poesia

Italo Diblasi (1988-)

15978117_10208599647008859_3808501884792922009_n

Foto: Adelaide Ivánova

Italo Diblasi nasceu no Rio de Janeiro em 1988. Publicou o livro o limite da navalha (garupa, 2016), tem poemas publicados no jornal AGULHA e em revistas digitais como Modo de usar & co. e Mallarmargens.

 

sergio maciel

* * *

uma dose de serotonina
apenas porque morremos
em algum canto da China um
filósofo camponês decretou
que o sono é obsoleto

apenas porque morremos
o cinismo o capitalismo o freudo-
niilismo, as canções de ninar

você não acreditaria que a carne
em decomposição libera odores
que excitam a fome de certas espécies

você não acreditaria que eu sigo
mentindo e que agora as mentiras
são quase bonitas

apenas porque morremos:
a beleza.

apenas porque morremos
o sol voltará amanhã
exigindo que ao menos
um
de nós
tente de novo

você não acreditaria nas coisas
que tenho tentado provar –
a libido, o corpo, o frio
(sobretudo o frio)

você não acreditaria que
apenas porque morremos
as coisas ainda brilham

que apenas porque morremos
ainda somos necessários

e que novamente e pela última vez
(é sempre pela última vez)
tornaremos a amar & viver & perder
porque estamos sempre perdendo
e é exatamente por isso que somos
como anjos, querida, somos como
anjos que se mijam nas calças e
lêem milagres nas castanheiras

você não acreditaria, mas você
viu o milagre quando se olhou
no espelho pela primeira vez

e apenas porque morremos não
deveríamos nos olhar nos espelhos
por mais de uma vez

mas você
carrega
a delicadeza das pedras

você jamais acreditaria
que nós sequer morremos

§

a quimera
governo propõe que jornada de trabalho
diária tenha 12h. coréia do norte
confirma que fez teste nuclear. após
quatorze jogos, inter reencontra a vitória
diante do santos. Obama aperta a mão
de líder que xingou sua mãe. SP tem mais
um protesto contra Temer. Odair tem recurso
negado e fica sem o ouro. Marquezine
arrasa com decotão. áudio mostra que seis
jovens são suspeitos de matar jornalista.
sem sutiã, sofia richie ousa de top.
policial resgata 43 cães em casa de SP.
gabigol revela motivo de não jogar
na europa. senado aprova texto de reforma
ministerial. daniel dias leva a décima
sexta medalha da carreira. Menina é estuprada
por 33. timão atropela sport. indiana
sobrevivente de ataque a ácido desfila
em new york. Iphone 7 tem usuários
insatisfeitos. conflito fundiário deixa
dezenas de feridos. nova curadora
da FLIP quer mudanças. jogo de tiro
leva jovem a matar dois. eu morro
por descuido. você morre por precaução.

 

§

lírica mofada
vamos fazer assim: estabelecer
uma relação, eu & você.
imagine que este encontro se dá
no inferno da linguagem.
caixa de texto. isso aqui.
olá, meu chapa.
hate the game, not the player.
em outro cenário poderíamos
até nos gostar. a espécie
tende a isso: entropia.
mas voltemos à nossa nova
relação: a raiva é inerente.
você pode descarregar a sua aqui.
prometo atenção, mas não se
confunda: isso não é um diálogo.
para todos os efeitos sou uma
voz na sua cabeça. você pode
descarregar a sua raiva aqui.
uma ressalva: a narrativa deve
ser melhor que isso. o coração
é um músculo sufocado. todas
as tragédias do amor são nobres.
daqui a pouco já estaremos mortos.
a ideia da novela infernal
é interessante:
investir nisso.

 

§

trois couleurs

 

p/ a Mari

1. azul

M. viu um rato dentro de casa
já não me recordo se morto
ou vivo, mas viu esse rato
que era um filhote e se lembrou
da juliette binoche no filme
do Kiéslowski, como era triste
esse filme, ainda que belo, e há
uma tristeza nos olhos de M.
os olhos através dos quais tento
imaginar o filhote e há
uma beleza nos olhos de M.
a imobilidade febril na memória
do dia em que como juliette
ela só olhou para o rato
e lembrou
que a liberdade é azul

2. branco

M. dormiu no trabalho e foi
enganada pela estelionatária
da lapa quando lhe deu
todo o dinheiro
(que havia ganho dormindo)
e isso ela me conta sorrindo
porque afinal nosso drama
não se passa na polônia e não há
nada de branco na igualdade
da noite em que uma mulher,
estelionatária ou não, necessita
mais do dinheiro que outra

3. vermelho

agora é madrugada
e nas janelas acesas talvez
um homem espie os vizinhos
talvez esteja sozinho e colecione
narrativas
agora M. vai para casa
e talvez beije a testa da irmã
talvez se jogue no sofá
(ama aquele sofá)
beba um copo de vinho
e assista a um filme
sobre um casal
que tenta
timidamente
se olhar nos olhos
mas dorme
antes do fim

Anúncios
Padrão

4 comentários sobre “Italo Diblasi (1988-)

  1. Pingback: Entrevista com Adelaide Ivánova | escamandro

  2. Gosto de poesia, mas infelizmente é o gênero literário que leio menos. O Ítalo Diblasi me pareceu bom; pôde figurar bem o quanto a natureza é mais forte do que nós, e que somos apenas uma parte reduzida dela: “apenas porque morremos”. Felicite o poeta por mim.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s