tradução

Severina Comédia

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La Divina Commedia, por Matteo Berton

long story short: durante o processo de expansão e dominação do império romano o latim funcionou, majoritariamente, como uma língua de superstrato, ou seja, como a língua do conquistador, exercendo aquela severa influência na língua (e cultura) dos vencidos e, com isso, ajudando a disseminar toda a carga cultural romana. nada de novo nisso, não é mesmo carmen miranda? a questão é que quando esse processo começa a entrar em declínio, lá no séc. III, logo após atingir sua extensão máxima no século anterior, e o império começa a perder territórios, o latim que até então funcionava como uma importante ferramenta de dominação dos povos também começa, ainda que muito lentamente, um processo seu também de declínio; criando, deste modo, o espaço propício pra que outras línguas, a dos novos conquistadores, neste caso, pudessem vir a atuar como novas línguas de superstrato. mirem o caso da península ibérica, por exemplo: território romano, a ‘hispânia romana’, é dominada pelos visigodos em 507, redominada pelos árabes em 711 e, pouco mais de sete séculos depois, 1492, reconquistada pelos cristãos. salada do caralho.

quando finalmente cai o império romano do ocidente, em 476 d.C., as antigas regiões de domínio romano, agora sob o domínio de outros povos, eslavos e germânicos, por exemplo, já haviam começado o processo de evolução a um estágio entre o latim propriamente dito e o latim em pó, para citar caetano veloso. todavia, é fundamental recordar uma coisa: o latim que passou a enfrentar mais fortemente esse processo de ‘suplantação’ foi, sem dúvida, o latim falado. o latim escrito, ainda que obviamente também suscetível aos mesmo processos de evoluções linguísticas, conseguia resistir como uma espécie de língua franca da cultura, da erudição e das elites. e é preciso, além disso, ter em mente a questões dos latins, ou seja, das variantes da língua. nossas palavras, em boa parte, descendem do primo pobre, do latim vulgar (vide o caso de ‘auris’ [orelha] que no diminutivo era ‘auricula’ e no vulgar virava ‘oricla’. assim fica fácil ver a nossa orelha vindo do populacho).

e é já lá pelo apontamentos do fim da idade média que essas línguas começam a se estruturar, junto com os próprios estados. portugal, por exemplo, no séc. XIII, rompendo com o galego-português e mudando a corte, e o centro de cultura, para o sul, eixo coimbra-lisboa.

é nesse contexto, portanto, bizarramente aqui resumido (prum panorama decente sobre essa questão linguística-histórica da evolução do latim pras línguas românicas, cf., por favor, o livro história concisa da língua portuguesa, de rodrigo tadeu gonçalves & renato miguel basso), que dante alighieri, no começo do séc. XIV, escreveu seu tratado de vulgari eloquentia, i.e., alguns anos antes de começar a divina commedia. ainda que o poeta buscasse identificar uma linguagem que atendesse às exigências de uma língua literária italiana verdadeira, um “ilustre vulgar”, o estabelecimento de um registro que fugisse já das normas intelectuais do latim certamente nos diz muito sobre sua obra. isto é, o interesse do poeta italiano por um registro gentílico, comum, até vulgar que seja, aponta precisamente pra esse turning point da formação das línguas.

sobre o tratado: eis que após tanto pesquisar as línguas que o circundavam, dante chega à inegável conclusão de que a melhor língua era, pasmem, aquela que ele mesmo falava (risos).

mas a questão que se impõe aqui, creio, é de outra ordem: dante fez com o italiano aquilo que camões faria com o português mais de dois séculos depois, i.e., definir as bases de uma língua que estava em processo de formação gramatical escrita a partir da criação de uma obra literária – as primeiras gramáticas do português só sairíam no mesmo século d’os lusíadas. ah, a poesia ajudando as línguas desde sempre (vide a odusia de lívio andronico). ou seja, ainda que todo o peso do gênio criador, do hermetismo e do preciosismo medieval recaiam sobre a obra de dante, não é possível ignorar a escolha política que se une à escolha da língua em que se escreve o poema. a épica de dante se inscreve precisamente num registro que habita o exterior daquilo que então se concebia como ‘língua de erudição’. basta apenas compararmos ao tratado, escrito em latim, que precede temporalmente o poema.

