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Glória Anzaldúa (1942-2004), por Thais Soranzo

gloria

NO ano passado fui convidada, junto de outros poetas-tradutores, a escrever para o Suplemento Pernambuco uma indicação de poetas para serem traduzidos no Brasil. A matéria tem rendido belezuras: em sua disciplina sobre Tradução Literária no IEL/UNICAMP, o professor Marcos Siscar solicitou como trabalho final uma tradução de cada aluno; e alguns deles traduziram poetas que indiquei no especial do Suplemento Pernambuco 🙂 

Jennifer Araújo já apareceu aqui com traduções de Carina Sedevich. Hoje é a vez de Thaís Soranzo, com a incrível Glória Anzaldúa

nascida no Vale do Rio Grande, no sul do Texas, em 1942, e autodeclarada mestiça,  Gloria Evangelina Anzaldúa, foi acadêmica, ativista política, feminista, escritora e poeta. Mais conhecida como autora de Borderlands/La Frontera: The New Mestiza (San Francisco: Aunt Lute Books, 1987), uma coleção híbrida de poesia e prosa escolhida como um dos 100 Melhores Livros do Século pelo Hungry Mind Review e Utne Reader.
Autora versátil, Anzaldúa publicou poesia, ensaios teóricos, contos, narrativas autobiográficas, entrevistas, livros infantis e antologias de vários gêneros. Como uma das primeiras autoras americanas de origem mexicana assumidamente lésbica, Anzaldúa desempenhou um papel de grande relevância na redefinição de identidades chicanas, lésbicas e queer. Como editora ou co-editora de três antologias multiculturais; também desempenhou um papel vital no desenvolvimento de um movimento feminista de que trouxe valiosas contribuições para os estudos que interseccionam, dentro do feminismo, a categoria mulher com outras, como “raça”, “cor”, “região” etc.

***

O espaço da fronteira, para Glória Anzaldúa, não se restringia a uma delimitação geográfica, mas sim representava uma metáfora que problematizasse outras questões de identidade, como, por exemplo, a do idioma falado pelos chicanos e chicanas. Embora nascidos nos Estados Unidos, são descendentes de mexicanos e assim, apesar de possuírem o domínio fluente do inglês para se comunicar na vida social, também consideram o espanhol como língua materna, já que é o idioma usado entre os membros da família.

Ao mesmo tempo em que o espanhol representa um caminho para resgatar as origens chicanas, o inglês permite que a identidade anglo-americana não seja negada. Por sua vez, esse uso simultâneo do espanhol e do inglês na criação artística de Anzaldúa caracteriza não apenas a temática da interligação entre culturas, mas também a própria estrutura formal dos poemas.

No entanto, além da mescla entre o inglês e o espanhol – mais especificamente o vocabulário usado pelos chicanos –, os poemas de Anzaldúa contêm referências culturais e geográficas típicas do sul dos Estados Unidos. Assim, a tradução dos poemas lidou diretamente com estas problematizações: de que maneira o leitor brasileiro poderia de fato compreender a tensão existente no convívio entre a cultura mexicana e a anglo-americana sem saber o inglês e o espanhol? Ou ainda, como representar essa experiência se esse leitor não está habituado a certos fatores culturais e até mesmo geográficos característicos dessa região?

O dilema de traduzir ou não todos os termos em inglês/espanhol ou a tentativa de preservar de alguma forma uma referência local estão relacionados às imagens predominantes dos poemas. Tentei ao máximo preservar essas imagens, por vezes bastante fortes, pois Anzaldúa com frequência utiliza metáforas da lavoura para ratificar a agressividade de certas cenas. Assim, os poemas aqui selecionados possuem sujeitos, registros e temáticas diferentes, representando cada um a seu modo a experiência ambígua da fronteira. Por isso, cada poema precisou de um cuidado especial, não sendo possível estabelecer um padrão de escolhas tradutórias que se aplicasse a todos eles. Mas Glória Anzaldúa talvez fosse a primeira afirmar que, ao se tratar de culturas, não se pode estabelecer padrões.

Thaís Soranzo

***

Chamamos eles de sebosos

Eles estavam aqui quando cheguei
plantando milho nos seus pequenos ranchos
criando gado, cavalos
cheirando à fumaça e a suor.
Sabiam quem era foda:
tiraram o chapéu
colocaram sobre o peito,
baixaram os olhos na minha presença.

