poesia, tradução

Bernadette Mayer (1945 – ), por Stefano Calgaro

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Bernadette Mayer é uma poeta, ensaísta e artista visual Nascida em Brooklyn, Nova Iorque. Tanto associada à escola de nova Iorque quanto ao L=A=N=G=U=A=G=E=P=O=E=T=R=Y, ficou conhecida por uma exposição que mesclava fotografia e narração chamada memory, organizada em 1971. Ela foi professora, editou a 0 to 9 magazine com o artista Vito Acconci e estabeleceu a editora United Artists Book com Lewis Warsh, publicando poetas como Robert Creeley, Anne Waldman e Alice Notley. Publicou diversos livros de poesia, estreando com ceremony latin (1964). Os poemas a seguir foram extraídos do livro A Bernadette Mayer Reader, que contém poemas e excertos dos livros Ceremony Latin, Story (1968), moving (1971), memory (1976), studying hunger (1976), the Golden book of words (1978), midwinter day (1982), utopia (1984), mutual aid (1985), sonnets (1989), the formal field of kissing (1990), the desires of mothers to please others in letters (1994). Bernadette possui uma grande diversidade e mobilidade ao longo de sua obra, que ora vai para o soneto, a sextina, ora o verso livre; ora textos em prosa, com uma presença muito forte de fluxos de consciência, fluidez e uma experimentação textual que se estende tanto à textos mais narrativos quanto poemas que exploram mais a espacialização das palavras no branco da página (embora menos recorrentes). Fez traduções livres e poemas que dialogam com Dante, Horácio e Catulo, mas outros mais próximos de Wallace Stevens, Allen Ginsberg, Charles Bernstein, ou até mesmo John Cage. Bernadette vive em Nova Iorque.

Obs: Priorizei os poemas de Bernadette que tivessem mais essa fluidez e livres associações àqueles mais experimentais, que o são através de formas muito diversas, ora explorando a mobilidade sintática, ora explorando o uso de parônimos, ora explorando a capacidade plurissignificante e móvel das palavras (The Red Rose Doesn’t, the Rose is red does), ora mais sintéticos (Laira Cashdollars), ou mesmo aqueles que, como ditos, exploram mais a sonoridade, a visualidade e a espacialização na página (the sun’s in my eyes).

As únicas traduções que consegui achar em português foram as que estão disponíveis na Modo de usar & Co. (que usei como referencia para a tradução de Eve of easter http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2011/04/bernadette-mayer.html) feita pelo Ricardo Domeneck, a do Rubens Akira Kuana (também usada como referencia para traduzir The way to keep going in antartica https://akirakuana.wordpress.com/2014/02/28/o-caminho-para-continuar-na-antartica-por-bernadette-mayer), e as de Marília Garcia, tanto em seu blog (http://lepaysnestpaslacarte.blogspot.com.br/search/label/bernadette%20mayer) como um texto que saiu na revista Grupo Canoa (Luna Parque).

Stefano Calgaro

* * *

O caminho para continuar na antártica

Seja forte bernadette
Ninguém jamais saberá
Eu vim aqui por uma razão
Talvez haja uma vida aqui
De não ter medo de seu próprio coração batendo
Não tenha medo do seu próprio coração batendo
Olhe as coisas minúsculas com seus olhos
& mantenha-se aquecida
Nada lá fora pode te curar mas tudo está fora
Há uma grande vergonha para o mundo em saber
Que você pôde ter ido tão longe
Talvez seja por isso que você ame tanto a presença de outras pessoas
Talvez seja por isso que você aguarda tão impacientemente
Você não tem mais nada a ensinar
Até que não haja mais pânico em saber de sua própria real existência
& então apenas o especial riso infantil a ser mostrado
& sem mais mentiras sem mais
Não a te encontrar não
Mais voltar & mais retornos
Viagens austrais
Pequenas coisas & não meus próprios escombros
Algo a se lutar contra
& somos todos fluentes sobre nós mesmos
Nossas próprias ideias sobre comida, um molho selvagem
Não há muita razão em terem acabado: mas não falamos deles:
Eu escrevera: “o homem que costurou suas solas de volta aos seus pés”
Então entrei em pânico pelo som do que o vento poderia fazer
Comigo
Se eu rastejasse de volta à casa, dois pés não dão posição, se
Os galhos estalados sobre minha cabeça & a sua ameaça sobre mim, se eu
Cobrisse meu rosto com cerveja & suasse até sua volta
Se eu sofresse que mais poderia fazer

