poesia

Método Didoico, de Ricardo Domeneck

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manual para melodrama é o mais recente livro de ricardo domeneck, publicado pela editora 7letras, fazendo par com o também recente re-lançamento de cigarros na cama (poesia), pela luna parque. manual para melodrama é a primeira publicação em prosa do autor. uma parte deste livro, a primeira parte de “como reagir ao ser abandonado e substituído”, já foi publicado no suplemento pernambuco. trazemos agora a segunda parte, o “método didoico”, originalmente publicado como “método didoísta”.

 

sergio maciel

* * *

Como reagir ao ser abandonado e substituído
II – Método Didoico.

Eis aqui o Método Didoico, assim chamado pela honorária desta cadeira do dragão, Dido. Trata-se de um método com práticas e consequências diametralmente opostas às do Método Medeico: se a dramática medeica privilegia verbos de ação transitivos e diretos (como, por exemplo, matar e punir), a dramática didoica pode até usar os mesmos verbos, mas apenas reflexivos, e tende a privilegiar os intransitivos (como, por exemplo, sofrer e morrer). Para familiarizar-se com o nosso arquétipo nesta difícil arte que é a drama queenliness, recomenda-se a ópera de Henry Purcell, Dido and Aeneas (1688). Deve-se informar também que o Método Didoico parece ser mais popular e disseminado que o Método Medeico, mas não temos estatísticas oficiais para embasar esta opinião. Questão de costumes. Como cine-ilustração, escolhemos, entre várias possibilidades, prestigiar um exemplo nacional.

Como reagir ao ser abandonado e substituído: Método Didoico

Lição prática e ilustrativa de Geni, prostituta, esposa e madrasta-amante. Recomenda-se aqui ao estudante procurar a peça de Nelson Rodrigues, Toda nudez será castigada (1965), ou contemplar Darlene Glória no papel da personagem principal na filmagem de 1973 por Arnaldo Jabor para a peça.

II – Método Didoico.

§ – Se ele não mais aprecia a sua anatomia, que não reste em suas próprias entranhas órgão sobre órgão.

§ – Quando o olfato dele cansar-se inconsciente do seu cheiro e em seus receptáculos nervosos você passar de chaminé do aroma a fedor em exaustão, não há Chanel Nº 5 miraculoso bastante para salvá-la da solidão.

§ – Seus feromônios deserdaram, esta guerra você já perdeu. Puta que sofre putsch.

§ – Não há rodeios, pensando em você inventou-se o Mea Maxima Culpa, agora feche os seus punhos e leve-os repetidas vezes contra o peito a 50 km/h.

§ – Desabe e desmorone sem incomodá-lo com a poeira dos seus escombros.

§ – Peça a ele que a perdoe porque ele perde o apetite quando aparece você ao acaso, seus restos expostos nos restaurantes a quilo.

§ – Ele deixou de tocá-la porque sob as mãos dele você está já em rigor mortis, falta apenas completar o ciclo, deite-se e apodreça.

§ – Não, não se sobrevive a isso, subexiste-se.

§ – A você a concordata sempre, nunca o litígio.

§ – Finja que nesta loteria a perda é o maior dos prêmios, celebre o seu celeiro vazio em plena era das magras vacas.

§ – Só agora você entende aquele título, Perdoa-me por me traíres, que a aterrorizara por anos sem motivo aparente, e sorri então amarelíssimo.

§ – Você é uma cárie, pior que certa Carrie, a estranha, a esnobada no baile, sem obturações nem poderes paranormais para vingar-se, esvaindo-se em sangue menstrual pelos meses dos meses, seus ovos calados e não galados.

§ – É você o bode expiatório de si mesma.

§ – Em seu caso, SOS torna-se uma sigla para Save Our Sows, leitoa náufraga.

§ – Imolar-se para não o amolar.

§ – To beg or not to beg, that is the question.

§ – Na ausência dele, será obrigada a recorrer eternamente à manobra de Valsalva.

§ – Agora você sabe que nasceu para pedir desculpas, dar licença, desestorvar. Não ajudar e não atrapalhar.

§ – Cavalo dado, cavalo devolvido.

§ – Aos amigos impertinentes, diga: “Sou destas muletas que só dizem sim.”

§ – Contemple as substitutas recorrentes do seu emprego temporário, estagiária dos hormônios.

§ – Por algum tempo você convenceu-se que desta vez venceria, mas não é sequer Napoleão no inverno russo, você é a Lia de um Jacó disposto a trabalhar quatorze anos por Raquel.

§ – Queime-se na fogueira, extinção completa para deixar menos restos e sujeira que ele tenha que limpar, varrer.

§ – Vá agora feito pó apaixonado e sirva de fertilizante para ervas daninhas.

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poesia

Pedro Köberle

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Pedro Köberle vive em São Paulo. Traduz e escreve poemas, cursa Letras-Inglês na Universidade de São Paulo. Seu livro de estreia está previsto para o primeir0 semestre de 2017.

