uma colina, adiante,
lá onde a triste landa era acabada,
que me enchera de horror o peito arfante,

olhei para o alto e vi iluminada
a sua encosta aos raios do planeta
que a todos mostra o rumo em cada estrada.

Um pouco a onda do medo foi quieta
que de meu peito no imo se agitara
durante a noite de aflição secreta.

E como aquele a quem já o sopro para,
saindo da água à praia apetecida,
volta-se, fita o pélago, e repara

― assim, a alma em torpor, naquela lida,
voltei-me a remirar, atrás, o passo
de que jamais saiu alguém com vida.

§

trad. Augusto de Campos. [1986]
em: O Anticrítico. Cia das Letras, 1986, p. 20-23.
depois, o Canto I completo, em Inveção, Arx, 2003, p. 192-193.

No meio do caminho desta vida
me vi perdido numa selva escura,
solitário, sem sol e sem saída.

Ah, como armar no ar uma figura
desta selva selvagem, dura, forte,
que, só de eu a pensar, me desfigura?

É quase tão amargo como a morte;
mas para expor o bem que eu encontrei,
outros dados darei da minha sorte.

Não me recordo ao certo como entrei,
tomado de uma sonolência estranha,
quando a vera vereda abandonei.

Sei que cheguei ao pé de uma montanha,
lá onde aquele vale se extinguia,
que me deixara em solidão tamanha,

e vi que o ombro do monte aparecia
vestido já dos raios do planeta
que a toda gente pela estrada guia.

Então a angústia se calou, secreta,
lá no lago do peito onde imergira
a noite que tomou minha alma inquieta;

e como o náufrago, depois que aspira
o ar, abraçado à areia, redivivo,
vira-se ao mar e longamente mira,

o meu ânimo, ainda fugitivo,
voltou a contemplar aquele espaço
que nunca ultrapassou um homem vivo.

§

trad. Vasco Graça Moura. [1995]
em: A Divina Comédia. Landmark, 2005, p. 30-31.

No meio do caminho em nossa vida,
eu me encontrei por uma selva escura
porque a direita via era perdida.

Ah, só dizer o que era é cousa dura
esta selva selvagem, aspra e forte,
que de temor renova à mente a agrura!

Tão amarga é, que pouco mais é morte;
mas, por tratar do bem que eu nela achei,
direi mais cousas vistas de tal sorte.

Nem saberei dizer como é que entrei,
tão grande era o meu sono no momento
em que a via veraz abandonei.

Mas indo ao pé de um monte com assento
lá onde terminava aquele val’
que o coração me enchera de tormento,

alto lhe vi nos ombros o cendal
vestido já dos raios do planeta
que leva à recta via cada qual.

Então o medo um pouco já se aquieta
que no lago do peito me durava
a noite que passei de pena inquieta.

E como quem a respirar arfava,
escapando do pélago à deriva,
e as águas perigosas remirava,

assim minh’alma, ainda fugitiva,
volveu a olhar atrás aquele passo
em que pessoa alguma ficou viva.

§

trad. Italo Eugenio Maro. [1998]
em: A Divina Comédia. 34, 2009, p. 33-34.

A meio caminhar de nossa vida
fui me encontrar em uma selva escura:
estava a reta minha via perdida.

Ah! que a tarefa de narrar é dura
essa selva selvagem, rude e forte,
que volve o medo à mente que a figura.

De tão amarga, pouco mais lhe é a morte,
mas, pra tratar do bem que enfim lá achei,
direi do mais que me guardava a sorte.

Como lá fui parar dizer não sei;
tão tolhido de sono me encontrava,
que a verdadeira via abandonei.

Mas quando ao pé de um monte eu já chegava,
tendo o fim desse vale à minha frente,
que o coração de medo me cerrava,

olhei pra o alto e vi a sua vertente
vestida já dos raios do planeta
que certo guia por toda estrada a gente.

Tornou-se a minha angústia então mais quieta
que no lago do coração guardava
toda essa noite de pavor repleta.

E como aquele que ofegando vara
o mar bravio e, da praia atingida,
volta-se à onda perigosa, e a encara,

minha mente, nem bem de lá fugida,
voltou-se a remirar o horrendo passo
que pessoa alguma já deixou com vida.

§

trad. Jorge Wanderley. [2004]
em: A Divina Comédia, Inferno. Abril, 2010, p. 47-48.

No meio do caminho desta vida
desencontrei-me numa selva escura
que do rumo direito vi perdida.

Ah, quanto o descrevê-la é empresa dura,
esta selva selvagem, acre e forte
e que o pavor no pensamento apura!