The way to keep going in Antartica

Be strong Bernadette
Nobody will ever know
I came here for a reason
Perhaps there is a life here
Of not being afraid of your own heart beating
Do not be afraid of your own heart beating
Look at very small things with your eyes
& stay warm
Nothing outside can cure you but everything’s outside
There is great shame for the world in knowing
You may have gone this far
Perhaps this is why you love the presence of other people so much
Perhaps this is why you wait so impatiently
You have nothing more to teach
Until there is no more panic at the knowledge of your own real existence
& then only special childish laughter to be shown
& no more lies no more
Not to find you no
More coming back & more returning
Southern journey
Small things & not my own debris
Something to fight against
& we are all very fluent about ourselves
Our own ideas of food, a Wild sauce
There’s not much point in its being over: but we do not speak them:
I had written: “the man who sewed his soles back on his feet”
And then I panicked most at the sound of what the wind could do
to me
if I crawled back to the house, two feet give no position, if
the branches cracked over my head & their threatening me, if I
covered my face with beer & sweated till you returned
If I suffered what else could I do

§

Parecendo partes do Kansas

“we had our first cucumber
Yesterday”
-Nathaniel Hawthorne

New England é péssimo
Inverno de cinco meses
O sol talvez apareça hoje mas isso não significa nada
Há yankees
Homens & mulheres que não podem falar
Usam cores escuras & se arrastam por aí, todos em marrons & cinzas,
Olhando para o céu e fingindo prever todas as
grandes tempestades
Ou então acenam sabiamente
Eh, um vento nordeste
O céu amarelece o tempo todo
O rio é cinza
Tudo é preto ou branco
Todos comem feijões
Tudo congela
Todos vivem em uma casa velha de papel
Pessoas cortam madeira o tempo todo
Deslizam por aí nessas estradas de gelo escorregadias
Todas árvores parecem mortas
Fazem longas sombras na neve
Há apenas luz do dia por cerca de quatro horas
Pessoas sentadas em casa & tomando uns tragos
À noite todos os telefones apagam & fios elétricos vêm abaixo
Todo fim de semana tem uma tempestade então ninguém pode vir te ver
As lareiras são muito arejadas
As montanhas parecem negras
Não há livros nas lojas
A religião é algo importante
Todo mundo tem uma história
O sexo é laborioso para as pessoas de New England
Está -11° & usam olla’s e jontex’s
Algumas pessoas têm um gerador
As Janelas são muito pequenas
Você tem que sair & sentir frio
De repente o céu azul surpreende
Tudo está enterrado sobre cinco pés de neve
Não vai embora até Abril ou Maio
Tudo até maçãs ou algum tipo de abóbora
As casas são caixas vazadas & você não pode abrir as janelas
Pessoas contam histórias umas das outras
Pessoas têm que vir & lavrar a neve para o seu lado
Da rua
Então talham caminhos para carros diferentes
Há reuniões da cidade sobre o novo sistema de esgoto
As ideias das pessoas em geral não são mais elevadas do que
Os telhados de suas casas
Até mesmo a água congela na torneira

