poesia

Um poema inédito de Tatiana Faia (1986-)

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Tatiana Faia (Portugal, 1986) vive e trabalha em Oxford. É doutorada em Literatura Grega Antiga com uma tese sobre a Ilíada de Homero (Back Across the Barrier of the Teeth. Studies on Homeric Characters: The Iliad). Com José Pedro Moreira e André Simões editou a revista Ítaca: Cadernos de Ideias, Textos & Imagens (2009-2011). Actualmente é editora, com José Pedro Moreira,  Paulo Rodrigues Ferreira e Victor Gonçalves, da Enfermaria 6. É autora de dois livros de poemas: Lugano (2011) e teatro de rua (2013) e de um livro de contos, São Luís dos Portugueses em Chamas (2016). Os seus contos, ensaios, poemas e traduções podem ser lidos, entre outros lugares, em A Sul de Nenhum Norte, Ítaca, Caderno: Enfermaria 6, Modo de Usar & Co., Colóquio/Letras e Relâmpago.  

três visões do paraíso terrestre

1.

entretenho os hábitos dos culpados
como acordar a meio da noite
distrair-me com a chuva contra as janelas
a despontar das árvores
toda a minha atenção no escuro prepara
a inundação de uma visita inesperada

e ninguém em nenhuma destas casas quer saber de espanha
ou vai ser surpreendido por uma morte de sede
ou aceitará um convite para jogar
xadrez às quatro das manhã
nenhum dos habitantes deste bairro
se há-de levantar das suas camas
a meio da noite surpreendido
por coisas que os sonhos sugerem

os meus vizinhos são este tipo de pessoas
cantam na igreja ao domingo
contam as horas de sono que lhes restam a cada noite
acordam alguns minutos antes do despertador tocar
dormem muito e quando sonham
escapa-lhes que se tornaram alheios
a todo um tipo de complicações noturnas

como mulheres solitárias
em estações de comboios desertas
homens que viajam com malas vazias
que chegam a um destino qualquer que não era o seu
e se sentem estranhamente alegres
com a companhia de estranhos
gente que chega a meio
da noite a cidades desconhecidas
e se hospeda numa pensão barata

ninguém aqui alguma vez dirá que das decisões a tomar
muitas serão sempre entre duas coisas erradas
e não é provável que o resultado final seja feliz
dormem tranquilamente nas casas ao longo da estrada
são jovens e bonitos vestem-se com cuidado
gravatas cor de vinho camisas brancas casacos castanhos
as calças um pouco curtas para deixar cintilar
a possibilidade daquela escolha de peúgas ser uma provocação
a mais perigosa provocação de que seriam capazes
nas suas afirmações mais categóricas
dão o dito pelo não dito

e a mim o que me trouxe até aqui
examino as possibilidades deixadas
em aberto por alguns fragmentos
pelo lixo da memória com um cuidado
inútil arquivado em caixas
isto não é nem o melhor nem o pior
de tudo o que podia ter acontecido
é apenas o suportável

e espero pelo poeta que procure
a estátua que se afogou na sua juventude

que amor prendeu estes homens às coisas às casas
tanto que fazem o seu trabalho
e preparam com cuidado
a banalidade de regressos quotidianos
caminhando para dentro e fora de si
como setas procuram os seus alvos

que outro eco ainda podiam
as suas sombras ter prolongado
estendem as mãos para fontes distantes
desconhecem a força da água que delas
corre e de onde emana e não querem saber
desejam beber mas se trazidos até junto delas
se confrontados com o rumor da água
na pedra as suas mãos afrouxam
afinal preferem não beber

como toleraste isto tu?
rodeou-te um cuidado e outro cuidado
seguiste preso à mão que agarrou a tua no escuro
estiveste em jardins que outros
antes de ti ensaiaram
uma maçã e outra e outra
corta o escuro até já não teres
mentira nenhuma a dizer
limpas o suor das mãos à saia
a tua cabeça repousa perto do tronco
raios de luz cortam pela obscuridade das copas
suspendem as aranhas no seu trabalho

o mundo das coisas amadas
não é complicado
mãos construíram muros
e plantaram jardins dentro dos muros e deram-te
as chaves para que pudesses ir e voltar
sem horas certas como e quando quisesses
isto era então o teu poder
e quando te rodearam
em subúrbios fora do limite das cidades
disseste
nas vossas casas
vocês podem dizer-me o que quiserem

os amigos que restam
os que sobrevivem à peste
juntam-se em jardins
pedem que se fechem os portões
as vozes começam por ordem
uma a seguir à outra a seguir à outra
o que se extingue dá lugar
ao que se segue

se levamos uma vida segundo
o que não pode ser dispensado
podia então ser
este jardim fechado no meio do nada
o embalo de vozes familiares
histórias laboriosamente transportadas
de sopro em sopro até se entranharem no sangue

2.

