poesia, tradução

Alguns poemas de Jim Morrison, por Lucas Rolim

morrison

Jim Morrison (1943-1971) foi uma das grandes presenças universais do século passado. A personalidade icônica e o espírito forte e contagiante do vocalista do The Doors marcaram a história do rock para sempre. No entanto, sua poesia – pelo menos no Brasil – ao que me parece, tem sido ofuscada pelo seu trabalho como músico. Assim, pouco ou nada se tem lido ou ouvido falar a respeito.

Em seus textos, Morrison sintetiza o peso da mensagem na leveza do verso e na simpleza das palavras, e abre um grande leque de possíveis interpretações à escolha dos que o leem, exatamente como relata no prólogo de seu livro Wilderness, de onde saíram os poemas aqui traduzidos: “(…) a verdadeira poesia não diz coisa alguma, apenas sinaliza as possibilidades. Abre todas as portas. Você pode caminhar pela que melhor lhe servir”.

Xamanismo, cultura ameríndia, expansão da consciência e transcendência da mente são temas recorrentes na poesia de Morrison, que trava em boa parte dos poemas um diálogo próximo conosco, seus leitores, talvez como parte de sua busca para livrar as pessoas de seus modos limitados de ver e sentir, como declara no final do prólogo de Wilderness.

Is anybody in? Is anybody in?

Lucas Rolim

ps: os poemas abaixo integram o livro Wilderness.

* * *

What are you doing here?
What do you want?
Is it music?
We can play music.
But you want more.
You wnat something & someone new.
Am I right?
Of course I am.
I know you want.
You want ecstasy
Desire & dreams.
Things not exactly what they seem.
I lead you this way, he pulls thay way.
I’m not singing to an imaginary girl.
I’m talking to you, my self.
Let’s recreate the world.
The palace of conception is burning.

Look. See it burn.
Bask in the warm hot coals.

You’re Young to be old
You don’t need to be told
You want to see things as they are.
You know exactly what I do
Everything

O que você faz aqui?
O que deseja?
Música?
Nós podemos tocar música.
Porém você quer mais.
Você quer algo & alguém novo.
Estou certo?
É claro que estou.
Eu sei o que você deseja.
Você quer êxtase.
Desejo & sonhos.
As coisas não exatamente como parecem.
Guio você por este caminho, ele desvia para aquele.
Não canto a uma garota imaginária.
Estou falando com você, meu eu.
Vamos recriar o mundo.
O palácio da concepção queima.

Olhe. Veja-o queimar.
Aqueça-se nas quentes brasas acesas.

Você é muito jovem pra ser velha
Não precisa que a digam
Que você quer ver as coisas como elas são.
Você sabe exatamente o que eu sei
Tudo

§

POWER

I can make the earth stop in
Its tracks. I made the
Blue car go away.

I can make myself invisible or small.
I can become gigantic & reach the
farthest things. I can change
the course of nature.
I can place myself anywhere in
space or time.
I can summon the dead.
I can perceive events on other worlds,
in my deepest inner mind,
& in the minds of others.

I can

I am.

PODER

Posso fazer a terra parar em
suas rotas. Eu fiz os
carros azuis partirem.

Posso me fazer invisível ou pequeno.
Posso tornar-me gigantesco & tocar as
coisas mais distantes. Eu posso mudar
o curso da natureza.
Posso estar em qualquer lugar no
tempo ou espaço.
Posso invocar os mortos.
Eu posso notar eventos em outros mundos,
no mais profundo de minha mente,
& nas mentes de outros.

Eu posso

Eu sou.

§

he enters stage:

Blood boots. Killer storm.
Fool’s gold. God in a heaven.
Where is she?
Have you seen her?
Has anyone seen this girl?
……………….snap shot (projected)
She’s my sister.
Ladies & gentlemen:
……….please attend carefully to these words & events
……….It’s your last chance, our last hope.
……….In this womb or tomb, we’re free of the
………………..swarming streets.
……….The black fever which rages is safely
……….out those doors
……….My friends & I come from
……….Far Arden w/dances, &
………………..new music
……….Everywhere followers accrue
………………..to our procession.
……….Tales of Kings, gods, warriors
………………..and lovers dangled like
………………..jewels for your careless pleasure

…………………………I’m Me!