* * *

 sem título (aquário/câmara lúcida)

Os homens da chuva são homens da chuva
uma inversão de papéis para as flores – Todo
um ipê enorme pode ser uma polpa roxa
num frasco.

Os homens da chuva são homens claros
num campo de trigo e gesso e o céu um processo
químico e como seria esse nosso futuro
agrário

Se pudessemos parar por aqui
polir os copos, medir as superfícies d’água.
Os homens da chuva bebem
polpa roxa.

Excretar a vida pelos poros: ovas de: as meninas
que estão entre plantas falam plantas. Um
vozeirão obsceno cheio de folhas.

Eu teria um batizado para os bichos
todos filhotes dentro de uma bacia.
Um ritual para os melões e umas coroas
com cascas e flores de sal.
Bicho e mineral e fruta. Contentes consigo:
exatos.
………….Pelo meu corpo passa um tremor de corpo
a disposição das coisas sobre um eixo:
terra tornando a terra e chuva por chuva – uma ideia
de ordem
………….cozinhando no fundo duma garrafa:
um vento espesso. Os homens da chuva
são moças turvas.

Quanta gente num mundo assim
disposto.

§

Movimento

A montanha já parou de tremer
enquanto ainda tentamos juntar as partes
da cena. A ideia é juntar os pedaços
para que todos esqueçam do chão.

(A insuficiência dos debaixos
………..a insuficiência de fantasmas
………..de uma vasta falta de terra)

Feito isso precisamos lidar com as sobras.

A vertiginosa sobrepossibilidade das nuvens
como cada uma é para a outra um pedaço
e todas para nós uma subversão do céu.

É uma dança faminta essa de nuvem.

Nossas imemoriais anunciações madrepérola
não nos vêem aqui, nós fósforos
riscados, nós alfinetes,
nós tacos soltos no piso.

Nós coisas pequenas deixando escapar um suspiro.

Como a luz em ângulos retos escapa de uma folha de alumínio.

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entrevista

Entrevista com Adelaide Ivánova

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Crédito da foto original: Roberto Stuckert Filho, Jornal Grande Bahia.

o ato tanto de entrevistar quanto de ser entrevistado faz, sem sombra de dúvida, parte daquela fina arte chamada dar a cara a tapa. já dizia hilda hilst sobre entrevistas: “É quase como uma confissão. Agora, no caso específico de um escritor, a entrevista se complica porque tudo o que um escritor tem a dizer, tudo o que ele imagina verbalizar, o seu mais fundo, a sua mais intensa verticalidade, está dito no seu trabalho, e já da melhor forma que ele acredita ser possível traduzir. Não acredito que escritor algum consiga verbalizar com mais verdade que no seu próprio trabalho”. em assim sendo, ainda que com todo meu amadorismo enquanto entrevistador, tentei, ao máximo, don’t fuck it up e manter um diálogo, não engessado & bacana, com a adelaide ivánova. o resultado é isso que vocês podem conferir. sem mais, passemos à entrevista.

 

sergio maciel

* * *

SM – Talvez esse seja o maior clichê de todas as entrevistas com poetas, mas eu ainda creio que todas as repostas dadas, ainda que também clichês, sejam sempre blocos de uma construção que gostaríamos de ver pronta de uma vez por todas. Quase repito aqui uma pergunta feita a Anne Carson, você tem uma definição pessoal sobre o que é poesia? Se sim, como a partir dela você concebe seus poemas, seu ato de escrita e o próprio papel da sua poesia?

AI – Não tenho uma definição pessoal nem conheço as definições oficiais. Mas se for pra responder agora-agora, acho que poesia é um jeito de se fazer coisas, inclusive a coisa-texto.

Estudei jornalismo e sou da fotografia documental, então até o momento presente concebo meus poemas como desenvolvo meus projetos fotográficos – os poemas se tornam, como as imagens, pequenos relatórios das coisas que fui descobrindo enquanto tentava reportar sobre alguma coisa.

“Ato de escrita” não sei o que significa. É tipo a rotina pra escrever? Se for, pelo menos com O Martelo foi assim: vou acumulando observações-anotações-áudios-entrevistas-documentos-imagens etc.; aí disso saem os primeiros poemas, que têm uma paternidade compartilhada entre o contágio com essa coleta de material e a vida vivendo (ou seja, de noite and bêbada haha); e depois vem a fase de deliberadamente escrever sobre os tópicos não-respondidos nessa fase espontânea, de preencher as lacunas conceituais que faltam no livro. O Martelo foi muito assim, principalmente a primeira parte; o livro novo ainda tá na fase de pesquisa e dos poemas bêbados. Se “ato da escrita” não for isso, desculpa, ignora tudo e me explica o que é! 🙂

Meu papel na poesia é papel de trouxa haha brinks. Não tenho papel na poesia, acabei de chegar.

SM – O que mais te atrai em termos de poética hoje?

AI – As letras de Drake e os livros de Marguerite Yourcenar.

SM – Quais poéticas contemporâneas, tanto nacional quanto estrangeira, têm tomado mais o seu tempo?

AI – Música pop, o R&B americano, o brega ostentação de Recife e memes.

SM – Quais poetas?