Não faziam questão de ter muita coisa,
nem sequer eram donos da terra, mas a repartiam.
Não era difícil expulsá-los dali,
covardes, isso sim, não têm peito pra aquilo.
Mostrei pra eles um papel com qualquer coisa escrita
disse que deviam impostos
precisavam pagar agora ou cair fora mañana.
Depois que eu e meus homens sacudimos
aquele mesmo papel pro resto das famílias
ele já não tinha mais borda.

Uns levaram suas galinhas crianças esposas e porcos
em carroças bambas, panelas e ferramentas chacoalhando
tilintando por todos os lados.
Não podiam levar o gado –
durante a noite meus garotos botaram o terror.
Ah, mas ainda tinha os encrenqueiros
falando que a gente é que era intruso.
Alguns tinham concessão da terra
e recorreram aos tribunais.
Era o maior sarro
eles tentando falar inglês.
Uns ainda não queriam sair dali
mesmo depois de tudo ter sido queimado.
E as mulheres — bem, lembro de uma em particular.

Ela estava embaixo de mim chorando.
Meti nela com força
continuava forçando e forçando
notei que ele olhava da árvore
escutei ele grunhindo como um animal selvagem
naquele momento senti imenso desprezo por ela
cara redonda e olhos pequenos iguais de uma índia.
Depois sentei na cara dela até
que seus braços parassem de se debater,
não queria gastar uma só bala com ela.
Os garotos não me olhavam nos olhos.
Fui até o marido preso na árvore
e cuspi na cara dele. Linchem ele, disse aos garotos.

We Call Them Greasers

I found them here when I came.
They were growing corn in their small ranchos
raising cattle, horses
smelling of woodsmoke and sweat.
They knew their betters:
took off their hats
placed them over their hearts,
lowered their eyes in my presence.
Weren’t interested in bettering themselves,
why they didn’t even own the land but shared it.
Wasn’t hard to drive them off,
cowards, they were, no backbone.
I showed ‘em a piece of paper with some writing
tole ‘em they owed taxes
had to pay right away or be gone by mañana.
By the time me and my men had waved
that same piece of paper to all the families
it was all frayed at the ends.
Some loaded their chickens children wives and pigs
into rickety wagons, pans and tools dangling,
clanging from all sides.
Couldn’t take their cattle –
during the night my boys had frightened them off.
Oh, there were a few troublemakers
who claimed we were the intruders.
Some even had land grants
and appealed to the courts.
It was laughing stock
them not even knowing English.
Still some refused to budge,
even after we burned them out.
And the women — well I remember one in particular.
She lay under me whimpering.
I plowed into her hard
kept thrusting and thrusting
felt him watching from the mesquite tree
heard him keening like a wild animal
in that instant I felt such contempt for her
round face and beady black eyes like an Indian’s.
Afterwards I sat on her face until
her arms stopped flailing,
didn’t want to waste a bullet on her.
The boys wouldn’t look me in the eyes.
I walked up to where I had tied her man to the tree
and spat in his face. Lynch him, I told the boys.

§

 

Cagado abismo, quero saber

por que durante as geadas de novembro
arrasto meu corpo bruto até seu focinho
por que em janeiro tremo de frio esperando abril.
Quero saber, maldito abismo
por que estou cercada por paredes
prisioneira ante uma fome
que não tem nome
por que fui tonta, por que sou desgraçada.
Te digo, you fucker, nunca quis
que você roçasse sua boca na minha.

 Aqui estou, estalando os dedos
tentando ver o futuro nas cartas
me envolvendo mais nas suas barbas
fazendo perguntas a Urano.
Quero saber por que a alma indomada
continua a perseguir
minha carne bruta entre os espinhos do nopal.
Sem flautas e sem flores esta viagem
de morcego cego vai à sua direção.
Nunca quis que você mordesse minha boca.

 Cagado abismo, quero saber
por que passo a vida aguentando
noites sem você.
Quero saber se passarei meus dias sozinha
me transformando em pedra a cada dia. 

Quero saber por que meu ser nu
avança mudo de joelhos
engolindo a poeira dos seus caminhos.
Quero saber por que as sombras
aumentam a cada dia,
por que estou viva se você me quer morta.
Já percebi depois de tantos anos
que ser mulher não é tão bom assim.
Querido abismo, quis somente isto:
que você me quisesse, que me devorasse.
Por que não me arrebata de uma vez?