um homem não perde uma cabeça
por esta poder ser cortada
pelo cálice de uma flor

um homem perde a cabeça mesmo se
o seu nome continua a ser o seu nome
e não um rio gelado
a apagar-se dos percursos da infância
onde os barcos se colam às pontes
se perdem na letargia azulada dos caminhos
e assomam em noites que podem durar uma estação inteira
e eu não tenha falhado o encontro
para assistir à ausência daqueles que tenho amado

partidas definitivas todos os dias interrompem
os amigos mais próximos entram pela sua fala
e ela deixa ver a profundidade que se abre a partir de dentro
e inunda os timbres das vozes até elas
se afundarem numa linha que cai em más ligações
e o regresso que daí virá é ainda uma flor desconhecida
de uma estação demasiado tarde, demasiado longe
um pedido que não pode ser feito porque ninguém
existe apenas para te salvar de estar vivo
e o medo da solidão precisa de ser alimentado
todos os dias um pouco para que como um medíocre
não julgues que ganhaste o amor cego dos outros

e este regresso pode bem ser a tatuagem
que não receberás mais tarde
a cara que ainda não mereceste
onde o teu amor falhou era preciso
mais peso mais força uma coragem cega
ou alguém que soubesse como é
falar mais alto
ocupar cada palavra inteiramente

3.

não te demores em livrarias
especialmente nas secções de livros de viagens
não reserves um pouco dos dias para esse silêncio
nessa água rasa nenhuma frase que leias ficará contigo
nenhuma fotografia de lugar nenhum
voltará mais tarde como se fosse uma memória tua
e mesmo aqui não és tu é outra mulher
que suspira impacientemente entre ti
e os países que ocupam a secção entre o d e o i

e não te ponhas a explicar-te que te demoras
por sentimentalidade
que na mais utilitária das secções desta livraria
pessoas procuraram mapas
para caminhos onde esperaram perder-se
desertos onde se morre de calor
latitudes polares onde ninguém imaginaria viver
ilhas imaginárias onde crescem folhas
que se mastigadas te deixariam esqueceres-te de ti

não interrompas os outros na utilidade das suas rotinas
ao empregado de escritório perdoa-se que deixe o emprego
mais cedo para levar a mulher a jantar
a um restaurante suburbano qualquer
ou para frequentar centros comerciais
mas nunca o escapulir-se para ler kafka na biblioteca

aceita que tudo
pode ser perdido realmente
que o que perdeste agora não é um adiamento
algo a que poderás voltar mais tarde
alguma coisa morre em cada pausa
e essa é a única aprendizagem

e não regresses não venhas aqui demorar-te
não imagines que as caras vão ser familiares
que o cheiro a humidade e madeira velha
não foi aquilo que esqueceste
tu não te lembras de nada
nem o que ficou à superfície dos cadernos
é testemunha disto
é outro cheiro são outros rostos
os que agora levantam para ti o olhar
e nunca te vão ver como outros te viram
nos lugares que foram os teus

aprende que o que perdes é a única força
com que o futuro te visita
e quando chegar não sejas hipócrita
não o confundas com esperança nenhuma
convence-te de que não é a ti
que vais encontrar do outro lado
que os teus amantes não te esperaram
que os teus amigos te esquecem um pouco a cada dia
que quando regressas não és tu que regressas
não é de ti que eles estão à espera

convence-te de que nada vai voltar a ser o que foi
nem que voltes mil vezes aos mesmos lugares
nem que te sentes nas mesmas cadeiras
nas mesmas posições às mesmas horas
nem que implores os mesmos pensamentos
os que partem não perdoam
os que partem não são perdoados

e continuam a avançar sempre e não se perturbam
comboios continuam a percorrer em círculos
linhas que mudam a cada estação
é outra cidade a mesma que te devora a cada dia
e nem que implores com o medo estampado
no olhar inoportuno lançado ao homem do relógio
come o relógio e não te procures nos mesmos lugares
aprende que ao partires o que se parte não será renovado
o que te foi dado uma vez e desperdiçaste
não voltará a ser-te confiado

e ao subires as escadas
encaminhando-te para a saída reconhece
que é insuportável a fome subserviente
que sustenta os anjos nos vitrais
a obediência febril que leva gente
a impor sobre gente a vantagem da sua autoridade
mesmo se um deles te estende a mão
e um dedo gelado pousa sobre os teus lábios
tu não estás vivo no que eles tocam
e não vai haver em mim gabriel
silêncio que chegue
nunca houve
e mesmo o sopro
é uma antecipação do toque da trombeta
todos os dias
de sonhos que não cabem dentro de um corpo
e se acalmam só por um pouco
porque a intervalos algumas coisas nos permitem
deixar de existir
permitem a ocupação temporária de outros corpos
permitem que a consciência se anule
e volte como certos elos numa sequência de música
que uma mão deixou para trás há séculos
e só isto explica
que possamos pertencer a tempos onde nunca existimos
e eu sei que a minha vida nesta cidade
ocupou todo o tempo e todo o espaço
e tudo nela foi mesmo meu

e não regresso procuro o teu nome em cidades
que não foram construídas para o meu assalto
delas talvez um pouco se perca a cada regresso
e sei que é impertinente o meu cerco
os meus anjos não se preocupam gabriel
eles não te procuram não apertam as mãos
daqueles que não amam
eles são tão literais que se vestem de vermelho
procuram as sombras dos jardins ao entardecer
e murmuram com os mortais mexericos incoerentes

nunca adormecem com as cabeças entre flores
só porque estão certos de que delas será
sempre esse florescimento inesperado

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