AI – Os brasileiros. Tem muita gente fazendo muita coisa boa. Os livros de estreia de Rita Isadora Pessoa e Italo Diblasi me tocaram profundamente, Miró da Muribeca, Ana Martins Marques, William Zeytounlian que me ensina sempre sobre elegância, Júlia de Carvalho Hansen lançou um livro lindíssimo esse ano, e o último de Horácio Costa é foda também.

SM – Há um maniqueísmo meio besta no mundo que quer dividir as coisas entre livro impresso e digital, revista literária e blog, poesia e canção &c. Partindo dessa dicotomia que o povo faz, quero saber se você acha que há alguma diferença estética ou formal, não política, se é que é possível separar essas coisas num discurso, entre poéticas masculinas e femininas. Inclusive no campo da fotografia. E, se há, como lidar, então, com as poéticas de um corpo-poético trans, como o de Georgette Dee, por exemplo?

AI – O problema não é que as poéticas sejam diferentes. Todo mundo é diferente de todo mundo. O problema é que apenas uma delas ganha status de secundária, menor. Esse discurso pau-cêntrico, quando travestido de neutralidade, é o pior de todos.

Os estereótipos ligados à masculinidade (a razão, a força, a lógica) foram estabelecidos como a abordagem ideal e idônea pra falar do mundo; são a medida do ponto de vista e conhecimento relevantes, pretensamente universais, mas na verdade verticalizados e pouco representativos. Enquanto isso, os estereótipos ligados à feminilidade (a emoção, a delicadeza, a intuição) viram prismas de produção de conhecimento de segunda ordem. Não é à toa que as grandes escritoras do século 19 escreviam escondido, né. Elas sabiam que ninguém ia levá-las a sério anyways.

Mas acho que a saída é anarquizar mesmo tudo – as relações, os meios de produção, as instâncias de legitimidade. Georgette Dee é claramente um desafio; Mikky Blanco, Nicki Minaj, Anohni… o que a gente faz com essas poéticas? Aprende né? Escuta e aprende. E o que fazer com Toni Morrison, escritora negra mais importante do nosso século, que diz que foi a maternidade e não a literatura que a libertou? O que o feminismo faz com um dizer desse? Em que gaveta meter essa mulher? Mas assim, o que Nicki Minaj faz não é muito diferente do que Catulo fazia: falar de rola e passar recibo. Quer dizer, é tudo uma questão de identificação (por parte do leitor) e de implodir estruturas (por parte do autor).
Nisso, minha musa maior sempre será Anne Sexton. Porque ela tinha tudo pra ser uma Jackie O’ Marcela Temer escrota dum subúrbio de Boston, mas implodiu o patriarcado de dentro e contou pra todo mundo como foi.

SM – Sherry Simon, em Gender in Translation, começa, logo de cara, dizendo que o problema que se impõe entre original e tradução é um problema de gênero. Para ela, a hierarquia entre esses dois acontecimentos refletem o problema da hierarquia dos gêneros: a tradução, neste caso, considerada feminina, inferior, infiel (la belle infidèle) e mais fraca que o original, forte, autoritário e racional. A partir disso, Simon propõe uma teoria da tradução feminista e mostra como tradutoras têm atuado como ativistas literárias, criando novas linhas de transmissão de conteúdo e contribuindo para um debate cultural. Figura exemplar disso, aliás, é propriamente a Anne Carson, com sua Antigonick. A sistematização e o fortalecimento de uma crítica feminista, aqui no Brasil, pode ser um caminho para implodir essas estruturas tradicionais e estereotipadas?

AI – Sim.

SM – Como você vê a produção atual de crítica e teoria feita por mulheres e sobre mulheres aqui nestes trópicos?

AI – Não sei direito. Gosto de ler as feministas negras americanas, mas não é muito da seara da crítica literária né? (ainda que se possa aplicar). No Brasil, acompanho de perto os textos e as elucubrações online de Carol Almeida, que têm um poder forte sobre mim, porque Carol, além de ser uma crítica foda, é ativista dos direitos homossexuais e pra mim, hetero-cêntrica, é muito importante ter esse contato. Priscilla Campos começa devagar e com potência a se misturar nesse assunto; publicou recentemente um texto maravilhoso no Suplemento de Pernambuco. E gosto de acompanhar os pensamentos da Giovana Dealtry na internet. Mas leio pouca teoria, porque passo muito tempo no bar. Pergunta da minha vida pessoal #soudessas

SM – Há, creio, uma grande diferença entre ser “apenas” poeta ou poeta-professora, poeta-médica, poeta-repórter &c. Desse modo, pra você, que relação é possível estabelecer entre suas condições de poeta, tradutora e fotógrafa? Que relação é possível estabelecer entre seus poemas, suas traduções e suas fotografias? É tudo obra de um mesmo corpo? Se sim, qual influência objetiva esses gestos exercem sobre os outros?

