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a serpentina nunca se desenrola até o fim, de Heyk Pimenta, por Vinicius Varela

eu li um poema. um poema que me atinge cheio os ossos como uma onda num domingo de ressaca – e é o amor esta ressaca. é o homem com seus cabelos vermelhos pegados na estante; o uivo na madrugada, o sangue que me cobre o corpo pronto pra perícia, o corpo do homem. o corpo do homem é o corpo do poema. é o poema.

então chega lá o v. varela – esse nome que estala feito muçarela, mussarela, mozzarela, vegarela, beija ela, varela, a poesia, beija! – e v. varela chega chegando e beija a poesia de pimenta [que já floresceu aqui no escamandro]. e é isto, a semana começando, corpoemas nos esperando e sim, sim, em hellcife e quiça na fodaleza segunda também é um dia lindo – pra ler & querer ler: um dia, a poesia de heyk pimenta e a teorética de vinicius varela.

nina rizzi

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1-heyk-pimenta-retrato

um livro de desterros

qual é, Heyk. não tive tempo de falar pessoalmente sobre teu livro(a serpentina nunca se desenrola até o fim). terminei de ler há algumas semanas. tive uma impressão positiva. achei a sua escolha vocabular curiosa, sempre uma palavra diferente da que eu esperava que você escolhesse. como “tiririca”,  “losna”, “pompons pink”, “flor fodida”, “titicas”. tem um rigor nas tuas palavras e ao mesmo tempo algo de informal e de lúdico. frases em um estilo mais alto e outras em um estilo mais descompromissado como quando você diz “meu peito esticado de burrice” e “complexo de vira-lata” que provoca uma sensação de meio termo entre o poético e o prosaico. me lembrou tanto o Ferreira Gullar, no poema sujo, pela espacialidade da palavra no papel; quanto o João Cabral de Melo Neto no rigor e na escolha de palavras que colocam o homem numa qualidade de construção, paisagem, objeto, como nos versos “na argamassa da língua” e “perdeu as carenagens”. teu livro é de alguma maneira, sobretudo, a saga dos VAGÕES situada na segunda parte(MONTUROS), dadas as devidas medidas, uma releitura mineira de “Morte e Vida Severina”, do João Cabral de Melo Neto. o homem que você traça se parece mais a um prédio ou uma máquina. também acontece o contrário, a cidade é viva como no poema VIADUTO DA BENEFICÊNCIA, em que o “viaduto arfa” e o “calçamento polido nos pés dos transeuntes/ não é heróico/ é de menos medo”  mostram essa hibridização da cidade em humana e do humano em pedra/asfalto/coisa inanimada. afinal, “por não ser utópico” ele “é curvo/ doente de levar doentes”. tudo está doente, a cidade e os homens. o asfalto e a pele. o interior das estruturas de concreto e os órgãos internos. a cidade que você traça representa justamente a distopía. Como em outro poema  A CIDADE AMARRADA À CINTURA em que  “o inverno seria sempre o mesmo/ não fosse o amassar as solas/ ao atravessar a passarela”, sempre esse movimento em que o homem e a cidade se chocam, se gastam como placas tectónicas. mas, se há movimento, há caminho, há vida. se é possível amassar as solas no asfalto da cidade, sobreviveremos ao inverno. e nesse movimento “que farei hoje com mais pesar/ levando a cidade demolida/ para dentro do museu”, o homem anda carregando entulhos, fragmentos da ruína. a cidade destrói o homem por dentro, cada rompimento de sua arquitetura é um ato de violência contra o corpo do homem, consequentemente contra sua vivência. cada recapeamento do asfalto é uma cicatriz na pele do homem. chacoalham nele demolições ao igual que vísceras. vísceras de pedra. o homem se torna um portador de destruições, as memórias perdidas da cidade habitando nele. “as varandas interditas/ e a cidade amarrada à cintura/ não é possível despejá-la”. a cidade é um hospedeiro no homem, um inquilino e não o contrário. se o homem fez a cidade com as próprias mãos, ela na verdade é algo que sempre esteve dentro dele, criada por e a partir dele. outra impressão que tive do seu livro é que ele tem uma voz que logo se percebe não ser a de um carioca e não falo isso de maneira pejorativa. acho muito curioso, na verdade. não sei o que seria escrever como um carioca, mas as experiências vividas pelo seu eu-lírico, principalmente na segunda parte do livro MONTUROS, da viagem, do acompanhamento do trem, das paisagens, desterritorializa esse eu-lírico. parece uma coisa meio retirante, a maneira como descreve as paisagens e essa busca de algo que sempre está no horizonte, mas o horizonte é infinito e essa coisa nunca chega. essa vivência da brutalidade da estrada e da dureza das coisas parece mais nordestina, no teu caso mineira, já que Minas tem divisa com o sertão. acho que é um livro pensado. os poemas tem todos uma coisa além, que você percebe que não conseguiu captar completamente, ainda precisa ler de novo, deixar dormir o livro. alguns versos que não marcam tanto são apenas o fòlego que se toma para fazer a linguagem suspirar, esses suspiros são próprios da poesia. queria compartilhar essas impressões, assim, de maneira informal mesmo, dar um feedback sem muita pompa. escrito em minúscula para que não pareça nada muito sério. sobre poesia não se fala muito sério. te mando o texto escrito como saiu. é isso rapaz.

