entrevista

Entrevista com Adelaide Ivánova

montagi

Crédito da foto original: Roberto Stuckert Filho, Jornal Grande Bahia.

o ato tanto de entrevistar quanto de ser entrevistado faz, sem sombra de dúvida, parte daquela fina arte chamada dar a cara a tapa. já dizia hilda hilst sobre entrevistas: “É quase como uma confissão. Agora, no caso específico de um escritor, a entrevista se complica porque tudo o que um escritor tem a dizer, tudo o que ele imagina verbalizar, o seu mais fundo, a sua mais intensa verticalidade, está dito no seu trabalho, e já da melhor forma que ele acredita ser possível traduzir. Não acredito que escritor algum consiga verbalizar com mais verdade que no seu próprio trabalho”. em assim sendo, ainda que com todo meu amadorismo enquanto entrevistador, tentei, ao máximo, don’t fuck it up e manter um diálogo, não engessado & bacana, com a adelaide ivánova. o resultado é isso que vocês podem conferir. sem mais, passemos à entrevista.

 

sergio maciel

* * *

SM – Talvez esse seja o maior clichê de todas as entrevistas com poetas, mas eu ainda creio que todas as repostas dadas, ainda que também clichês, sejam sempre blocos de uma construção que gostaríamos de ver pronta de uma vez por todas. Quase repito aqui uma pergunta feita a Anne Carson, você tem uma definição pessoal sobre o que é poesia? Se sim, como a partir dela você concebe seus poemas, seu ato de escrita e o próprio papel da sua poesia?

AI – Não tenho uma definição pessoal nem conheço as definições oficiais. Mas se for pra responder agora-agora, acho que poesia é um jeito de se fazer coisas, inclusive a coisa-texto.

Estudei jornalismo e sou da fotografia documental, então até o momento presente concebo meus poemas como desenvolvo meus projetos fotográficos – os poemas se tornam, como as imagens, pequenos relatórios das coisas que fui descobrindo enquanto tentava reportar sobre alguma coisa.

“Ato de escrita” não sei o que significa. É tipo a rotina pra escrever? Se for, pelo menos com O Martelo foi assim: vou acumulando observações-anotações-áudios-entrevistas-documentos-imagens etc.; aí disso saem os primeiros poemas, que têm uma paternidade compartilhada entre o contágio com essa coleta de material e a vida vivendo (ou seja, de noite and bêbada haha); e depois vem a fase de deliberadamente escrever sobre os tópicos não-respondidos nessa fase espontânea, de preencher as lacunas conceituais que faltam no livro. O Martelo foi muito assim, principalmente a primeira parte; o livro novo ainda tá na fase de pesquisa e dos poemas bêbados. Se “ato da escrita” não for isso, desculpa, ignora tudo e me explica o que é! 🙂

Meu papel na poesia é papel de trouxa haha brinks. Não tenho papel na poesia, acabei de chegar.

SM – O que mais te atrai em termos de poética hoje?

AI – As letras de Drake e os livros de Marguerite Yourcenar.

SM – Quais poéticas contemporâneas, tanto nacional quanto estrangeira, têm tomado mais o seu tempo?

AI – Música pop, o R&B americano, o brega ostentação de Recife e memes.

SM – Quais poetas?

AI – Os brasileiros. Tem muita gente fazendo muita coisa boa. Os livros de estreia de Rita Isadora Pessoa e Italo Diblasi me tocaram profundamente, Miró da Muribeca, Ana Martins Marques, William Zeytounlian que me ensina sempre sobre elegância, Júlia de Carvalho Hansen lançou um livro lindíssimo esse ano, e o último de Horácio Costa é foda também.

SM – Há um maniqueísmo meio besta no mundo que quer dividir as coisas entre livro impresso e digital, revista literária e blog, poesia e canção &c. Partindo dessa dicotomia que o povo faz, quero saber se você acha que há alguma diferença estética ou formal, não política, se é que é possível separar essas coisas num discurso, entre poéticas masculinas e femininas. Inclusive no campo da fotografia. E, se há, como lidar, então, com as poéticas de um corpo-poético trans, como o de Georgette Dee, por exemplo?