Looking like Areas of Kansas

“we had our first cucumber
Yesterday”
-Nathaniel Hawthorne

New england is awful
The winter’s five months long
The sun may come out today but that doesnt mean anything
There are yankees
Men & women who cant talk
They wear dark colors & trudge around, all in browns & greys,
Looking up at the sky & pretending to predict all the
Big storms
Or else they nod wisely
Yup, a northeaster
The sky turns yellow all the time
The river’s grey
Everything’s black or White
Everybody eats beans
Everything freezes
Everybody lives in na old paper house
People chop wood all the time
They slide around on these slippery icy roads
All the trees look dead
They make long shadows on the snow
There’s only daylight for about four hours
People sit home & drink boilermakers
At night all the telefones go out & the power lines blow down
Every weekend there’s a storm so nodoby can come to see you
The fireplaces are very drafty
The mountains look black
There are no books at the store
Religion’s a big thing
Everybody has a story
Sex is drudgery for people in New England
It’s 12° & they use trojans or tahitis
Some people have a generator
The Windows are very small
You have to go out & get cold
All of a sudden the blue sky blows away
Everything’s buried under five feet of snow
It doesn’t go away until April or May
Everything’s either apples or some kind of squash
The houses are all drafty boxes & you cant open the Windows
People tell stories about each other
People have to come & plow the snow off to the side of
Your road
Then people shovel pathways to different cars
They have town meetings about the new sewer systems
The ideas of people in general are not raised higher than the
Roofs of their houses
Even the water freezes in the tap

§

Véspera de páscoa

Milton, que fez suas filhas iletradas
Lerem para ele em cinco idiomas
Até ouvirem as novidades de que ele se casaria de novo
E disseram que preferiam ouvir que estava morto
Milton que transforma até O Paraíso Perdido
Numa autobiografia, eu tenho três
Bebês esta noite, todas três dormindo:
Rachel a ta ta taraneta
De Herman Melville está adormecida na cama
Sophia e Marie estão dormindo
Sophia homônimo das esposas
De Lewis Freedson o acadêmico e Nathaniel Hawthorne
Marie o nome mais antigo da minha mãe, essas três meninas
Descansam no escuro, eu fiz o escuro luzente
Roubei imagens de Milton para curar o negrume opaco
tornar o quarto um globo debaixo dessa rouca
lua de março, eclipsada apenas à luz diurna
corpos de bebês respirando pesado
Filhas e descendentes na presença
Dos grandes, Milton e Melville e Hawthorne,
Todos estão falando
Ao mesmo tempo, apenas as olhei todas mescladas
Cada uma metade semita, de uma raça sempre em guerra
O resto de sua graça herdada
dos nórdicos, germanos e ingleses,
Escritores em paz
apressando judeus em guerra para a democracia quando na verdade
A paz está à janela implorando entrada
Com as hordas no meio do ar
Frio demais para essa época do ano,
Véspera de páscoa e a ideia chocante de ressurreição
Agora a bebê de alguém se agita, faminta por um ovo,
É a bebê Melville, indo à gritaria
A de Melville chupando seus dedos por consolo
Ela faz um barulho de grunhido
Bebê Hawthorne ainda profundamente adormecida
A que parece minha mãe apagada como luz
A de Melville mesmo sendo a menor é a que mais quer
Porque na verdade não mora aqui
Hawthorne vai querer ser amamentada quando acordar
Melville mamou um pouco e voltou pro cochilo
Agora Hawthorne está se mexendo, é a mais faminta
Mas talvez a mais encantada pela escuridão no quarto
Posso ouvir Hawthorne, sei que está acordada agora
Mas será que vai se agitar, perturbando o plácido sono
De Melville e insistindo em acordar todos nós
Enquanto isso o resto das pessoas de Lenox
Dirigem rua a cima e abaixo
Agora Hawthorne quer comer
Todas veem a luz à qual escrevo, Hawthorne suspira
A casa está quieta, escuto o brinquedo de Melville
Nunca troquei as fraldas de um menino
Acho que vou pegar Hawthorne e amamentá-la pelo prazer
De cortar através da escuridão antes que seu barulho comedido
Estimule meninos, vou cozinhar um peixe
Reter aprumo na presença
Dos descendentes intrépidos, obstinados seus pais
Olham pra mim e bebem tinta
Eu devolvo um olhar para todas as filhas e pisco
Véspera de páscoa, eu herdei este
Sono tranquilo dos filhos de homens
Rachel, Sophia, Marie e eu de novo
Bernadette, toda coração eu vivo, toda cabeça, toda olhos, toda ouvidos,
Eu perdi o preconceito do paraíso
E acabei cuidando dos bebês desses caras