Can you dig it.
My meat is real.
My hands—how they move
balanced like lithe demons
My hair—so twined & writhing
The skin of my face—pinch the cheeks
My flaming sword tongue
spraying verbal fire-flys
I’m real.
I’m human
But I’m not na ordinary man
No No No

ele sobe ao palco:

Botas de sangue. Tempestade assassina.
Ouro de tolo. Deus num paraíso.
Onde ela está?
Você a viu?
Alguém viu esta moça?
……….……….Ela é minha irmã.
Senhoras e senhores:
……….peço que prestem muita atenção a estas palavras & eventos
……….É sua última chance, nossa última esperança.
……….Neste útero ou tumba, estamos livres do
……….……….enxame das ruas.
……….A febre negra que assola está a uma distância segura
……….……….para fora daquelas portas
……….Meus amigos & eu viemos do
……….Arden distante c/danças, &
……….……….Nova música´
……….Em toda parte seguidores se ajuntam
……….……….à nossa procissão.
……….Estórias de Reis, deuses, guerreiro
………………..e amantes balançando como
………………..joias para o seu desatento prazer

……….………………..Eu Me sou!

Pode você cavar.
Minha carne é real.
Minhas mãos—como se movem
balançando como demônios ágeis
Meu cabelo—tão embaraçado & contorcendo
A pele do meu rosto—aperte as bochechas
Minha língua de espada flamejante
Espalhando vagalumes verbais
Eu sou real.
Eu sou humano
Mas não sou um homem comum
Não Não Não

§

The grand highway
is
crowded
w/
lovers
&
searchers
&
leavers
so
eager
to
please
&
forget.

Wilderness.

A grande rodovia
está
lotada
c/
os que amam
&
os que buscam
&
os que deixam
tão
preocupados
em
agradar
&
esquecer.

Selva.

§

THE OPENING OF THE TRUNK

—Moment of inner freedom
when the mind is opened & the
infinite universe revealed
& the soul is left to Wander
dazed & confus’d searching
here and there for teachers & friends.

ABERTURA DO DORSO

—Momento de liberdade interior
quando a mente está aberta & o
universo infinito revelado
& a alma livre para vagar
atordoada e confusa procurando
aqui & ali por mestres & amigos.

§

Moment of Freedom
as the prisioner
blinks in the sun
like a mole
from his hole

a child’s 1st trip
away from home

That moment of Freedom

Momento de Liberdade
quando o prisioneiro
pisca no sol
como a toupeira
de seu buraco

uma criança na 1ª viagem
longe de casa

Aquele momento de Liberdade

§

LAmerica
Cold treatment of our empress
LAmerica
The Transient Universe
LAmerica
Instant communion and
communication
lamerica
emeralds in glass
lamerica
searchlights at twi-light
lamerica
stoned streets in the pale dawn
lamerica
robed in exile
lamerica
swift beat of a proud heart
lamerica
eyes like twenty
lamerica
swift dream
lamerica
frozen heart
lamerica
soldiers doom
lamerica
clouds & struggles
lamerica
Nighthawk
doomed from the start
lamerica
“That’s how I met her,
lamerica
lonely & fozen
lamerica
& sullen, yes
lamerica
right from the start”

Then stop.
Go.
The wilderness between.
Go round the march.

LAmérica
Tratamento frio de nossa imperatriz
LAmérica
Universo Temporário
LAmérica
Imediata comunhão e
comunicação
lamérica
esmeraldas no vidro
lamérica
holofotes ao crepúsculo
lamérica
ruas chapadas no pálido amanhecer
lamérica
roubada no exílio
lamérica
batimento acelerado de um coração orgulhoso
lamérica
olhos como vinte
lamérica
ligeiro sonho
lamérica
coração congelado
lamérica
perdição dos soldados
lamérica
nuvens & batalhas
lamérica
Águia da Noite
condenada desde o início
lamérica
“Assim a conheci,
lamérica
solitária & no frio
lamérica
& mal-humorada, sim
lamérica
bem desde o início”

Então pare.
Vá.
A selva no meio.
Vá em torno da marcha.

(trad. Lucas Rolim)

* * *

Lucas Rolim nasceu e vive em Teresina (PI), onde produz junto aos outros poetas do coletivo “Tensão, Tesão & Criação”, eventos cujo núcleo centraliza-se na poesia e em seus desdobramentos. Veicula seus textos através de impressos e publicações artesanais independentes. É autor dos fanzines poéticos Tetrapoemas (três volumes, 2015), Esquizofrenia (2015), No Panorama do Tempo o Menino se Alarga (2016) e Besouro (org. em parceria com Demetrios Galvão, vol. 1, 2016). Também apareceu em jornais, blogues e revistas eletrônicas.

e-mail: olucasrolim@outlook.com
facebook: fb.com/olucasrolim

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