tradução

“Belos perdedores” de Leonard Cohen (1934-2016), por Luciano R. Mendes

leonard-cohen

Todos sabem quem é Leonard Cohen, não preciso apresentá-lo, & todos sabem que os imensos também se vão, como ele se foi este ano. Então vai aqui, ainda que tardia, uma homenagem via escamandro: a tradução de um trecho de Beatiful losers, segundo e último romance de Cohen, publicado em 1966, que serve como uma mostra (para os que acham que compositores não são escritores) da escrita stricto sensu de um poeta oral. A versão foi feita por Luciano R. Mendes, que tem participado de tempos em tempos deste espaço.

guilherme gontijo flores

* * *

Belos perdedores

Livro um: a história deles todos

1

Catherine Tekakwitha, quem é você? Você é (1656-1680)? Isso basta? Você é a Virgem dos Iroqueses? Você é o Lírio das Margens do Rio Moicano? Será que eu posso te amar à minha própria maneira? Eu sou um velho estudioso, mais bonito agora do que quando era jovem. É isso o que sentar sobre a própria bunda faz à sua cara. Eu vim atrás de você, Catherine Takakwitha. Eu quero saber o que acontece debaixo desse lençol rosado. Eu tenho algum direito? Eu me apaixonei por uma imagem religiosa de você. Você parada entre bétulas, minha árvore favorita. Sabe Deus até que altura seus mocassins estavam amarrados. Tinha um rio detrás de você, sem dúvida o Moicano. Dois pássaros no canto esquerdo que iam ficar muito felizes se você fizesse carinho em suas gargantas brancas ou mesmo se você os usasse como um exemplo de uma coisa ou outra numa parábola. Eu tenho algum direito de vir atrás de você com a minha mente poeirenta, cheia da porcaria de uns cinco mil livros? Eu sequer vou pro interior com alguma frequência. Você pode me ensinar sobre folhas? Você sabe alguma coisa sobre cogumelos narcóticos? Lady Marilyn morreu faz uns poucos anos. Será que posso dizer que algum velho estudioso, daqui a quatrocentos anos, talvez de meu próprio sangue, vai vir atrás dela como eu vim atrás de você? Mas agora você deve saber mais sobre o paraíso. Ele se parece com um daqueles altarzinhos de plástico que brilham no escuro? Eu juro que não ligo se for. E as estrelas, são pequeninas no fim das contas? Será que um velho estudioso pode finalmente encontrar o amor e parar de ter que bater uma toda noite pra conseguir dormir? Eu até deixei de odiar os livros. Eu esqueci a maior parte das coisas que eu li e, francamente, jamais pareceu algo muito importante pra mim ou pro mundo. Meu amigo F. costumava dizer com seu jeito animado: Temos que aprender a parar corajosamente na superfície. Temos de aprender a amar as aparências. F. morreu em uma cela acolchoada, o cérebro apodrecido de tanto sexo sujo. O rosto dele ficou preto, eu vi isso com meus próprios olhos, e dizem que não sobrava muita coisa do pau dele. Uma enfermeira me contou que parecia a parte de dentro de um verme. Salut, F., velho e barulhento amigo! Eu me pergunto se a sua memória vai durar. E você, Catherine Tekakwitha, se você precisa saber, eu sou humano o suficiente pra sofrer de constipação, recompensas de uma vida sedentária. É de se espantar que eu tenha mandado o meu coração pras bétulas? É de se espantar que um velho estudioso que nunca ganhou muito dinheiro queira se enfiar no seu cartão postal em Technicolor?

2

Eu sou um folclorista conhecido, uma autoridade nos A______s, uma tribo que não tenho nenhuma intenção de desgraçar com meu interesse. Existem, talvez, uns dez A_______s puro sangue sobrando, quatro deles meninas adolescentes. F. se aproveitou de meu status antropológico para foder todas as quatro. Meu velho amigo, você fez por merecer. Os A______s parecem ter surgido no século quinze, ou, pelo menos, um bom tanto da tribo. Sua breve história é marcada pela derrota incessante. O próprio nome da tribo, A______s, é a palavra para cadáver nas línguas de todas as tribos ao redor. Não há registros de essa tribo desafortunada jamais ter ganho uma única batalha, enquanto que as canções e os mitos de seus inimigos não são senão um sustentado uivo de triunfo. Meu interesse por esse acúmulo de falhas entrega meu caráter. Quando emprestava dinheiro de mim, F. costumava dizer: Obrigado, seu velho A______! Catherine Tekakwitha, você escuta?

3

Catherine Tekakwitha, eu vim te salvar dos jesuítas. Sim, um velho estudioso ousa pensar grande. Eu não sei o que eles estão dizendo sobre você nesses dias porque meu latim já não presta. “Que le succès couronne nos espérances, et nous verrons sur les autels, auprès des Martyrs canadiens, une Vierge iroquoise – près des roses du martyre le lis de la virginité.” Uma nota de um tal Ed. L., S.J., escrita em agosto de 1926. Mas de que importa? Eu não quero carregar minha velha vida beligerante em minha jornada rio Moicano acima. Marchando, Companhia de Jesus! F. disse: um homem forte não pode outra coisa que não amar a Igreja. Catherine Tekakwitha, de que importa se fizemos um afresco de você? Atualmente eu estou estudando as instruções de uma canoa de casca de bétula. Seus parentes esqueceram como fazê-las. E daí se tiver uma reprodução em plástico do seu corpinho no painel de cada taxi de Montreal? Não pode ser algo ruim. O amor não pode ser encaixotado. Há um pedaço de Jesus em cada crucifixo feito? Eu acho que sim. O desejo muda o mundo! O que é que faz com que o lado da montanha do Bordo fique vermelho? Paz, fabricantes de tranqueiras religiosas! Você manuseiam material sagrado! Catherine Tekakwitha, você vê como me deixo levar? Como quero que o mundo seja místico e bom? E as estrelas, são pequeninas no fim das contas? Quem vai nos colocar pra dormir? Eu deveria economizar minhas unhas? A matéria é sagrada? Eu quero que o barbeiro enterre meu cabelo. Catherine Tekakwitha, você já está trabalhando em mim?

(trad. Luciano R. Mendes)

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