Eve of Easter

Milton, who made his illiterate daughters
Read to him in five languages
Till they heard the news he would marry again
And said they would rather hear he was dead
Milton who turns even Paradise Lost
Into a n autobiography, I have three
Babies tonight, all three are sleeping:
Rachel the great great great granddaughter
Of Herman Melville is asleep on the bed
Sophia and Marie are sleeping
Sophia namesake of the wives
Of Lewis Freedson the scholar and Nathaniel Hawthorne
Marie my mother’s oldest name, these three girls
Resting in the dark, I made the lucent dark
I stole images of Milton to cure opacous gloom
To render the room an orb beneath this raucous
Moon of March, eclipsed only in daylight
Heavy breathing baby bodies
Daughters and descendants in the presence of
The great ones, Milton and Melville and Hawthorne,
Everyone is speaking
At once, I only looked at them all blended
Each half Semitic, of a race always at war
The rest of their inherited grace
From among Nordics, Germans and English,
Writers at peace
Rushing warring Jews into democracy when actually
Peace is at the window begging entrance
With the hordes in the midst of air
Too cold for this time of year,
Eve of Easter and the shocking resurrection idea
Some one baby stirs now, hungry for an egg
It’s the Melville baby, going to make a fuss
The Melville one’s sucking her fingers for solace
She makes a squealing noise
Hawthorne baby’s still deeply asleep
The one like my mother’s out like a light
The Melville one though the smallest wants the most
Because she doesn’t really live here
Hawthorne will want to be nursed when she gets up
Melville sucked a bit and dozed back off
Now Hawthorne is moving around, she’s the most hungry
Yet perhaps the most seduced by darkness in the room
I can hear Hawthorne, I know she’s awake now
But will she stir, disturbing the placid sleep
Of Melville and insisting on waking us all
Meanwhile the rest of the people of Lenox
Drive up and down the street
Now Hawthorne wants to eat
They all see the light by which I write, Hawthorne sighs
The house is quiet, I hear Melville’s toy
I’ve never changed the diaper of a boy
I think I’ll go get Hawthorne and nurse her for the pleasure
Of cutting through darkness before her measured noise
Stimulates the boys, I’ll cook a fish
Retain poise in the presence
Of heady descendants, stone-willed their fathers
Look at me and drink ink
I return a look to all the daughters and I wink
Eve of Easter, I’ve inherited this
Peaceful sleep of the children of men
Rachel, Sophia, Marie and again me
Bernadette, all heart I live, all head, all eye, all ear
I lost the prejudice of paradise
And wound up caring for the babies of these guys

§

Poema

Estou começando a alterar
a locação desse porto
agora encontra com um canal
juntando um lugar ao outro.
Então continua
como se numa cidade
habilidosa de uma mão
cheia de algumas coisas
e não outras.
Olhos descansam
e vemos o que está
diante de tudo o mesmo.
Apesar de implicar um começo
ao qual atribuímos ponto algum
isso tem um fim,
pois nenhum bispo de alguma importância
constrói sua tumba em tempo ruim.

O fim que vem
não é tão importante quanto o movimento
preso no ar
pausando em seu curso.
Para então mudar
reverta o trem
de uma linha em andamento,
e como antes
deve girar e endereçar
a um novo local
a ser visto por baixo.
Essa conversa volante
aloca a cena
a um sino.