AI – Eu sei que é clichê responder assim mas eu não vejo diferença nenhuma entre essas operações. Não há relação possível de se construir porque não há quebra, para mim elas acabam se tornando métodos, não mídias. Existe um corpo, o do eu-artista, que é a interseção entre todos esses métodos, que é também onde eles se diluem, sabe? Margarida Vale de Gato (#amamos) disse recentemente que “foi uma felicidade perceber que podia ser escritora com a tradução” (isso é muito lindo!) e é bem por aí.

Eu venho do jornalismo, da fotografia documental, então meus trabalhos nascem sempre de uma pergunta, e do querer respondê-la (ou ao menos falar sobre ela), ai vai encontrar a mídia ops o método ideal praquele tema. Por exemplo: entendi (não sem antes tentar muito) que uma “reportagem” sobre estupro só seria resolvida com poesia (eu tinha feito uma série fotográfica sobre abuso sexual no Brasil antes, que nem chegou perto das respostas que cheguei com O Martelo); já o problema da morte simbólica de Recife só rolaria com fotografia (ainda que tivesse tentado, também sem sucesso, escrever sobre isso). E meu problema com a língua enquanto ferramenta insuficiente pra articular a dor só seria abrandado com as traduções de Ingeborg Bachmann e Paul Celan. Soa egocêntrico pra caralho né? E é 🙂

Eu queria muito saber a partir de quando se deu essa ruptura, essa separação. Tu sabe? Essa “setorização” do fazer artístico parece um negócio fordista, o que aperta o parafuso, o que usa o maçarico, o que escreve, o que faz escultura. Meu cu. Sei que no renascimento os artistas faziam de um tudo (aprendi com Italo Diblasi haha). Os surrealistas também deslizavam muito bem entre diferentes mídias; só o que me incomoda neles é que até essa quebra de paradigma também virou statement. Sei que era necessário, e que sem os surrealistas não ia ter Andy Warhol, nem Sophie Calle, nem Bowie, mas fico me perguntando se não é justamente quando a gente reclama o direito de ser/fazer alguma coisa é que a gente reforça as instâncias que nos impedem de fazê-las, sabe? Sei lá.

Enfim, respondendo tua pergunta: para mim são apenas ferramentas diferentes pra satisfazer esse desejo de decifrar os enigmas.
SM – Considerando que seus poemas têm, pelo menos, dois estágios de produção – um de acumulação de experiência, de vida vivendo e outro de preenchimento das lacunas conceituais –, que importância dá pra atribuir ao fato de você viver num outro continente, numa outra cultura, imersa em outra língua no corpus do seu trabalho?

AI – “Imersa em outra língua no corpus do seu trabalho” hahahah ai até perdi a concentração.

Tu falasse de dois estágios de produção, e tem um terceiro, que é o silêncio, que só é possível de se chegar exatamente por causa desse meu exílio de butique (Ted Hughes fala numa entrevista que todo escritor devia morar fora do seu lugar de origem). Esse silêncio é tipo o filme antes de ser exposto à luz, sabe? É onde essa acumulação de experiência e o conceito (ou o desejo, eu prefiro usar “desejo”) se encontram e a coisa se transforma, vira um positivo. Esse silêncio do estrangeiro é importante também porque ele obviamente adiciona concentração.

Aí as duas línguas protagonizam partes bem diferentes da vida. A língua materna acaba virando uma coisa meio preciosa, usada exclusivamente para produzir – não há desperdício. E aí tem outra coisa maravilhosa: a língua do dia a dia (no caso, a alemã) vira uma grande encenação, por ser a língua dos afetos diários mas que sempre sempre sempre será insuficiente, mesmo que a pessoa domine a língua. Então tudo vira um tipo de teatro, e a língua materna está a salvo das chantagens das paixões, e pode existir divina e maravilhosa e soberana na escrita, sem afetações.

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poesia, tradução

Luciano R. Mendes

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Luciano R. Mendes é um idichista, poeta, tradutor e editor que nasceu em Curitiba, em 1986. É a mente por trás da Editora Dybbuk – pela qual publicou seu primeiro livro de poemas, O Livro do Yom Kippur. Nasceu em Curitiba mas hoje vive debaixo do Sol, em Fortaleza. No momento pesquisa e traduz a obra do poeta iídiche Abraham Sutskever, além de trabalhar em seu segundo livro – ainda sem título, mas que será bilíngue, em iídiche e português.