tempos depois faço uma releitura do livro do Heyk

a volta ao livro e ao texto me surpreenderam. quando deixamos os livros e os textos dormirem, parece que a linguagem sonha e ao despertá-la encontramos novos olhares, novas impressões. quis manter o primeiro texto que te mandei e que espelha essa influência do tempo nas palavras e agora falar um pouco mais detalhadamente do seu livro, mantendo a mesma linha de não-especialista, ampliando e exemplificando coisas que disse anteriormente.

acho que teu livro tem três temas centrais: a casa, a cidade e o desterro. nesse sentido, o desterro perpassa os outros dois temas. esses três temas estão distrubuidos ao longo do livro não necessariamente na divisão que você deu a ele, estão diluídos. por isso O VIADUTO DA BENEFICÊNCIA, que está na segunda parte MONTUROS dialóga com o poema A CIDADE AMARRADA À CINTURA que fica na terceira parte VEIOS. mas com certeza a casa está muito mais presente em CASULO, o desterro em MONTUROS, e VEIOS é uma fusão da casa, da cidade e do desterro. o desterro na verdade, me parece o sentimento geral do livro. um desterro tão grande que faz com que o eu-lírico se sinta desterrado de seu corpo, desterrado da casa e desterrado na cidade. ou seja, houve um saque. a voz do livro é de alguém que foi saqueado, subtraído de alguma maneira desde o nascimento. seu estar no mundo é uma permanente diáspora/exílio/expatriação. que é muitas vezes o sentimento do poeta. o ser poeta é essa perda da pátria e ao mesmo tempo o ganho dela. a pátria do poeta é a língua, mas para que o seja, ele perde de alguma maneira a materialidade e, sobretudo, a naturalidade, a nacionalidade. perde o corpo, perde a casa, perde a cidade. seu nome é desterro. é, então, a poesia justamente essa “serpentina que nunca se desenrola até o fim” que o poeta tem como artifício e é para tentar desenrolá-la inutilmente até o final que o poeta continua escrevendo.

em CASULO é demonstrada a gestação da casa e na casa. uma casa que já não conseguia suportar a vontade de mundo. assim o livro abre com o verso “hoje não tem beleza nenhuma na casa”, porque a casa nem sempre é segurança, aconchego para os olhos. nem sempre há amor dentro da casa e justamente “agora que nossos piercings se encaixariam” as coisas desandam, desabam. “agora que minha casa é casa/ cabe você mil vezes/ e tem lugar pras suas crenças nas revistas de decoração”, logo “agora que o desespero já não é estilo”, a casa deixou de ser um lar. “os bichos da burocracia da casa/ apertando a carícia do peito contra/ a argamassa da língua”. a língua vai se tornando sólida, edificando e protege com toda sua dureza “meu figado de papel”. a poesia de um poeta pode ser seu figado de papel, assim como para Aquiles o calcanhar era fraqueza, mas a poesia também é casa. e, mesmo que “a casa perca as esperanças” e “só queria ter mãos/ para cobrir o rosto”, na poesia “toda cigarra é duas”. é preciso sair da casa para ouvir esse canto de cigarras multiplicadas. porque ninguém quer ser essa cigarra “que não viu as árvores de cima”.