AI – O problema não é que as poéticas sejam diferentes. Todo mundo é diferente de todo mundo. O problema é que apenas uma delas ganha status de secundária, menor. Esse discurso pau-cêntrico, quando travestido de neutralidade, é o pior de todos.

Os estereótipos ligados à masculinidade (a razão, a força, a lógica) foram estabelecidos como a abordagem ideal e idônea pra falar do mundo; são a medida do ponto de vista e conhecimento relevantes, pretensamente universais, mas na verdade verticalizados e pouco representativos. Enquanto isso, os estereótipos ligados à feminilidade (a emoção, a delicadeza, a intuição) viram prismas de produção de conhecimento de segunda ordem. Não é à toa que as grandes escritoras do século 19 escreviam escondido, né. Elas sabiam que ninguém ia levá-las a sério anyways.

Mas acho que a saída é anarquizar mesmo tudo – as relações, os meios de produção, as instâncias de legitimidade. Georgette Dee é claramente um desafio; Mikky Blanco, Nicki Minaj, Anohni… o que a gente faz com essas poéticas? Aprende né? Escuta e aprende. E o que fazer com Toni Morrison, escritora negra mais importante do nosso século, que diz que foi a maternidade e não a literatura que a libertou? O que o feminismo faz com um dizer desse? Em que gaveta meter essa mulher? Mas assim, o que Nicki Minaj faz não é muito diferente do que Catulo fazia: falar de rola e passar recibo. Quer dizer, é tudo uma questão de identificação (por parte do leitor) e de implodir estruturas (por parte do autor).
Nisso, minha musa maior sempre será Anne Sexton. Porque ela tinha tudo pra ser uma Jackie O’ Marcela Temer escrota dum subúrbio de Boston, mas implodiu o patriarcado de dentro e contou pra todo mundo como foi.

SM – Sherry Simon, em Gender in Translation, começa, logo de cara, dizendo que o problema que se impõe entre original e tradução é um problema de gênero. Para ela, a hierarquia entre esses dois acontecimentos refletem o problema da hierarquia dos gêneros: a tradução, neste caso, considerada feminina, inferior, infiel (la belle infidèle) e mais fraca que o original, forte, autoritário e racional. A partir disso, Simon propõe uma teoria da tradução feminista e mostra como tradutoras têm atuado como ativistas literárias, criando novas linhas de transmissão de conteúdo e contribuindo para um debate cultural. Figura exemplar disso, aliás, é propriamente a Anne Carson, com sua Antigonick. A sistematização e o fortalecimento de uma crítica feminista, aqui no Brasil, pode ser um caminho para implodir essas estruturas tradicionais e estereotipadas?

AI – Sim.

SM – Como você vê a produção atual de crítica e teoria feita por mulheres e sobre mulheres aqui nestes trópicos?

AI – Não sei direito. Gosto de ler as feministas negras americanas, mas não é muito da seara da crítica literária né? (ainda que se possa aplicar). No Brasil, acompanho de perto os textos e as elucubrações online de Carol Almeida, que têm um poder forte sobre mim, porque Carol, além de ser uma crítica foda, é ativista dos direitos homossexuais e pra mim, hetero-cêntrica, é muito importante ter esse contato. Priscilla Campos começa devagar e com potência a se misturar nesse assunto; publicou recentemente um texto maravilhoso no Suplemento de Pernambuco. E gosto de acompanhar os pensamentos da Giovana Dealtry na internet. Mas leio pouca teoria, porque passo muito tempo no bar. Pergunta da minha vida pessoal #soudessas

SM – Há, creio, uma grande diferença entre ser “apenas” poeta ou poeta-professora, poeta-médica, poeta-repórter &c. Desse modo, pra você, que relação é possível estabelecer entre suas condições de poeta, tradutora e fotógrafa? Que relação é possível estabelecer entre seus poemas, suas traduções e suas fotografias? É tudo obra de um mesmo corpo? Se sim, qual influência objetiva esses gestos exercem sobre os outros?