Tal amargor, só há maior na morte.
Mas quanto ao Bem que ali eu encontrei,
outras coisas direi de minha sorte.

Não posso relembrar bem como entrei,
tão sonolento estava, àquele ponto
em que a via veraz abandonei.

Depois, ao pé de uma colina, pronto
surgida onde findava o vale aberto
que o medo ao coração trouxe em confronto,

olhei-a no alto e vi seus ombros, perto,
vestidos já dos raios, luz completa,
do planeta que aponta o rumo certo.

Calmou-se o medo desta noite inquieta
que o lago-coração, quase em trespasse,
guardava e que eu passei, de horror repleta.

E como o que sem fôlego escapasse
do mar à praia e em hora pungitiva
à onda perigosa ainda encarasse,

assim minh’alma, que ia fugitiva,
voltou-se pra trás, olhando o espaço
de onde jamais voltou pessoa viva.

§

trad. Luis Dolhnikoff. [2012]
em: A modernidade de Dante via tradução. Sibila, 2012. Disponível aqui.

No meio do caminho desta vida
Me deparei com uma selva escura
Quando a via correta vi perdida.

Ah, dizer como era, é uma coisa dura,
Essa selva selvagem, rude e forte,
Que recordar renova minha paúra!

Tão amarga, que pouco mais é a morte.
Mas para tratar do bem que encontrei,
Falarei de outras coisas, de outra sorte.

Não sei bem dizer como ali entrei,
Tamanho era o meu sono no trajeto
Em que o caminho certo abandonei.

Após chegar aos pés de um monte perto,
Lá onde terminava essa valada
Que de medo o coração tinha repleto,

Olhei para o alto e vi suas espáduas
Vestidas pelos raios do planeta
Que retos nos conduz em cada estrada.

Então o medo um pouco se aquieta
No meu coração, onde insidiosa
É a noite que passei em tal tormenta.

Como quem, a respiração ansiosa,
Depois que na praia do mar se livra,
Volta-se e olha a água perigosa,

Minha coragem, ainda fugitiva,
Virou-se para olhar aquele passo
Que não deixou jamais pessoa viva.

§

trad. Eugênio Vinci de Moraes. [2016]
em: A Divina Comédia, L&PM. Disponível no preview, aqui.

[1] No meio do caminho desta vida me vi numa selva escura, onde me perdi da verdadeira via. Ah, mas como é duro falar desta selva selvagem, que, só de relembrá-la, traz-me de volta o pavor que lá senti. Tão amarga era que só à morte se compara. Mas para tratar do bem que lá vi, direi de outras coisas que lá encontrei.

[10] Não sei muito bem como entrei, tanto sono eu sentia no ponto onde me perdi do reto caminho. Porém, depois que cheguei ao pé de uma colina, ali onde terminava o vale que havia trespassado de pavor meu coração, olhei para o alto e vi suas encostas já vestidas dos raios do Sol, planeta que guia a todos retamente pelas veredas que trilhamos. Então apaziguou-se o medo que senti, no lago do coração, nessa noite em que passei tão aflito.

[22] E como aquele que, como um náufrago, ofegante, chega à praia e se volta para encarar as águas traiçoeiras, assim minha alma, que ainda se afastava, voltou-se para olhar o lugar do qual homem algum jamais saiu vivo.

§

trad. Matheus Mavericco. [2016]

No meio do caminho da existência,
assim que da direita estrada evado,
perdido achei-me numa selva densa.

Ah, dizer o que era é fardo pesado,
selva selvagem tão rija e severa
que, se o penso, o pavor é reinstaurado!

Um pouco mais é morte, amarga que era;
mas, p’ra que diga o bem que achei ali,
cantarei de outra sorte de matéria.

Não sei bem dizer como eu a invadi,
tamanho sono eu tinha nesse ponto
quando da estrada certa eu me perdi.

Mas, de pé sobre um monte alto, defronto
as fronteiras daquela triste grota
diante da qual então eu me amedronto,

e a luz em seus ombros meu olho nota,
revestindo-os co’os raios do planeta
que guia os outros para a justa rota.

Logo depois meu pânico se aquieta,
e a noite que passei, com tal desgosto,
ao lago de minh’alma ainda afeta.

E como quem, cansado e indisposto,
salvo do pélago ao chegar na areia,
ao mar bravio então revolve o rosto,

a isto meu ser que foge se baseia,
no que retorno a remirar o rumo
no qual, vivo, ninguém jamais passeia.

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2 comentários sobre “A Commedia de Dante, por Matheus Mavericco

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