Uncategorized

4 poemas inéditos de Tarso de Melo

tarso-2016

Tarso de Melo (1976) é poeta, autor de diversos livros reunidos em Poemas 1999-2014 (Dobra/E-galáxia, 2015). Os poemas acima, inéditos, fazem parte de um novo livro, ainda sem nome, que pretende lançar em 2017. Amanhã ele completa seus 40 anos, e hoje aqui temos hoje 4 poemas inéditos, presente dele para nós.

guilherme gontijo flores

* * *

Quatro poemas

I [canto]

com os pés descalços sobre o país em que nasci
arrasto ideias como correntes de um canto a outro do território
que cabe em minha mente e caio caio caio
arrasto o peito nas inscrições que o passado deixou em cada pedra
espalho o sangue dos ancestrais que desconheço
escrevo inscrevo gravo guardo os segundos nas mangas de mágico
da camisa intocável que resiste ao arrasto
pela geografia desses solavancos em que meu canto quieto pasto

II [vizinho]

Dizem que ele mora aí. Atrás das placas antigas, das folhas metálicas, dos vidros que se foram. Dizem que ele faz a barba, mima o cachorro, continua a polir loucamente o ferro que resta. Ninguém sabe quando decidiu trazer sua casa para cá – ou fazer dessa kombi sua morada. Ao que consta, é apenas o cachorro que o impede de viver só, como a velha perua o impede de viver ao relento. Não escolheu praia, mata, duna. Apenas a sombra de prédios imensos e de algumas árvores que sobraram no bairro. Não sei de onde tira vontade para pentear o cabelo, não entendo o rosto polido. O asseio com que espalha e emenda os cobertores de alumínio camuflando o carro contra os olhos sabe lá de quem. Passo uma, duas, três vezes por ele – acampo a atenção à volta de sua vida. Por um momento penso em dizer bom-dia, mas fico imaginando se não foi um bom-dia que o fez querer viver aqui.

III [para uma foto de Anibal e Marina]

o sorriso que vai entre os dentes que faltam
não é por menos: há amor, ali, pelas frestas
e ele sai pelos olhos, ora sépia, ora magenta,

e é estranho encarar tanto sol na tela fria

IV [feitio de oração]

acordo todos os dias e procuro o sol
faz tempo que não nasce aqui um poema
uns me pedem, eu me peço, cobras me cobram
um poema, sabe, que pegue assim a palavra ouvida de passagem
e quem sabe a passagem entreouvida
e parta daí para o lugar em que consiga dizer algo
encaixar um som, uma trama, desarmar, desatar-se

desaparecer

 

Anúncios
Padrão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s