Eu contei mais
do que pode ser visto.
O sino faz seu truque
mais que uma ópera.
Se você viu o mundo de um navio
então você não viu
o que o navio deixa cair no mar
para escurecer seu topo e fazer crescer.
Para sair desse porto
você deve ser um cortador de redes.

Poem

I am beginning to alter
the location of this harbor
now meets with a channel
joining one place with one.
Then it continues
as if in a town
artfulness of a hand
full of some things
and not others.
Eye rests
and we see what is
before everything else the same.
Though this implies a beginning
to which we ascribe no point
nevertheless it has an end,
for no bishop of any importance
constructs his tomb in a bad time.

The end which comes
is not as important as the motion
held in the air
pausing in its course.
To switch then
reverses the train
of a running line,
and as before
may wheel and address
to a new location
to be seen beneath.
This flying conversation
sets the scene
to a bell.

I have told more
than can be seen.
The bell makes its trick
more than an opera.
If you have seen the world from a ship
then you have not seen
what the ship lets fall into the sea
to blacken its top and make it grow.
To get out of this seaport
you must be a cutter of networks.

§

O que os bebês realmente fazem

Luz como a vida em que estou
Quem disse isso você disse eu disse
Comer não calha com prosa
Ou poesia, espaguete talvez

Janela afora um dia fresco e cinza de primavera
O chão não está molhado ainda
Algo salta & ata

Mães sempre muito específicas
Onças de libras, prata em prata
Na verdade eu não comeria moluscos com uma colher
É muito borrachoso

quando estou feliz amiúde um medo me assalta-
Não medo que a alegria acabe, mas medo que as circunstâncias
Além de meu controle e inesperadas se erguerão para me prevenir
De jamais sentir alegria de novo

Compraremos vestidos de Boston
Como a exaltação de uma fruta lacrada
Banana pura com a exaltação
Da tarde em sua pele

Rheingold kasha scoth kooler
Deixo pensamentos intermináveis passarem através
Como o arroz que parece um ventre
Não tenho minha própria voz

Então rapidamente termino o prazer
Do primeiro dia cinza que foi deveras
castanho no ar, muitas árvores
estalaram ao meio nesse inverno

Um grande bordo ameaça a casa
Com seu latido vazante, uma racha
Bem abaixo de um galho
Concordamos que cairá mas em que direção

Missangas de arroz estradas esburacas muitas coisas
Em minhas ideias, eu gosto d’O New Yorker
Onde poemas não tem ideias
Eu gosto dos bordos melosos perdendo galhos sobre mim

A estrada marrom é ok, cheiro de bananas
Pássaros são bons, você vive dentro deles
Achamos seu deslize você deveria ver minha vista
Você se esqueceu de me lembrar de não tomar outra cerveja

É uma tarde interminável, se recusa a chover
Encho minha boca com a fumaça tipo-Dashiell-Hammett
Se recusa em ser consistente
Como há ingredientes por tudo

& mais galhos, pernas de cadeiras
& mais farinha, fico bem com a comida
Atum tempero Kasha Varnishkas
Cento e um filés

Não apenas pão escuro
Mas pão escuro com passas
Você pede mais que cinco libras de laranjas
Carrego um fardo atrás do meu jeep ou guardo

Sementes de girassol para substituir a vista de uma
vida como ela é
Os galhos cinzentos não se moverão
A não ser que o vento os sopre

Ela se movimenta como de costume à melodia
É um luxo ficar dentro
Não terminei de
Cantar bem alto

Escute, grasne grasne
Broo ah ha ha
Pensamentos desfiam
Corra atrás dela

O sol ganhou a borda do vento é frio dois três
Nada além de poesia
Ah ha escuto

What babies really do

Light like the life I’m in
Who said that did you say that did I
Eating doesn’t go with prose
Or poetry, spaghetti maybe

