poesia

Sete sonetos para o Dante, de Evandro von Sydow Domingues

bio-2

Evandro von Sydow Domingues, 1968, carioca, cinco livros que vão de Taipa (1994) a Limeriques para o Dante e Sonetos para Pampinea (2013). Professor, fotografa botequins e azulejos, tem um doutorado sobre literatura em Goa, inventou a editora Laphroaig e o blog avidanumagoa. Ama as cigarras e seu filho Dante.

* * *

na tarde quente Dante dorme azul
na rede que o recebe como útero
na tarde útero ressona Dante
quente protegido pelas varandas
tramadas por mãos quentes e recém
saídas do útero da tarde ::: o sono
untuoso tranca Dante em si e o trança
à memória dos bilros que ressoam
ainda na pele desta rede azul
e larga como o sono dos moluscos
na tarde quente Dante é caramujo
e a rede é uma casa de casquinha
tecida por ágeis dedos marujos
em tardes quentes azuis e marinhas

§

quando o pássaro azul entrou em casa
talvez fosse sábado :: Dante e eu
nos entreolhamos ainda incertos
se haveria mensagem em seu canto
grave e pausado :: na rede sonhávamos
com pequena praça clara estendida
preguiçosa do lado de uma praia
em que se contam histórias de bichos
e de gentes e de árvores em línguas
de bichos e árvores quando o sol
coado pelas tramas da cortina
veio lamber-nos a face e era
sábado azul a nos entrar em casa
talvez fosse pássaro

§

à noite somos eu e a gata apenas
sozinhos neste apartamento enorme
(o menino nas águas suas dorme
e ressona a doçura dos fonemas)
a gata amadurece faz-se velha
mas mesmo velha se fará menina
a gata amadurece fescenina
e se oferece ao me olhar de esguelha
passados seis anos que lhe ensinei?
nada :: nada que ela já não soubesse
(em minhas tolas pretensões tentei
mas nada pude contra as sete vidas)
ela que ensina com sua fala em S
e agasalha a noite em suas retinas

§

por quantas vezes estendi as mãos
em direção àquilo que eu sabia
não poder encontrar :: alguns pedaços
deste que seria tu mesmo, meu
menino intransitivo, sempre além
tua urgência tua insistência teus rituais
transmudados muitas vezes em fúria
no oco de uma qualquer noite espúria
por quantas vezes dias tão iguais
a fatiga dos desencontros sem
que eu entenda o que foi que se perdeu
e eu não menos exilado :: olhos baços
em permanente atrito a dislalia
o nosso estar no mundo :: nossas mãos

§

minha casa marcada de morcegos
que ninguém a pinte ou ouse cobrir
seus noturnos rastros diagonais
quando o sol se põe por detrás da serra
eu digo ao Dante que ele vai dormir
ele se aquieta em momento raro
deita os cabelos sobre os meus joelhos
eu digo ele ouve a seu modo sempre
a seu modo e também assim ouvimos
coisas ao nosso modo assim o sol
deita sua cabeça sobre o morro
e nele afunda-se que a tarde quente
descansa e volta ainda os olhos para
pingar silêncios nos olhos do menino

§

os teus cabelos lentamente afago
neste carinho claudicante e vago
tua negra lã da mais negra ovelha
(que és) se rende ao deslizar da pele
que neles soletra desenhos gagos
sempre desconfiado : me olhas de esguelha
mas teus nervos e ríctus e teus medos
se deixam dissolver pelo alcatruz
que eu nem sabia possuir nos dedos
assim te entregas e encontramos paz
e quando teus meus olhos fecham meus
teus olhos lassos não pedirão mais
que uma noite sem sustos e sem sonhos
quebrada apenas pelos sabiás

§

Quando os dentes do Dante vão caindo
E seu cabelo se avoluma em cachos
as cigarras se enterram com seus cantos
na solitária espera dos janeiros
assim nós assistimos à passagem
deste velho e esfomeado carniceiro
este velhaco a quem chamamos tempo
mas não sejamos hoje tão dramáticos
neste soneto que se quer deleite
dante-se o tempo aproveite o dia
toda semana agora é dente mole
olhe a janela que ele exibe à frente
não se fazem mais dentes como dantes
e muito menos dantes com seus dentes

Anúncios
Padrão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s