sobre tradução: o corolário de traduções da commedia (que é imenso, diga-se de passagem. clique aqui para ler as já publicadas no blog), de algum modo, costuma trabalhar justamente com o aspecto dantesco do poema, deixando de lado sempre esse aspecto linguístico que julgo um bocado importante. eu, por minha via, concebendo isso, não consigo me furtar a ver certa semelhança vulgar, gentílica & popular entre o poema de dante e, por exemplo, o auto de natal morte e vida severina, de joão cabral. do mesmo modo que maurício mendonça cardozo enxergou na novela der schimmelreiter, de theodor storm, uma abertura rosiana possível, criando seu centauro bronco. a casca pra mim é o tempo, mas o núcleo duro tá lá: o homem lutando contra a aridez de seu ambiente. o cenário frio e úmido do norte da alemanha não é, evidente, o mesmo que o sertão quente e seco brasileiro, contudo o caráter constritivo ronda ambos, assim tanto quanto a questão metafísica. ou: um homem começa à porta do inferno com a morte à ronda e caminha rumo à salvação e ao paraíso; um homem começa no sertão, à beira da morte por fome e sede, e caminha rumo à autosalvação e à possibilidade de vida. é tudo questão de um movimento de abertura das possibilidades de alcançar esse outro, de forçar a conversão da linguagem numa diversão (cf. gontijo, propércio, 2014), numa crise, num overdub, como gosto de chamar. é “dizer de um jeito todo outro, que parece mesmo nem repetir quando bem repete”. haroldo de campos, por exemplo, em seu famoso ensaio deus e o diabo no fausto de goethe, que já no título remete ao cinema de glauber rocha, também acha por bem mudar uma parte da obra do poeta alemão numa dicção cabralina. as possibilidades estão dadas, portanto.

ou seja, dito isto tudo, aquilo que me interessa é precisamente o ‘abrir um novo campo de leitura (ou desleitura) do texto’. em grande parte por esse próprio motivo é que trago apenas uns poucos versos em tradução. não venho propor uma tradução integral nestes modelos senão uma aproximação dialética possível, uma fricção de discursos. e com isso, claro, aceito o risco da conversão a ser feita – que aqui pode ser chamada de tradução, apropriação, mudança, trambique, reescrita, pouco me importa. me interessa, nesse caso, investigar uma possibilidade de desleitura do poema, de um estranhamento na sintaxe e semântica dantesca, na antropologia. nada muito diferente do nosso urubu, eu diria, exceto pela minha diletância.

dito tudo isto, again, cito will ferrell em blades of glory: “no one knows what it means, but it’s provocative“.

sem mais, passemos à tradução.

 

sergio maciel

* * *

Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura,
ché la diritta via era smarrita.

Ahi quanto a dir qual era è cosa dura
esta selva selvaggia e aspra e forte
che nel pensier rinova la paura!

Tant’è amara che poco è più morte;
ma per trattar del ben ch’i’ vi trovai,
dirò de l’altre cose ch’i’ v’ho scorte.

Io non so ben ridir com’i’ v’intrai,
tant’era pien di sonno a quel punto
che la verace via abbandonai.

No meio do caminho de
nossa vida, vejo-me agora
onde o pé se descaminha.
Em certa paragem escura,
de alma e gente vazia.
Eu que do caminho mais certo,
de todos o melhor guia,
pensei jamais me perderia,
tenho de saber agora
qual a verdadeira via
entre essas que escancaradas
frente a mim se multiplicam.
Como então dizer tais coisas
ora a Vossas Senhorias?
Como contar dessa selva
onde só a treva vejo ativa
e o medo cumpre sua sina?
E pouco mais é a morte
que narrar essa descida,
por isso darei notícia
da sorte que há na vida.
Dizer não sei ora a Vossas
Senhorias como dei
em tais tortas cercanias.
Tanto vencesse a fadiga
que emaranhei todo o fio
de que a estrada fosse a linha.

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