* * *

Estradas

As estradas até aqui foram longas: e ainda o são: por um momento duvidei ter pernas que bastassem e fôlego
que
desse
conta
do
ar
causticante carregado
por tantos anos por tantas vezes em que tentei me suicidar já perdi até a conta mesmo que muitas vezes não
tivesse feito declarações explícitas
não tivesse dito coisas como ‘hoje vou cortar meus pulsos’ só depois eu ia saber que se você quer
mesmo matar-se
verdadeiramente nunca vai usar um modo tão infantil tão batido
tirado de algum livro meloso
ou filme ruim ou ainda pecinha de teatro mequetrefe
não tivesse dito coisas como ‘vou beber até meu fígado derreter
meus miolos e minhas mais íntimas mágoas morrerem
afogadas – isso se eu não morrer afogado primeiro numa poça do próprio vômito
imitando umas estrelas do rock’
muitas vezes eu não disse coisa nenhum e mesmo assim fiz
essas coisas das quais falei.
Eu sou tão sortudo: nunca o sol veio ter comigo como se eu fosse O’Hara ou Herbert
mas depois de todos esses anos
eu ainda posso respirar eu ainda não estou acabado
na verdade de vez em quando parece
é que acabei de começar como
num êxtase místico só agora o mundo se abrisse diante de meus olhos
como se o mundo todo fosse algo novo
se cada folha de relva fosse um novo gênesis
como se cada palavra fosse
yehi ‘or genethos phos fiat lux let there be light.
Uma vida feita de
mantras
revoluções
um corpo de matéria e onda
a dimensão do tempo passando ao longo do espaço
os dedos que tocam e sentem apenas
a distância que faz com
que tudo
desapareça como tudo o que fomos exceto pelos números que nos nomeavam
ante aqueles que nunca souberam nenhuma dessas coisas
as coisas que importam eu quis dizer o timbre da voz a cor dos olhos
ou o prato favorito.
Os dedos só sentem isso mas nos punhos
muitas outras coisas reverberam
é quase doloroso uma espécie de sinfonia
bom ou mau augúrio
que se instala na base do meu crânio
que salta de meu corpo.

As estradas até aqui foram longas:
e ainda o são.
busco
em versos
alheios as
respostas
que não consigo encontrar
perscrutando esse silêncio
resignado
esse silêncio forçoso

§

busco
em línguas
distantes as
imagens
que não consigo construir
mastigando as consoantes
tão suaves
as vogais abertas

abro uma página ao acaso
pálpebra que rufla
qual asa negra
de pássaro agourento
esse maio amargo
no papel molhado a tinta
rasteja
como chaga
rascante

§

Os tambores da revolução

é chegada a hora de rufarmos
os tambores da revolução
marcharmos contra os soldados
vestindo nossos farrapos:
o crânio mais frágil
do que os capacetes
um colete feito das
próprias costelas
atirando palavra após palavra
da ponta da caneta
declamando explosões
a plenos pulmões
o sangue queimando
como napalm

é chegada a hora de rufarmos
os tambores da revolução
marcharmos contra os soldados
armados de nossos braços magros
sustentados nessas pernas finas
que quebram com tanta facilidade
é chegada a hora de morrermos
gritando é chegada a hora de sermos
massacrados mas ainda assim
não capitular e nem abrandar o tom
precisamos dos coquetéis molotov
precisamos dos explosivos caseiros
e de explosivos de todos os tipos
precisamos das canções das barricadas
dos poemas de Maiakóvski e de Jacques Roumain
é chegada a hora de queimar
as bandeiras, os bancos, as bolsas de valores,
os símbolos todos tornados cinzas
na queimada que antecede o gérmen
de uma nova civilização

é chegada a hora de rufarmos
os tambores da utopia

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poesia

Izabela Leal

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Izabela Leal é poeta e professora de literatura portuguesa. Nasceu no Rio de Janeiro. Tem poemas publicados em diversas revistas literárias e em antologias editadas no Brasil, México e Espanha. Participa do núcleo editorial da revista literária Polichinello. Atualmente reside em Belém do Pará. Seu livro A intrusa será lançado no Rio de Janeiro nesta quarta-feira, dia 14 de dezembro, às 19h, na livraria Blooks. Seguem abaixo três trechos do livro.

* * *

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20 de fevereiro.

Cena 1. No início.

isto não é um diário. não vou escrever minhas memórias nem testemunhar a época em que vivemos juntas. não se trata de confissão. seria antes uma performance curvatura do corpo apresentação da voz. pego um caderno rasgo páginas. suspeito de tudo principalmente dela. ouço ruídos vejo vultos escuto passos. há histórias de loucura nas mulheres da minha família trocam de pele feito cobra. não quero tirar conclusões fazer relatório instaurar processo. anoto rasuro jogo fora. corto sem pudor. aprendi com ela. rabisco. não quero dar bandeira levantar suspeitas. conheci vários tipos de gente ela não era catalogável. uma voz estranha sem melodia. às vezes falava devagar outras acelerava engolia sílabas vomitava frases. conheci vários tipos de gente. certa vez encontrei um sujeito que falava na primeira pessoa do plural. dizia ter muitos companheiros e passear com eles por campos imaginados. ela ficou visivelmente interessada. conversamos na casa de uma amiga. era um cara esquisito. estudava com um guru as artes do desaparecimento. por fim matou o próprio mestre e sobre isso escreveu várias cartas algumas notas e um depoimento. não sei dizer se desapareceu.