Out a window cool spring gray day
With only tips of trees in buds
The ground’s not wet yet
Something leaps & bounds

Mothers always too specific
Ounces of pounds, silver on silver
I wouldn’t actually wat a clam with a spoon
It’s too rubbery

Often when I’m happy a fear comes over me-
Not fear that the joy will end, but fear that circumstances
Beyond my control and unexpected will arise to prevent me
From ever feeling joy again

We’ll get dresses from Boston
Like the elation of a sealed fruit
Pure banana with the elation
Of the afternoon in its skin

Rheingold kasha scotch kooler
I let endless thoughts go by in between
Like the rice that looks like a belly
I don’t have my own voice

So I quickly end the pleasure
Of the first gray day that was truly
Brown in the air, many trees
Have snapped in half this winter

One big maple threatens the house
With its leaking bark, a crack
Right down the side of an arm of it
We agree it’ll fall but in what direction

Rice beads rutted road too many things
In my ideias, I like The New Yorker
Where the poems have no ideas
I like the gray sappy maples losing their branches over me

The brown road’s ok, smell of bananas
Birds are good, you live inside them
We found your slip you should see my view
You forgot to remind me not to have another beer

It’s an endless afternoon, it refuses to rain
I fill up my mouth with Dashiell-Hammett-type smoke
It refuses to be consistent
As there are ingridients all over

& more branches, chair legs
& more flour, I sit with the food
Tuna temper kasha varnishkas
A hundred and one fillets

Not just brown bread
But brown bread with raisins
You order more that five lbs of oranges
I carry a crate in the back of my jeep or keep

Sunflower kernels to replace the sight of one
Life like it is
The gray branches wont move
Unless wind blows them

She’s in motion as usual to the tune
It’s a luxury to stay inside
I haven’t finished
Singing outloud

Listen, gaggle gaggle
broo ah ha ha
thoughts unravel
run after her

the sun won the edge of the wind is cold two three
nothing much but poetry
ah ha I hear

§

Uma mulher eu misturo homens…

Uma mulher eu misturo homens
Em meus sonhos & outras maneiras, imagino
Se isso é o mesmo que saber
O que é & não é socialismo, um homem tenho certeza

Faz a mesma coisa, misturando
A mãe pela amante ou
Vice versa sem mencionar as misturas
do poderoso homossexual que acontecem
tanto quanto, ó deus quem

deve ser ele ou ela, eu te pergunto
porque é David Lewis ou Lewis Ed?
Porque Anne Catherine ou Catherine Ted?
Porque não tenho ou não quero ter certeza
Levanto essas perguntas aos céus
Onde eu pude, como proposto por uma criança
Sentar em uma nuvem arriscando cair através
Deveria a criança saber a nuvem não é sólida
& deveria não trazer paraquedas, eu sinto

O risco tão grande em amar como é
Em votar & seu meu encontro com o amante mesmo
Nos sonhos essa outra mulher ou homem de seu próprio sexo
Parecem o jornal, muito previsível
Que tipos em que trajes irão aparecer
Fazendo o que em que posturas, ternos & poses, refazer

O mundo não é algo que as pessoas sonham o bastante, um
Não deveria usar a palavra sonho & um não deveria usar
As palavras deveria e não deveria, livrar-se do livro & não encontrar
Expectativas, compreender liberalismo não é
O mesmo que conservadorismo ou (deus me perdoe) misticismo, há
Manhã e há meio dia e há noite, há
Fases dessa lua factualmente atadas à terra

Dilacerar dicionários, eles ainda não
Contam a verdade, misturo palavras com verdade
E abstração com presença, quem liga
Sem forma quem eu sou, sei que vou em algum momento morrer
Mas vocês dois, deus e essa sua imagem a bomba nóia
Vivem para sempre a destruir o eterno o imortal
No que costumavam chamar Homem, não agora.

