poesia

Izabela Leal

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Izabela Leal é poeta e professora de literatura portuguesa. Nasceu no Rio de Janeiro. Tem poemas publicados em diversas revistas literárias e em antologias editadas no Brasil, México e Espanha. Participa do núcleo editorial da revista literária Polichinello. Atualmente reside em Belém do Pará. Seu livro A intrusa será lançado no Rio de Janeiro nesta quarta-feira, dia 14 de dezembro, às 19h, na livraria Blooks. Seguem abaixo três trechos do livro.

* * *

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20 de fevereiro.

Cena 1. No início.

isto não é um diário. não vou escrever minhas memórias nem testemunhar a época em que vivemos juntas. não se trata de confissão. seria antes uma performance curvatura do corpo apresentação da voz. pego um caderno rasgo páginas. suspeito de tudo principalmente dela. ouço ruídos vejo vultos escuto passos. há histórias de loucura nas mulheres da minha família trocam de pele feito cobra. não quero tirar conclusões fazer relatório instaurar processo. anoto rasuro jogo fora. corto sem pudor. aprendi com ela. rabisco. não quero dar bandeira levantar suspeitas. conheci vários tipos de gente ela não era catalogável. uma voz estranha sem melodia. às vezes falava devagar outras acelerava engolia sílabas vomitava frases. conheci vários tipos de gente. certa vez encontrei um sujeito que falava na primeira pessoa do plural. dizia ter muitos companheiros e passear com eles por campos imaginados. ela ficou visivelmente interessada. conversamos na casa de uma amiga. era um cara esquisito. estudava com um guru as artes do desaparecimento. por fim matou o próprio mestre e sobre isso escreveu várias cartas algumas notas e um depoimento. não sei dizer se desapareceu.

§

23 de abril

Cena 12. In memoriam.

foi num sábado. ela abriu a caixa de madeira. fotografias. tirou uma ao acaso. havia alguém que olhava. ria. a foto produz o corpo ou sua ausência? ele era dramaturgo escrevia peças inacabadas. nos conhecemos há muito tempo. naquela época não era proibido. foram anos gloriosos. lembro de uma tarde no sítio. subi numa árvore e um galho rasgou o meu vestido. ele simplesmente olhava. ria. o tempo engole todos os ecos. uma fotografia entre muitas. apenas a luz atravessando a pele o corpo uma imagem. relâmpagos. ele olhava. ria. nos reencontramos anos mais tarde um jantar na casa dos arquitetos. ele olhava. ria ainda. a sombra na foto era um presságio. o corpo desvanecia. tempos de mudança. papel puro. um espectro entre muitos. evocamos evgen bavcar o fotógrafo cego. esloveno perdeu os olhos em acidentes um de cada vez. o primeiro num galho de árvore o segundo num detonador de minas. acreditava ser uma vítima da guerra. bobagem diziam os arquitetos. a fotografia não vem do olho e sim do dedo. ele olhava ainda. ria. a luz essa pele que partilho.

§

7 de outubro

Cena 40. October is the cruellest month.

hoje morreu chantal akerman deu no noticiário. nada a ver com a universal reportagem fatos e fotos manchete caras. vi hotel monterey com uma amiga. no saguão o piso quadriculado. passantes. seriam peças num tabuleiro? a porta do elevador evocava uma escotilha. estariam submersos em seus próprios desejos? à beira de um naufrágio? a porta abre e fecha. corredores vazios. alguns avançam outros hesitam. o chinês dá um passo à frente. entra. mergulha fundo em seu labirinto. mais alguns passam. claro escuro. ângulos inusitados. uma privada. a luz foge pelas frestas. tons vermelhos ocres azulados. cada um tem a cor que lhe cabe. o quarto poderia ser um cenário. escadas. outros estão parados presos à cama ou à cadeira. corpos quase mortos a beleza da imobilidade. no fundo do corredor há uma janela. a moça oriental está grávida. pressentimentos sonhos anseios. quem pode esquecer o holocausto? em manhattan ou aqui é sempre inesperado. não somos nem mesmo profetas do acaso.

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