AI – Eu sei que é clichê responder assim mas eu não vejo diferença nenhuma entre essas operações. Não há relação possível de se construir porque não há quebra, para mim elas acabam se tornando métodos, não mídias. Existe um corpo, o do eu-artista, que é a interseção entre todos esses métodos, que é também onde eles se diluem, sabe? Margarida Vale de Gato (#amamos) disse recentemente que “foi uma felicidade perceber que podia ser escritora com a tradução” (isso é muito lindo!) e é bem por aí.

Eu venho do jornalismo, da fotografia documental, então meus trabalhos nascem sempre de uma pergunta, e do querer respondê-la (ou ao menos falar sobre ela), ai vai encontrar a mídia ops o método ideal praquele tema. Por exemplo: entendi (não sem antes tentar muito) que uma “reportagem” sobre estupro só seria resolvida com poesia (eu tinha feito uma série fotográfica sobre abuso sexual no Brasil antes, que nem chegou perto das respostas que cheguei com O Martelo); já o problema da morte simbólica de Recife só rolaria com fotografia (ainda que tivesse tentado, também sem sucesso, escrever sobre isso). E meu problema com a língua enquanto ferramenta insuficiente pra articular a dor só seria abrandado com as traduções de Ingeborg Bachmann e Paul Celan. Soa egocêntrico pra caralho né? E é 🙂

Eu queria muito saber a partir de quando se deu essa ruptura, essa separação. Tu sabe? Essa “setorização” do fazer artístico parece um negócio fordista, o que aperta o parafuso, o que usa o maçarico, o que escreve, o que faz escultura. Meu cu. Sei que no renascimento os artistas faziam de um tudo (aprendi com Italo Diblasi haha). Os surrealistas também deslizavam muito bem entre diferentes mídias; só o que me incomoda neles é que até essa quebra de paradigma também virou statement. Sei que era necessário, e que sem os surrealistas não ia ter Andy Warhol, nem Sophie Calle, nem Bowie, mas fico me perguntando se não é justamente quando a gente reclama o direito de ser/fazer alguma coisa é que a gente reforça as instâncias que nos impedem de fazê-las, sabe? Sei lá.

Enfim, respondendo tua pergunta: para mim são apenas ferramentas diferentes pra satisfazer esse desejo de decifrar os enigmas.
SM – Considerando que seus poemas têm, pelo menos, dois estágios de produção – um de acumulação de experiência, de vida vivendo e outro de preenchimento das lacunas conceituais –, que importância dá pra atribuir ao fato de você viver num outro continente, numa outra cultura, imersa em outra língua no corpus do seu trabalho?

AI – “Imersa em outra língua no corpus do seu trabalho” hahahah ai até perdi a concentração.

Tu falasse de dois estágios de produção, e tem um terceiro, que é o silêncio, que só é possível de se chegar exatamente por causa desse meu exílio de butique (Ted Hughes fala numa entrevista que todo escritor devia morar fora do seu lugar de origem). Esse silêncio é tipo o filme antes de ser exposto à luz, sabe? É onde essa acumulação de experiência e o conceito (ou o desejo, eu prefiro usar “desejo”) se encontram e a coisa se transforma, vira um positivo. Esse silêncio do estrangeiro é importante também porque ele obviamente adiciona concentração.

Aí as duas línguas protagonizam partes bem diferentes da vida. A língua materna acaba virando uma coisa meio preciosa, usada exclusivamente para produzir – não há desperdício. E aí tem outra coisa maravilhosa: a língua do dia a dia (no caso, a alemã) vira uma grande encenação, por ser a língua dos afetos diários mas que sempre sempre sempre será insuficiente, mesmo que a pessoa domine a língua. Então tudo vira um tipo de teatro, e a língua materna está a salvo das chantagens das paixões, e pode existir divina e maravilhosa e soberana na escrita, sem afetações.

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3 comentários sobre “Entrevista com Adelaide Ivánova

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