A woman I Mix Men Up…

A woman I mix men up
In my dreams & other ways, I wonder
If this is the same as knowing
What is & is not socialism, a man I’m sure

Does the same thing, mixing up
The mother for the lover or
Vice versa not to mention the mighty
Homosexual mix-ups which happen
Just as much, oh god whoever

He or she might be, I ask you
Why is David Lewis or Lewis Ed?
Why Anne Catherine or Catherine Ted?
Because I am not or don’t want to be sure
I raise these questions to the heavens
Wherein I might, as proposed by a child
Sit on a cloud risking falling through
Should the child know a cloud is not solid
& should she bring no parachute, I feel

The risk’s as great in loving as it is
In voting & your my lover’s meeting even in
Dreams this other woman or man of your own sex
Seems like the newspapers, all too predictable
What types in what outfits’ll appear
Doing what in what postures, suits & poses, to remake

The world is something not enough people dream of, one
Souldn’t use the word dream & one shouldn’t use
The words should and shouldn’t, cast off the book & find
No expectations, understanding liberalism’s not
the same as conservatism or (god forbid) mysticism, there is
morning and there is midday and there is night, there are
phases of this moon factually attached to the earth

scatter the dictionaries, they don’t
tell the truth yet, I mix up words with truth
and abstraction with presence, who cares
without a form who I am, I know I will timely die
but you two, God and this his image the Junky bomb
live forever to destroy the eternal the immortal
in what they used to call Man, now not.

§

Oito quarteirões

para Bill Kusher

Um vestido roxo bem bonitinho
Uma caixa de filmes coloridos
Um homem com flores para sua Outra, e então outra,
Mulheres europeias andando de braços dados
Quão sozinha estou nessa longa fila
Os policiais dizendo não é sensato ser
Uma mulherzinha de ética, ela suspira, eu gesticulo,
Ela diz, se você andar rápido você se cansa e se
Você andar devagar também, ela esquece eu esqueço
Os dedos elevados do sol nós cantamos
Em vozes justas para a virgem Sra. Kerchief-Cane
(recuar numa caminhada é ok) quem era aquele homem
Que sabia o que estava atrás de mim, agora vai chover,
Venta no paetê liso de um homem gordo
Há dois lados diferentes da rua
Entre eles há o trânsito da avenida
Na qual há quatro esquinas para se encontrar,
Cigarros franceses na janela árabe
Então a salvo na suada escola pública
Mas mães e pais estão muito adiantados
Em resgatar cada bebê de um dia de rigidez
Pais em massa como se num desastre e escondidos nos degraus
Espiam na janela da porta trancada da sala
Eis aquela mulher que vi esta manhã
Levando seus cigarros como um buquê de casamento

Eight blocks

For Bill Kushner

A very nice little purple dress
A box of colored film cans
A man with flowers for his Other, then another,
European women walking ar in arm
How lonely I am in this long line
Cops saying it’s not sensible to be
Pretty women of ethics, she sighs, I gesture,
She says, if you walk fast you get tired and if
You walk slow you still do, she forgot I forgot
The elevated fingers of the sun we sang
In just voices to virgin Mrs. Kerchief-Cane
(to backtrack on a walk’s ok) who was that man
Who knew what was behind me, now it’s gonna rain,
Wind on the fat man’s flat sequins
There are two different sides of the street
Between them is the traffic of the avenue
There are four corners on which to meet,
French cigarettes in the Arabian window
Then safe in the sweaty public school
But mothers and fathers are too early
To rescue each baby from a day of rigidity
Parents mass as at disasters and hide on steps
They peek in the window of the locked room’s door
There’s that woman I saw this morning
Carrying her cigarretes like a wedding bouquet

§

O fenômeno do caos

O amor hoje não está intento o que eu vi
Um banco, uma loja, padrões de folhas
Caindo na quadra de basquete porque
A chuva seguiu a fumaça do incêndio de onze estados

A sair do universo você poderia
Acreditar nada está conferido
Mas nós não exatamente existimos não é
Caso contrário como poderíamos