 

Cagado abismo, quiero saber

por qué en los hielos de noviembre
arrastro mi bruto cuerpo hacia tu hocico
por qué en enero tiritando de frío espero abril.
Quiero saber, pinche abismo
por qué estoy rodeada de paredes
prisionera frente de una hambre
que no tienen nombre
por qué fui pendeja, por qué joy desgraciada.
Te digo, you fucker, nunca quise
que tú lamieras mi boca con la tuya.

 Aquí me tienes tronándome los dedos
encadenando el futuro con las barajas
enredándome más honda en tus barbas
haciéndole preguntas a Urano.
Quiero saber por qué el alma indomado
continúa rastreando
mi bruta carne sobre espinas de nopal.
Sin flautas y sin flores este viaje
de murciélago ciego va hacia tu rumbo.
Nunca quise que tú mordieras mi boca.

 Cagado abismo, quiero saber
por qué paso la vida aguantando
noches sin ti.
Quiero saber si pasaré mis días sola
haciéndome más piedra cada día.

 Quiero saber por qué mi ser desnudo
pasa mudo de rodillas
tragándose el polvo de tus caminos.
Quiero saber por qué las sombras
se hinchan más cada día,
por qué yo vivo cuando tú me quieres muerta.
Ya me di cuenta después de tantos años
que ser mujer no es cosa tan dichosa.
Querido abismo, nomás esto he querido:
que tú me quieras, que tú me devoraras.
¿Por qué no me arrebatas de una vez?

§

 

Viver na Fronteira significa que você

não é nem hispana índia negra espanhola
nem gringa, você é mestiça, mulata, cabocla
surpreendida entre um fogo cruzado numa batalha
enquanto carrega cinco raças nas costas
sem saber pra que lado virar, ou correr;

Viver na Fronteira significa saber
que a índia em você, traída por 500 anos,
já não fala mais com você,
que mexicanas te chamam de Judas,
que negar ser Anglo-americana
é tão ruim quanto ter negado ser Índia ou Negra;

Quando se vive na fronteira
pessoas passam por você, o vento rouba sua voz,
você é burra, toupeira, bode expiatório,
precursora de uma nova raça,
meio a meio – mulher e homem, nenhum deles –
um novo gênero;

Viver na Fronteira significa
colocar chile em uma borche,
comer tortilhas de farinha de trigo,
falar Tex-Mex com um sotaque de Brooklyn;
ser parada pela migra nos controles da fronteira;
Viver na Fronteira significa que você luta
para resistir ao atraente elixir de ouro da garrafa,
contra a puxada do gatilho,
contra a corda esmagando sua garganta;

Na Fronteira
você é o campo de batalha
onde os inimigos são parentes;
você está em casa, uma estranha,
as disputas na fronteira cessaram
a chuva de disparos acabou com a trégua
você está ferida, fraca
morta, reagindo;

Viver na Fronteira significa
que o moedor, de dentes brancos, quer dilacerar
sua pele oliva, tirar o grão, seu coração
te socar te apertar te esticar
que você cheire a pão branco, mas morto;

Para sobreviver à Fronteira
você deve viver sem fronteiras
ser um cruzamento.

 

 To live in the Borderlands means you

   are neither hispana india negra española
   ni gabacha, eres mestiza, mulata, half-breed
caught in the crossfire between camps
while carrying all five races on your back
not knowing which side to turn to, run from;
To live in the Borderlands means knowing
that the india in you, betrayed for 500 years,
is no longer speaking to you,
that mexicanas call you rajetas,
   that denying the Anglo inside you
is as bad as having denied the Indian or Black;
Cuando vives en la frontera
   people walk through you, the wind steals your voice,
you’re a burra, buey, scapegoat,
forerunner of a new race,
half and half – both woman and man, neither –
a new gender;
To live in the Borderlands means to
put chile in the borscht,
eat whole wheat tortillas,
   speak Tex-Mex with a Brooklyn accent;
be stopped by la migra at the border checkpoints;
Living in the Borderlands means you fight hard to
resist the gold elixir beckoning from the bottle,
the pull of the gun barrel,
the rope crushing the hollow of your throat;
In the Borderlands
you are the battleground
where enemies are kin to each other;
you are at home, a stranger,
the border disputes have been settled
the volley of shots have shattered the truce
you are wounded, lost in action
dead, fighting back;
To live in the Borderlands means
the mill with the razor white teeth wants to shred off
your olive-red skin, crush out the kernel, your heart
pound you pinch you roll you out
smelling like white bread but dead;
To survive the Borderlands
you must live sin fronteras

   be a crossroads.