§

23 de abril

Cena 12. In memoriam.

foi num sábado. ela abriu a caixa de madeira. fotografias. tirou uma ao acaso. havia alguém que olhava. ria. a foto produz o corpo ou sua ausência? ele era dramaturgo escrevia peças inacabadas. nos conhecemos há muito tempo. naquela época não era proibido. foram anos gloriosos. lembro de uma tarde no sítio. subi numa árvore e um galho rasgou o meu vestido. ele simplesmente olhava. ria. o tempo engole todos os ecos. uma fotografia entre muitas. apenas a luz atravessando a pele o corpo uma imagem. relâmpagos. ele olhava. ria. nos reencontramos anos mais tarde um jantar na casa dos arquitetos. ele olhava. ria ainda. a sombra na foto era um presságio. o corpo desvanecia. tempos de mudança. papel puro. um espectro entre muitos. evocamos evgen bavcar o fotógrafo cego. esloveno perdeu os olhos em acidentes um de cada vez. o primeiro num galho de árvore o segundo num detonador de minas. acreditava ser uma vítima da guerra. bobagem diziam os arquitetos. a fotografia não vem do olho e sim do dedo. ele olhava ainda. ria. a luz essa pele que partilho.

§

7 de outubro

Cena 40. October is the cruellest month.

hoje morreu chantal akerman deu no noticiário. nada a ver com a universal reportagem fatos e fotos manchete caras. vi hotel monterey com uma amiga. no saguão o piso quadriculado. passantes. seriam peças num tabuleiro? a porta do elevador evocava uma escotilha. estariam submersos em seus próprios desejos? à beira de um naufrágio? a porta abre e fecha. corredores vazios. alguns avançam outros hesitam. o chinês dá um passo à frente. entra. mergulha fundo em seu labirinto. mais alguns passam. claro escuro. ângulos inusitados. uma privada. a luz foge pelas frestas. tons vermelhos ocres azulados. cada um tem a cor que lhe cabe. o quarto poderia ser um cenário. escadas. outros estão parados presos à cama ou à cadeira. corpos quase mortos a beleza da imobilidade. no fundo do corredor há uma janela. a moça oriental está grávida. pressentimentos sonhos anseios. quem pode esquecer o holocausto? em manhattan ou aqui é sempre inesperado. não somos nem mesmo profetas do acaso.

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poesia

Sete sonetos para o Dante, de Evandro von Sydow Domingues

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Evandro von Sydow Domingues, 1968, carioca, cinco livros que vão de Taipa (1994) a Limeriques para o Dante e Sonetos para Pampinea (2013). Professor, fotografa botequins e azulejos, tem um doutorado sobre literatura em Goa, inventou a editora Laphroaig e o blog avidanumagoa. Ama as cigarras e seu filho Dante.

* * *

na tarde quente Dante dorme azul
na rede que o recebe como útero
na tarde útero ressona Dante
quente protegido pelas varandas
tramadas por mãos quentes e recém
saídas do útero da tarde ::: o sono
untuoso tranca Dante em si e o trança
à memória dos bilros que ressoam
ainda na pele desta rede azul
e larga como o sono dos moluscos
na tarde quente Dante é caramujo
e a rede é uma casa de casquinha
tecida por ágeis dedos marujos
em tardes quentes azuis e marinhas

§

quando o pássaro azul entrou em casa
talvez fosse sábado :: Dante e eu
nos entreolhamos ainda incertos
se haveria mensagem em seu canto
grave e pausado :: na rede sonhávamos
com pequena praça clara estendida
preguiçosa do lado de uma praia
em que se contam histórias de bichos
e de gentes e de árvores em línguas
de bichos e árvores quando o sol
coado pelas tramas da cortina
veio lamber-nos a face e era
sábado azul a nos entrar em casa
talvez fosse pássaro

§

à noite somos eu e a gata apenas
sozinhos neste apartamento enorme
(o menino nas águas suas dorme
e ressona a doçura dos fonemas)
a gata amadurece faz-se velha
mas mesmo velha se fará menina
a gata amadurece fescenina
e se oferece ao me olhar de esguelha
passados seis anos que lhe ensinei?
nada :: nada que ela já não soubesse
(em minhas tolas pretensões tentei
mas nada pude contra as sete vidas)
ela que ensina com sua fala em S
e agasalha a noite em suas retinas

§

por quantas vezes estendi as mãos
em direção àquilo que eu sabia
não poder encontrar :: alguns pedaços
deste que seria tu mesmo, meu
menino intransitivo, sempre além
tua urgência tua insistência teus rituais
transmudados muitas vezes em fúria
no oco de uma qualquer noite espúria
por quantas vezes dias tão iguais
a fatiga dos desencontros sem
que eu entenda o que foi que se perdeu
e eu não menos exilado :: olhos baços
em permanente atrito a dislalia
o nosso estar no mundo :: nossas mãos

§

minha casa marcada de morcegos
que ninguém a pinte ou ouse cobrir
seus noturnos rastros diagonais
quando o sol se põe por detrás da serra
eu digo ao Dante que ele vai dormir
ele se aquieta em momento raro
deita os cabelos sobre os meus joelhos
eu digo ele ouve a seu modo sempre
a seu modo e também assim ouvimos
coisas ao nosso modo assim o sol
deita sua cabeça sobre o morro
e nele afunda-se que a tarde quente
descansa e volta ainda os olhos para
pingar silêncios nos olhos do menino