Será que você me ama quando o sol da terra
Se põe em sua canção em sua língua
Isso é ridículo o universo
Não é mais uniforme

Com isso quero dizer o universo nem é ou não é
Um padrão de nada o amor não volta mais

The Phenomenon of chaos

Love’s not intente today what did I see
A bank, a store, a pattern of leaves
Fallen to the basketball court because
Rain followed the smoke of eleven states’ fires

To exit from the universe you could
Believe nothing is checked on
But we don’t exactly exist do we
Otherwise how could we

Do you love me when the earth’s sun
Sets on your song on your tongue
This is ridiculous the universe
Is no longer uniform

By this we mean the universe’s not or aint
A standard of nothing love’s turning no more

§

Catulo #48

Eu beijaria seus olhos trezentas mil vezes
Se você me deixasse, Juventius, beijá-los
O tempo todo, seus olhos queridos, olhos de mel
E mesmo que o campo formal do beijo
Tivesse mais beijos do que há milhos nos campos de agosto
Eu ainda não teria me cansado de você

Catullus #48

I’d kiss your eyes three hundred Thousand times
If you would let me, Juventius, kiss them
All the time, your darling eyes, eyes of honey
And even if the formal field of kissing
Had more kisses than there’s corn in August’s fields
I still wouldn’t have had enough of you

§

Soneto do manicatriardo

Não sou nada a não ser uma lista de coisas a fazer
Isso não é etcetera ou chuva reta também não
Acho que fiz as coisas que podem ajudar os outros
Por Marie por Danine por Wanda pelos escritores de sci-fi
Comecei a escrever a carta sobre meu novo livro de caretas
Então parei, mãe, pra ver se você estava por perto
Apenas enganando seu preventivo de toda minha moção
Mas eu fiz mesmo assim então quer ver uma enorme arvore imóvel
Absenta das historias de sci-fi sobre dignidade
A maneira que garotas podem falar sem contar
Com uma temível seita do absoluto que ninguém aprovaria
Especialmente meus pais fanáticos que poderiam amá-la

Falem garotas falem noite adentro
Talvez haja um segundo que rime com desastre

Manicatriarchic sonnet

I am nothing but a list of things to do
This is not etcetera or red umbrella either
I think i did the things that might help others
for Marie for Danine for Wanda for the scifi writers
I started to write the letter about my new book of frowns
And the I stopped, mother, to see if you were around
Only fooling your preventer of all my motion
I did though then want to see a big immobile tree
Absent from the scifi histories of dignity
The way girls can talk without counting in
Some fearsome sect. Of the absolute no one’d aprove of
Especially my bigoted parentes who could love them

Talk girls talk on into the night
There might be a second that rhymes with disaster

§

América

Quanto a mim, quando te vi
Estavas num conto
Pensando talvez o amor também virá
Na América
Ou talvez como o que é tardio em um conto
Se torna verdade,
A cena está simplesmente descrevendo seu uso.

Você não tinha esperança
Mas a amplidão dos dias, como no céu
Sobre o qual eu já sabia.

Essa informação delicada
Vem como uma prescrição.

Notar um amigo
Que está escrevendo uma nuvem
Que caso contrário cai indiferentemente
Não é traço distintivo.
Essa é a diferença
Entre o passado e sonhos,
Descartar uma efígie
Que parece estar cantando.

America

As for me, when I saw you
You were in a tale
Thinking perhaps love is coming too
In America
Or perhaps as what is belated in a tale
May come true.
The scene is simply describing its use.

You had no hope
But the length of days, as in the sky
About which I already knew.

This gentle information
Comes as a prescription.

To notice a friend
Who is lettering a cloud
Which otherwise falls indifferently
Is no mark of distinction.
This is the difference
Between the past and dreams,
To dismiss an effigy
Which appears to be singing.

(trad. de Stefano Calgaro)

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