§

 

Não se entregue, chicaninha
jovem Anzaldúa)

 Não se entregue, minha pretinha,
aperte o cinto, aguente.
Sua linhagem é antiguíssima,
suas raízes como as das mesquites,
bem plantadas, perfuram a terra
rumo a essa corrente, alma da terra mãe
sua origem.

 Sim, minha filha, sua gente cresceu nos ranchos
aqui no Vale pertinho do rio Grande
bem na fronteira
na época anterior a dos gringos
quando Texas era México.
Você é descendente dos primeiros vaqueiros
lá de Vergeles, em Jesus Maria terra Dávila.
Mulheres fortíssimas te criaram:
sua mãe, minha irmã, minha mãe e eu.
E sim, tiraram nossa terra.
Não sobrou nem o cemitério
onde enterraram Don Urbano, seu tataravô.
Tempos duros como pedra carregamos
de cabeça erguida caminhamos.

 Mas nunca tirarão nosso orgulho
de ser mexicana Chicana texana
nem nosso espírito índio.
E quando os gringos acabarem
olha como matam uns aos outros
aqui vamos estar
como os lagartos-de-chifres e as lagartixas
sobreviventes da Era do Fogo, o Quinto Sol.

 Talvez morrendo de fome como sempre
mas uma nova espécie
pele entre negra e bronzeada
quase cerrando as pálpebras
com o poder de ver o sol por olhos nus.
E viva, minha filha, muito viva.

 Sim, sinto que dentro de alguns anos ou séculos
a Raça se levantará, língua intacta
carregando o melhor de todas as culturas.
Essa víbora adormecida, a rebeldia, surgirá.
Como couro velho, acabará a escravidão
de obedecer, de calar, de aceitar.
Como víbora relampejando nos moveremos, mocinha.
Você vai ver!

 

No se raje, chicanita
(para Missy Anzaldúa)

No se raje mi prietita,
apriétese la faja aguántese.
Su linaje es antiguísimo,
sus raíces como las de los mesquites,
bien plantadas, horadando bajo tierra
a esa corriente, el alma de tierra madre –
tu origen.

 Si m’ijita, su gente se creó en los ranchos
aquí en el Valle cerquita del río Grande
en la mera frontera
en el tiempo antes de los gabachos
cuando Tejas era México.
De los primeros vaqueros descendiste
allá en los Vergeles, en Jesús María tierra Dávila.
Mujeres fortísimas te crearon:
tu mamá, mi hermana, mi madre, y yo.

 Y sí, nos han quitado las tierras.
Ya no nos queda ni el camposanto
donde enterraron a Don Urbano tu vis-visabuelo.
Tiempos duros como pastura los cargamos
derechitas caminamos.

 Pero nunca quitarán ese orgullo
de ser mexicana Chicana tejana
ni el espíritu indio.
Y cuando los gringos se acaban
mira como se matan unos a los otros
aquí vamos a parecer
con los horned toads y los lagartijos
survivors del First Fire Age, el Quinto Sol.

 Quizá muriéndonos de hambre como siempre
pero una nueva especie
piel entre negra y bronces
segunda pestaña bajo la primera
con el poder de mirar al sol ojos desnudos.
Y vivas, m’ijita, retevivas.

 Sí, se me hace que en unos cuantos años o siglos
la Raza se levantará, lengua intacta
cargando lo mejor de todas las culturas.
Esa víbora dormida, la rebeldía, saltará.
Como cuero viejo caerá la esclavitud
de obedecer, de callar, de aceptar.
Como víbora relampagueando nos moveremos, mujercita.
¡Ya verás!

 ***

Thaís Soranzo é graduanda em Estudos Literários pela Unicamp. Durante a graduação, foi membro por um ano do corpo editorial da Revista Arcádia (IEL/Unicamp) e cursou um semestre acadêmico na Universidad Carlos III de Madrid, Espanha. Realizou também, através do programa High School, um intercâmbio de um ano em Ohio, Estados Unidos.

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