§

os teus cabelos lentamente afago
neste carinho claudicante e vago
tua negra lã da mais negra ovelha
(que és) se rende ao deslizar da pele
que neles soletra desenhos gagos
sempre desconfiado : me olhas de esguelha
mas teus nervos e ríctus e teus medos
se deixam dissolver pelo alcatruz
que eu nem sabia possuir nos dedos
assim te entregas e encontramos paz
e quando teus meus olhos fecham meus
teus olhos lassos não pedirão mais
que uma noite sem sustos e sem sonhos
quebrada apenas pelos sabiás

§

Quando os dentes do Dante vão caindo
E seu cabelo se avoluma em cachos
as cigarras se enterram com seus cantos
na solitária espera dos janeiros
assim nós assistimos à passagem
deste velho e esfomeado carniceiro
este velhaco a quem chamamos tempo
mas não sejamos hoje tão dramáticos
neste soneto que se quer deleite
dante-se o tempo aproveite o dia
toda semana agora é dente mole
olhe a janela que ele exibe à frente
não se fazem mais dentes como dantes
e muito menos dantes com seus dentes

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poesia, tradução

Alguns poemas de Jim Morrison, por Lucas Rolim

morrison

Jim Morrison (1943-1971) foi uma das grandes presenças universais do século passado. A personalidade icônica e o espírito forte e contagiante do vocalista do The Doors marcaram a história do rock para sempre. No entanto, sua poesia – pelo menos no Brasil – ao que me parece, tem sido ofuscada pelo seu trabalho como músico. Assim, pouco ou nada se tem lido ou ouvido falar a respeito.

Em seus textos, Morrison sintetiza o peso da mensagem na leveza do verso e na simpleza das palavras, e abre um grande leque de possíveis interpretações à escolha dos que o leem, exatamente como relata no prólogo de seu livro Wilderness, de onde saíram os poemas aqui traduzidos: “(…) a verdadeira poesia não diz coisa alguma, apenas sinaliza as possibilidades. Abre todas as portas. Você pode caminhar pela que melhor lhe servir”.

Xamanismo, cultura ameríndia, expansão da consciência e transcendência da mente são temas recorrentes na poesia de Morrison, que trava em boa parte dos poemas um diálogo próximo conosco, seus leitores, talvez como parte de sua busca para livrar as pessoas de seus modos limitados de ver e sentir, como declara no final do prólogo de Wilderness.

Is anybody in? Is anybody in?

Lucas Rolim

ps: os poemas abaixo integram o livro Wilderness.

* * *

What are you doing here?
What do you want?
Is it music?
We can play music.
But you want more.
You wnat something & someone new.
Am I right?
Of course I am.
I know you want.
You want ecstasy
Desire & dreams.
Things not exactly what they seem.
I lead you this way, he pulls thay way.
I’m not singing to an imaginary girl.
I’m talking to you, my self.
Let’s recreate the world.
The palace of conception is burning.

Look. See it burn.
Bask in the warm hot coals.

You’re Young to be old
You don’t need to be told
You want to see things as they are.
You know exactly what I do
Everything

O que você faz aqui?
O que deseja?
Música?
Nós podemos tocar música.
Porém você quer mais.
Você quer algo & alguém novo.
Estou certo?
É claro que estou.
Eu sei o que você deseja.
Você quer êxtase.
Desejo & sonhos.
As coisas não exatamente como parecem.
Guio você por este caminho, ele desvia para aquele.
Não canto a uma garota imaginária.
Estou falando com você, meu eu.
Vamos recriar o mundo.
O palácio da concepção queima.

Olhe. Veja-o queimar.
Aqueça-se nas quentes brasas acesas.

Você é muito jovem pra ser velha
Não precisa que a digam
Que você quer ver as coisas como elas são.
Você sabe exatamente o que eu sei
Tudo

§

POWER

I can make the earth stop in
Its tracks. I made the
Blue car go away.

I can make myself invisible or small.
I can become gigantic & reach the
farthest things. I can change
the course of nature.
I can place myself anywhere in
space or time.
I can summon the dead.
I can perceive events on other worlds,
in my deepest inner mind,
& in the minds of others.

I can

I am.

PODER

Posso fazer a terra parar em
suas rotas. Eu fiz os
carros azuis partirem.

Posso me fazer invisível ou pequeno.
Posso tornar-me gigantesco & tocar as
coisas mais distantes. Eu posso mudar
o curso da natureza.
Posso estar em qualquer lugar no
tempo ou espaço.
Posso invocar os mortos.
Eu posso notar eventos em outros mundos,
no mais profundo de minha mente,
& nas mentes de outros.

Eu posso

Eu sou.

§

he enters stage:

Blood boots. Killer storm.
Fool’s gold. God in a heaven.
Where is she?
Have you seen her?
Has anyone seen this girl?
……………….snap shot (projected)
She’s my sister.
Ladies & gentlemen:
……….please attend carefully to these words & events
……….It’s your last chance, our last hope.
……….In this womb or tomb, we’re free of the
………………..swarming streets.
……….The black fever which rages is safely
……….out those doors
……….My friends & I come from
……….Far Arden w/dances, &
………………..new music
……….Everywhere followers accrue
………………..to our procession.
……….Tales of Kings, gods, warriors
………………..and lovers dangled like
………………..jewels for your careless pleasure

…………………………I’m Me!

