poesia, tradução

Barbara Guest (1920-2006), por Guilherme Gonçalves

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Barbara Guest foi uma poeta, ensaísta e romancista norte-americana, cuja obra corta as últimas quatro décadas do século XX. No final dos anos 1950, participou da cena-movimento da New York School, sendo a única poeta, mulher, associada às publicações do grupo. Colaborou com diversas revistas, como a Art News, através de artigos sobre pintura e poesia moderna, nos quais discute a influência do expressionismo abstrato e propõe uma poesia ligada ao imagismo e à reflexividade da linguagem, com ênfase sobre a noção de superfície, tomada das artes plásticas.

Nieves Alberola Crespo, professora de estudos ingleses da Universitat Jaume I, sugere que os versos de Guest implicam uma “respiração rápida”, devido à intensidade do ritmo e à captura da expectativa por meio da tensão entre narrativa e abertura imagética. A poeta Juliana Spahr observa o equilíbrio entre a força expressiva e a dilatação da linguagem, que fazem de Guest uma poeta lírica e uma esteta minuciosa. Este equilíbrio situaria sua escrita em um gesto de renovação tanto do subjetivismo da vertente confessional como da compressão simbolista dos discípulos do new criticism

Atravessando gêneros como poesia, narrativa, teatro, ensaio e biografia, sua obra se caracteriza pelo borramento das fronteiras entre os campos em direção a uma escrita integral. São alguns dos títulos: I Ching: Poems and Lithographs, The Tuerler Losses, Fair Realism, Defensive Rapture, Stripped Tales, Rocks on a Platter: Notes on Literature, Seeking Air (romance) e Herself Defined: The Poet H. D. and Her Word (biografia).     

Alguns de seus poemas, como é o caso de Parachutes my love could carry us higher, tornaram-se populares entre jovens leitores de língua inglesa e frequentam o repertório de riffs dos encontros de leitura, bem como as cartas e diários daqueles que, em sua expressão, caem em amor.

Parachutes my love could carry us higher e Safe flights pertencem a seu primeiro livro, The Location of Things (1960). Invisible Architecture compõe os escritos desbordados de Forces of Imagination: Writing on Writing (2003).

Referências:

American women poets of the 21st Century: where lyric meets language / edit. por Claudia Rankine e Juliana Spahr. Middletown: Wesleyan University Press, 2002.          

Alberola Crespo, María Nieves. La Escuela de Nueva York, John Ashbery y la nueva poética americana. Castelló de la Plana: Publicacions de la Universitat Jaume I, 2000.

https://www.poetryfoundation.org/poems-and-poets/poets/detail/barbara-guest

Guilherme Gonçalves 

Parachutes, My Love, Could Carry Us Higher

I just said I didn’t know
And now you are holding me
In your arms,
How kind.
Parachutes, my love, could carry us higher.
Yet around the net I am floating
Pink and pale blue fish are caught in it,
They are beautiful,
But they are not good for eating.
Parachutes, my love, could carry us higher
Than this mid-air in which we tremble,
Having exercised our arms in swimming,
Now the suspension, you say,
Is exquisite. I do not know.
There is coral below the surface,
There is sand, and berries
Like pomegranates grow.
This wide net, I am treading water
Near it, bubbles are rising and salt
Drying on my lashes, yet I am no nearer
Air than water. I am closer to you
Than land and I am in a stranger ocean
Than I wished.

(em The Location of Things, 1960).

Paraquedas, meu amor, poderia nos levar mais alto

Eu disse que não sabia
E agora você me segura
Em seus braços,
Que gentil.
Paraquedas, meu amor, poderia nos levar mais alto.
Mas em volta da rede flutuo,
Peixes rosas e azul-claro caem nela,
Eles são bonitos,
Mas não são bons para comer.
Paraquedas, meu amor, poderia nos levar mais alto
Que este meio-ar em que trememos,
Tendo exercitado nossos braços nadando,
Agora a suspensão, você diz,
É delicada. Eu não sei.
Tem coral debaixo da superfície,
Tem areia, e bagas
Crescem como romãs.
Esta grande rede, estou pisando água
Perto dela, bolhas sobem e sal
Secando meus cílios, e não estou mais próxima
Do ar que da água. Estou mais perto de você
Que a terra e num oceano mais estranho
Do que eu quis.

§

Safe Flights

To no longer like the taste of whisky
This is saying also no to you who are
A goldfinch in the breeze,
To no longer wish winter to have explanations
To lace your shoes in the snow
With no need to remember,
To no longer pull the two blankets
Over your shoulders, to no longer feel the cold,
To no longer pretend in the flower
There is a secret, or in the earth a tomb,
And no longer water on stone hurting the ear,
Making those five noises of thunder
And you tremble no longer.
To no longer travel over mountains,
Over small farms
No longer the weather changing and the atmosphere
Causing delicate breaks where the nerves confuse,
To no longer have your name shouted
And your birthmark again described,
To no longer fear where the rapids break
A miniature rock under your canoe,
To no longer repeat the mirror is water,
The house is a burden to the weak cyclone,
You are under a tent where promises perform
And the ring you grasp as an aerialist
Glides, no longer.

(In: The Location of Things, 1960).