em MONTUROS, já encontramos na primeira página a ‘Porcelana’ e isso tem algo de absurdo. tem algo mais triste do que encontrar “Porcelana” nos MONTUROS, isto é, no lixão? quem mais do que o poeta pode se ressentir do abandono da porcelana em um monturo, completamente descartada e esquecida? por isso essa escrita, “essa dureza não é força/ é deixar no balcão os papéis de garantia”. ao sair da casa, isto é, do CASULO, é preciso passar pelos MONTUROS para chegar à cidade e “segurar com o peito/ a tinta viva dos caminhões/ os arrebites do metrô” e cada vez fica mais claro que a cidade, o mundo, “é o continente que reza para explodir e ser ilha e ilhas”, mas “para isso há mar”. o consolo do poeta é que contra tudo “isso há mar” ou contra tudo isso amar. as duas possibilidades de leitura do último verso são promessas que a poesia oferece como esperança. logo depois, deparamos com o VIADUTO DA BENEFICÊNCIA, “o viaduto arfa” sustentando a plenos pulmões a correria da cidade, o peso da cidade, a poluição da cidade. “seu calçamento polido nos pés dos transeuntes” ainda “não é heróico/ é de menos medo” apenas. a cidade parece ao mesmo tempo a agressora e a vítima. porque destrói o homem e porque luta contra si mesma e contra o homem para se manter. “por não ser utópico”, o viaduto ou o homem? ou nenhum dos dois? a poesia segue unicamente “porque o metal/ nunca vencerá o asfalto”, nas palavras do Heyk, e porque uma flor sim, “Uma flor nasceu na rua!”, “Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”, nas palavras de Drummond. e mesmo que os caminhões nos atropelem, nos matem e nos impessam de atravessar as ruas “suas rodas/ são o motivo primeiro do alvorecer”.

a parte em que eu digo que sua experiência não vem de um carioca, Heyk, é a saga dos VAGÕES(I ao VII) fundalmentalmente. em que, me parece, é narrado todo esse percurso do retirante, do rapaz que saiu de Minas(me perdoe recorrer a dados biográficos para falar de tua poesia, isso não deve contar, estou pecando) e foi vendo gradativamente toda a decadência da malha ferroviária e na paisagem da cidade. vendo as letras MRS “sendo parte do cansaço/ do esquecimento/ dos vagões de minério/ que envelhecem” como “velhos que já não têm motivos”, “com os olhinhos diminuindo/ virando tartaruguinhas” e “tornando-se invisíveis”. os trens como “velhos que se desimportam/ deixam de ter passado/ esperam a erosão do orvalho” e são testemunhas dos fiéis que “tentando dar com tuba e caixa/ alguma alegria às velas amarelas” da procissão do desterro, fracassam em sua errância. e medem com os passos “o espaço que uma rodovia merece no meio da mata atlântica”, de uma BR-101 que “é estreita como a liberdade”. porque os vagões como as pessoas “são sempre abandonados/ e não podem ser esquecidos”. a poesia me parece uma tentativa de dar corda na vitrola e poder cruzar “o vinil réptil do mar”. assim como “os ciganos acampam para/ descampar”, “os sem terra acampam/ para ficar/ porque ficar é o sal do gado” e nesse sentido o poeta escreve para ficar também, porque a palavra é a raiz do poeta. e, ao escrever um poema, a experiência transforma esse desterro, esse ostracismo. só assim podemos ver que os vagões parecem destinados a levar o retirante para o campo de concentração do desterro ou para a estação da diáspora “mas não/  os vagões têm porte marcial/ são robustos como abraços” apenas. a poesia sensibiliza os vagões.

e finalmente os VEIOS de água que dão de beber à seca daqueles que vem do sertão de Minas ou as veias que revelam o que corre no corpo do poeta assim como Eduardo Galeano abriu as veias da América Latina. nesta parte se retomam alguns dos temas. você volta à casa “a casa de palha e plantas/ onde os livros adoeciam/ não cabiam mais na pele” onde as maritacas se encontravam com os bicos “curvos da miséria de não fazerem música”. para falar desse lugar distópico em que vivemos, onde o tempo “[trapezista de circo pobre/ o picadeiro de titicas]/ paira entre as árvores/ com as pernas cruzadas”. fala também do colchão onde “está 10 vezes meu volume” onde parece “o tempo pintasse/ em mãos alvas/ algum envelhecimento/ ou apagasse/ cada vez mais branco/ o amor”. da dificuldade da vida de casado na cidade “mas é você quem me come e guarda/ meus restos na mochila para depois” levando seus restos pelas ruas como um forma de se virar e resistir ao peso de uma CIDADE AMARRADA À CINTURA. afinal “nada tinha dado certo antes/ nem qualquer notícia/ no e-mail/ nenhum tapa nas costas/ de siga em frente poeta/ menino” e esse é um bom motivo para escrever um livro. “o vento/ é o mote dos dentes”, e a serpentina é o mote dos dedos.

Ps: você prediu que eu selecionasse três poemas centrais do livro, destaco quatro que me parece resumem bem diversas coisas que eu falei, são eles VIADUTO DA BENEFICÊNCIA, VAGÕES(II – o ferro carregando ferro que são), A CIDADE AMARRADA À CINTURA e 464.

Vinicius Varela

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