Can you dig it.
My meat is real.
My hands—how they move
balanced like lithe demons
My hair—so twined & writhing
The skin of my face—pinch the cheeks
My flaming sword tongue
spraying verbal fire-flys
I’m real.
I’m human
But I’m not na ordinary man
No No No

ele sobe ao palco:

Botas de sangue. Tempestade assassina.
Ouro de tolo. Deus num paraíso.
Onde ela está?
Você a viu?
Alguém viu esta moça?
……….……….Ela é minha irmã.
Senhoras e senhores:
……….peço que prestem muita atenção a estas palavras & eventos
……….É sua última chance, nossa última esperança.
……….Neste útero ou tumba, estamos livres do
……….……….enxame das ruas.
……….A febre negra que assola está a uma distância segura
……….……….para fora daquelas portas
……….Meus amigos & eu viemos do
……….Arden distante c/danças, &
……….……….Nova música´
……….Em toda parte seguidores se ajuntam
……….……….à nossa procissão.
……….Estórias de Reis, deuses, guerreiro
………………..e amantes balançando como
………………..joias para o seu desatento prazer

……….………………..Eu Me sou!

Pode você cavar.
Minha carne é real.
Minhas mãos—como se movem
balançando como demônios ágeis
Meu cabelo—tão embaraçado & contorcendo
A pele do meu rosto—aperte as bochechas
Minha língua de espada flamejante
Espalhando vagalumes verbais
Eu sou real.
Eu sou humano
Mas não sou um homem comum
Não Não Não

§

The grand highway
is
crowded
w/
lovers
&
searchers
&
leavers
so
eager
to
please
&
forget.

Wilderness.

A grande rodovia
está
lotada
c/
os que amam
&
os que buscam
&
os que deixam
tão
preocupados
em
agradar
&
esquecer.

Selva.

§

THE OPENING OF THE TRUNK

—Moment of inner freedom
when the mind is opened & the
infinite universe revealed
& the soul is left to Wander
dazed & confus’d searching
here and there for teachers & friends.

ABERTURA DO DORSO

—Momento de liberdade interior
quando a mente está aberta & o
universo infinito revelado
& a alma livre para vagar
atordoada e confusa procurando
aqui & ali por mestres & amigos.

§

Moment of Freedom
as the prisioner
blinks in the sun
like a mole
from his hole

a child’s 1st trip
away from home

That moment of Freedom

Momento de Liberdade
quando o prisioneiro
pisca no sol
como a toupeira
de seu buraco

uma criança na 1ª viagem
longe de casa

Aquele momento de Liberdade

§

LAmerica
Cold treatment of our empress
LAmerica
The Transient Universe
LAmerica
Instant communion and
communication
lamerica
emeralds in glass
lamerica
searchlights at twi-light
lamerica
stoned streets in the pale dawn
lamerica
robed in exile
lamerica
swift beat of a proud heart
lamerica
eyes like twenty
lamerica
swift dream
lamerica
frozen heart
lamerica
soldiers doom
lamerica
clouds & struggles
lamerica
Nighthawk
doomed from the start
lamerica
“That’s how I met her,
lamerica
lonely & fozen
lamerica
& sullen, yes
lamerica
right from the start”

Then stop.
Go.
The wilderness between.
Go round the march.

LAmérica
Tratamento frio de nossa imperatriz
LAmérica
Universo Temporário
LAmérica
Imediata comunhão e
comunicação
lamérica
esmeraldas no vidro
lamérica
holofotes ao crepúsculo
lamérica
ruas chapadas no pálido amanhecer
lamérica
roubada no exílio
lamérica
batimento acelerado de um coração orgulhoso
lamérica
olhos como vinte
lamérica
ligeiro sonho
lamérica
coração congelado
lamérica
perdição dos soldados
lamérica
nuvens & batalhas
lamérica
Águia da Noite
condenada desde o início
lamérica
“Assim a conheci,
lamérica
solitária & no frio
lamérica
& mal-humorada, sim
lamérica
bem desde o início”

Então pare.
Vá.
A selva no meio.
Vá em torno da marcha.

(trad. Lucas Rolim)

* * *

Lucas Rolim nasceu e vive em Teresina (PI), onde produz junto aos outros poetas do coletivo “Tensão, Tesão & Criação”, eventos cujo núcleo centraliza-se na poesia e em seus desdobramentos. Veicula seus textos através de impressos e publicações artesanais independentes. É autor dos fanzines poéticos Tetrapoemas (três volumes, 2015), Esquizofrenia (2015), No Panorama do Tempo o Menino se Alarga (2016) e Besouro (org. em parceria com Demetrios Galvão, vol. 1, 2016). Também apareceu em jornais, blogues e revistas eletrônicas.

e-mail: olucasrolim@outlook.com
facebook: fb.com/olucasrolim

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