Voos seguros

Não mais gostar do sabor do uísque
Isto está dizendo não também para você que é
Um pintassilgo na brisa,
Não mais esperar do inverno explicações
Amarrar seus tênis na neve
Sem precisar lembrar,
Não mais puxar os dois cobertores
Sobre seus ombros, não mais sentir o frio,
Não mais fingir na flor
Um segredo, ou na terra um túmulo,
E não mais água em pedra ferindo a orelha,
Fazendo aqueles cinco sons de trovão
E você não mais tremer.
Não mais viajar sobre montanhas,
Sobre pequenas fazendas
Não mais o tempo virando e a atmosfera
Causando quebras delicadas onde os nervos confundem,
Não mais ter seu nome berrado
E sua marca de nascença descrita novamente,
Não mais temer onde as corredeiras quebram
Uma pedra miniatura debaixo da sua canoa,
Não mais repetir o espelho é agua,
A casa é um fardo para o ciclone sem força,
Você está debaixo de uma tenda onde promessas encenam
E o anel que você agarra como trapezista
Desliza, não mais.

(In: The Location of Things, 1960).

§

Invisible Architecture

                 There is an invisible architecture often supporting
   the surface of the poem, interrupting the progress of the poem. It reaches
into the poem
in search for an identity with the poem,

its object is to possess the poem for a brief time, even as an apparition appears. An invisible architecture upholds the poem while allowing a moment of relaxation for the unconscious. A  period of emotional suggestion,     
  of lapse,
of reliance on the conscious substitute words pushed toward the bridge of the architecture.     An architecture in the period before the poem finds an exact form and vocabulary—,

   before the visible appearance of the poem on the page and the invisible approach to its composition. Reaching out to develop the poem there are interruptions, some apparently for no reason—something else is happening   the poet has no control—the poem begins to quiver, to hesitate, to become insubstantial   the desire of poetry   to elevate itself, to become stronger. The poem is fragile. It needs to reach through the armed vehicle of the poem,

                                        to loosen the armed hand.

Losing the arrogance of dominion over the poem to an invisible hand, the poet campaigns for a passage over which the poet has control. Yet the unstableness of the poem is important.
                Also the frequent lapses of control of the poem.
The writer only slowly retains power over the poem, physical power, when the poem breaks away from the authority of the invisible architecture.

This invisible authority may be the unconscious that dwells on the lower level, in a substratum beneath the surface of the poem and possesses its own reference. A fluidity only enters the poem when it becomes more openly aware of itself.

By whom or by what agency is the behavior of the poem suggested, by what invisible architecture, we ask, is the poem developed. The Surrealists taught us to wander freely on the page, releasing mechanical birds, if we so desire, to nest in the invisible handwriting of composition. There is always something within poetry that desires the invisible.

The desire of the poet to control. This control was earlier destructive to the interior of the poem, to its infrastructure. There is something deliberate about this practice of control by the conscious. It includes the question that is undefined, the behavior of the poem. By whom or by what agency is this decided, by what invisible architecture is the poem developed?

(In: Forçes of Imagination: Writing on Writing, 2002).

Arquitetura Invisível

Existe uma arquitetura invisível frequentemente sustentando
a superfície do poema, interrompendo o progresso do poema. Ela chega
no poema
em busca de uma identidade com o poema,

seu objetivo é possuir o poema por um tempo breve, assim como uma aparição
aparece. Uma arquitetura invisível suspende o poema permitindo um momento de
relaxamento para o inconsciente. Um período de sugestão emocional, de
lapso,
de confiança no substituto consciente que as palavras empurraram pela ponte da arquitetura. Uma arquitetura do período anterior ao poema achar exatos
forma e vocabulários-,

antes da aparência visível do poema na página e da invisível entrada em sua composição. No desenvolvimento do poema há interrupções, algumas sem razão aparente – outra coisa está acontecendo a poeta não tem controle – o poema começa a tremer, a hesitar, a tornar insubstancial o desejo da poesia de elevar-se, de tornar-se mais forte. O poema é frágil. Ele precisa atravessar o veículo armado do poema,

para liberar a mão armada.

Perdendo a arrogância de domínio do poema para uma mão invisível, x poeta faz campanha por uma passagem sobre a qual x poeta tem controle. Mas a instabilidade do poema é importante.
Também os constantes lapsos de controle do poema.
X escritorx apenas retém, lentamente, poder sobre o poema, poder físico, quando o poema rompe com a autoridade da arquitetura invisível.
Esta autoridade invisível pode ser o inconsciente que habita o nível mais baixo, em um substrato sob a superfície do poema e possui sua própria referência. A fluidez entra o poema apenas quando ele se torna mais abertamente consciente de si.

Por quem ou por que agência o comportamento do poema é sugerido, por que arquitetura invisível, perguntamos, o poema é desenvolvido. Os surrealistas nos ensinaram a vagar livremente pela página, libertando pássaros mecânicos, se assim desejarmos, para aninhar na caligrafia invisível da composição. Tem sempre algo dentro da poesia que deseja o invisível.

O desejo dx poeta por controle. Este controle era antes destrutivo para o interior do poema, para sua infraestrutura. Tem algo deliberado sobre essa prática de controle pela consciência. Ela inclui a questão que é indefinida, o comportamento do poema. Por quem ou por que agência isto se decide, por que arquitetura invisível o poema é desenvolvido?

* * *

Guilherme Gonçalves (1983) é professor, pesquisador e músico. Doutorando em Ciências Sociais pela PUC-Rio, com pesquisa em sociologia da arte. Atua como professor de escrita e ciências humanas em bibliotecas e centros culturais do Rio de Janeiro, junto da Oficina Experimental de Poesia e do projeto Turista Aprendiz.

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